De um “puro” para alguns “polidos”

Se há uma coisa que muito tem distinguido PCP e BE é a estratégia política para alcançar o poder.
O PCP, sobretudo a partir da eleição de Jerónimo de Sousa para secretário geral, recentrou essa estratégia em torno da luta de massas. As eleições têm importância como um meio de contacto com as populações e de comunicação política, mas parte do princípio que não se poderá construir nenhum projecto transformador e revolucionário sem que estejam criadas as famosas condições objectivas. A importância da Marcha do Protesto em plena campanha das europeias ou a pouca relevância dada a concordâncias com outros partidos, são reveladores e coerentes com esta estratégia.
O Bloco, no seu início, assumiu-se como o partido dos movimentos e das causas. Criou plataformas e integrou outras, tendo feito dessas organizações a sua principal fonte de recrutamento e contacto com a população. Por isso, nos primeiro tempos de existência, o BE era o partido das causas, dos direitos LGBT à Taxa Tobim.
Mas esse partido foi desaparecendo.
Não desistindo das suas causas fundadoras o Bloco viu num PS definitivamente instalado à direita uma janela de oportunidade para ganhar peso eleitoral. Moderando o discurso e estabelecendo pontes com uma eterna e quimérica esquerda do PS, o Bloco recolocou a sua estratégia no acto eleitoral, transformando-o no partido mais parlamentarista do espectro político nacional (talvez a par do CDS).
Assim, como será fácil de entender, para a estratégia política do PCP o BE é pouco relevante, mas para a estratégia do BE, o PCP, é muito relevante.
Acreditando que o BE não pensa que o PCP desaparecerá eleitoralmente, resulta surpreendente que dirigentes do Bloco assinem artigos de opinião em que colocam, tal como o PS, o PCP fora dos partidos democráticos, como o faz João Teixeira Lopes no artigo “Os puros nunca se misturam“.
Coerentemente mediante esta análise, e sabendo que este dirigente do BE faz parte da tendência (como lhe chama) maioritária do BE, o Bloco nunca procurará qualquer entendimento político parlamentar com o PCP, ou com os seus eleitores – que no artigo são claramente hostilizados e tidos como perfeitos idiotas.
Para um partido de esquerda que escolheu a via parlamentar, não percebo onde irá encontrar a sua «esquerda grande».

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60 respostas a De um “puro” para alguns “polidos”

  1. Luis diz:

    “Não houve só quem quisesse sair com o tal estrondo. Muitos seus “camaradas” foram ostracizados apenas porque “constava”. Porque constava… continua no domínio do subjectivo. Pois eu estou cá dentro e tem que admitir que estou objectivamente muito mais bem colocado para falar do assunto.

  2. Luis Rainha diz:

    Que você ainda esteja lá dentro não me custa a crer: não percebeu pevides do que escrevi.
    Não há nada de “subjectivo” em dizer que camaradas seus foram mal tratados porque havia conversas (o tal”constava”) dentro da ala “firme” a atribuir a esses camaradas tendências e amizades suspeitas. Sem qualquer razão, em bastantes casos. Tal bastava depois para que essas pessoas fossem tratadas de forma canalha. Isso aconteceu. Se ainda acontece, já pouco me interessa; não voltarei por certo a trabalhar, pago ou de borla, para o seu partido. Nem quero ter absolutamente mais nada a ver com ele.

  3. Luis diz:

    “Se ainda acontece, já pouco me interessa; não voltarei por certo a trabalhar, pago ou de borla, para o seu partido. Nem quero ter absolutamente mais nada a ver com ele.” Está no seu direito. Só não percebo porque é que continua a malhar nele. Eu quando deixo de me interessar por uma coisa, esqueço-a.

  4. Luis Rainha diz:

    Não vou nunca entrar num movimento skinhead ou votar no PNR. O que não me impede de “malhar” neles, como diz. Está a ver a coisa?

  5. Luis diz:

    “Não vou nunca entrar num movimento skinhead ou votar no PNR” ???? E o que é que isto tem a ver com a conversa?

  6. i.tavares diz:

    Oh! Sr. Luís Rainha. Fracamente,não o pensava assim tão anti, não vou dizer que seja “primário” porque acredito que o Sr. não acredita nas estórias salazarentas, dos pequenos almoços de criancinhas e outras.Mas por favor em nome da inteligência,porque tenho consideração por si ,não seja tão secundário.

  7. Luis Rainha diz:

    Luis,
    A esta hora, você por certo que já deve estar no CC. Eu explico: há coisas que não nos interessam pessoalmente e com as quais não nos queremos misturar mas que merecem algum empenho ocasional. Eu dou-lhe outro exemplo: também não me interessa o futebol, no entanto reservo-me o direito de sobre ele emitir opiniões. Já está a ver?

  8. Luis Rainha diz:

    Aos dois, volto a afirmar o que acima disse: se ao menos o PCP fosse mesmo diferente dos demais, na promoção desenfreada do carreirismo, na busca de tachos sempre que há uns pózinhos de poder, nos compadrios com construtores civis mal as eleições se aproximam, no uso de recursos estatais em proveito próprio, na perseguição feroz a quem seja sequer suspeito de se dar com gente de pouca confiança… aí eu seria capaz de me imaginar a votar na CDU.

    Isto não é ser primário nem secundário: é saber que existe mais para lá de manifestos e arengas em comícios. Se o PCP já não sabe manter um mínimo de verticalidade e moral na sua vida, trai a sua história e fica igual aos outros. Entendidos?

  9. Luis diz:

    “A esta hora, você por certo que já deve estar no CC” ???? Por acaso não estou nem nunca estive, mas não consigo ver o qur há de desonroso em alguém ser do CC. Pelo contrário, é sempre uma honra e sinal de reconhecimento de quem o propôs e votou.

  10. Luis Rainha diz:

    E então no Secretariado… é só olhar para aquelas distintas figuras para apreciar o âmbito descomunal da honra.

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