O planeamento rosa

Este texto surge a propósito da polémica relativa à introdução de uma área de reserva de extensão do Terminal da Trafaria, prevendo o seu aumento de capacidade (de 1,2 milhões para 6 milhões de toneladas/ano de granéis) e na sequência de dois textos recentes: um de Paulo Pedroso outro da minha amiga e colega Ana Miguéns, ambos candidatos autárquicos do PS em Almada.
A Câmara Municipal de Almada e todas as forças políticas locais já se manifestaram contra esta ideia que consta do Plano Regional de Ordenamento de Território da Área Metropolitana de Lisboa. Publicamente, apenas a CCDR-LVT e Parque Expo parecem defender esta solução, sendo que o próprio Porto de Lisboa, ainda que a defenda, assume não estar nos seus planos a extensão para a margem sul.
Paulo Pedroso defende que esta ideia se centra numa visão passadista de ordenamento do território da margem sul do rio, em certa medida subjugada aos interesses de expansão da cidade de Lisboa e Ana Miguéns centra o problema na ausência de um pensamento territorial de grande escala.
Ambos têm razão, embora nenhum conclua o que parece óbvio a qualquer cidadão: é a forma de fazer ordenamento do território, de pensar e de planear a região de Lisboa que está completamente obsoleta.
Na ausência de um poder regional democraticamente eleito, sobretudo na região de Lisboa e Vale do Tejo ganharam absurda relevância alguns actores que não são mais do que uma expressão de um mediocre aparelho socialista. A partir de pretensos pareceres técnicos licenciaram-se aberrações – o Freeport de Alcochete é uma das mais mediáticas,  e distribuiu-se encomendas e benesses a sinistras figuras do poder rosa (o famoso Manuel Pedro, arguido no Caso Freeport, foi uma das distintas figuras do planeamento rosa que a CCDR-LVT resolveu presentear com uns trabalhinhos).

Como Almada é uma câmara liderada pela CDU não lhes terá sido nada difícil inventar uma zona de reserva – ainda que tecnicamente insustentável por já não existir qualquer possibilidade de ligação ferroviária ao terminal.
Como dizia há uns dias Ruben de Carvalho, a propósito do terminal de Alcântara, o essencial não é existir ou deixar de existir mas sim a forma e rapidez como as mercadorias podem ser escoadas. Ou seja sabermos se, na Trafaria ou em Alcântara, estamos a criar um armazém privado a céu aberto ao serviço de um qualquer interesse privado ou se estamos a re-desenhar uma estrutura distribuição das mercadorias deve ser pensada a nível nacional.
É absolutamente urgente para o nosso futuro próximo, que esta oligarquia que emergiu em torno de Sócrates seja imediatamente afastada dos organismos de poder nas áreas do ambiente e ordenamento do território, para que a partir daí o país possa começar a ser repensado e consertado. Em coerência, Paulo Pedroso e a Ana Miguéns, deviam assumi-lo.

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