DAN FLAVIN – uma recomendação antes que se faça tarde


DAN FLAVIN. Untitled (To Don Judd, Colorist). 1987.

Como eu quase nunca concordo com as ideias e piadas dele (e o “arrastão” puxa sempre para o “engraçado”, desde os bonecos aos títulos), o Daniel Oliveira classificou como soporíferos aos meus textinhos. Porra, e eu que não sabia disso. Pois então, se assim é, vamos a mais um post soporífero de todo, soporífero, soporífero como nunca se leu aqui: faço uma recomendação enquanto é tempo que tem a ver com uma exposição (ora, o Sr. Daniel já dorme nesta parte do texto).

A exposição está no CCB até 30 de Agosto, apressem-se todos; além do mais é uma mostra um tanto discreta em dimensão: são três obras de Dan Flavin em duas salas. São obras deste destacadíssimo “escultor” minimalista pertencentes à Colecção Panza, de que é proprietário o conde Panza di Biumo, homem famoso das artes e controverso que se dedicou muito coerentemente ao coleccionismo da arte das neovanguardas internacionais (anos 60-70), com especial destaque e atenção para com o minimalismo e a arte conceptual. A sua colecção é gigantesca e deu para dádivas ao MoCA de Los Angeles, ao Guggenheim e ao Hisrshhorn de Washington, sem esquecer dádivas a instituições italianas. A sua relação com os minimalistas nem sempre foi pacífica, pois uma ou mais vezes o conde mandou executar obras de Judd (o teórico central do minimalismo) de que dispunha apenas desenhos, no fundo refazendo o trajecto dos mesmos se se mantivessem nas mãos do próprio artista, pois o minimalismo pressupunha a produção industrial das obras, que nunca eram esculturas nem pinturas, mas antes “objectos específicos” (conceito de Judd).


“Monument”. 1967.

Simplificando a nossa descrição, as obras de Flavin são constituídas por lâmpadas fluorescentes coloridas que de imediato estabelecem relações com a arquitectura. Logo, esquivam-se da escultura relacionando-se com a arquitectura, e esquivam-se da pintura “fugindo” flagrantemente da parede e de uma bidimensional condição parietal. Pensando no minimalismo, devemos lembrar as “esculturas” cúbicas abertas de Don Judd, serializadas e produzidas compositivamente em redes geométricas multiplicando um módulo que se pode indefinidamente repetir, devemos pensar nos mesmos processos formais aplicados aos pavimentos de Carl Andre, às lâmpadas de Flavin, às “tábuas” de McKracken encostadas às paredes ou à pintura de Robert Mangold. Judd, Andre, Flavin ou McKracken põem-nos de imediato em contacto com uma realidade: o mundo do objecto. Mas, atenção, não foram os minimalistas que integraram o objecto na arte contemporânea, foi Duchamp, sempre ele.

Thierry De Duve, um assíduo estudante da obra do autor dos readymades, sintetizou a produção e inovação duchampiana em dois tópicos: 1) a arte é um nome próprio e 2) pode-se fazer não importa o quê; ora pode-se fazer tudo, mesmo tudo, desde que se saiba nomear algo como “arte”. Então, para Duchamp, a arte é um nome, uma fórmula linguística, mas não apenas – para mim, o readymade tem três componentes: o nome, o título (que numa fórmula brilhante Duchamp disse ser a “cor invisível” da pintura) e o objecto – o objecto de que ele se apropriava para chamar de… “arte”.

Aqui, entretanto, desaparecia a intervenção da mão e a manualidade. Como no minimalismo. Mas Flavin recorre à luz e a luz tem uma história teológica, numa vertente espiritual e artística. Ora de onde lhe vem esta dimensão sagrada? Do facto de que a luz ilumina e permite visualizar as imagens, mas ela, a luz, não pode ser vista.

Em relação às imagens Platão é talvez o autor com maiores ambivalências: elogia-as, como à visão, no Timeu; faz-nos desconfiar das imagens e da visão no Teeteto e no Fedro (onde diz que a visão não nos permite alcançar a sabedoria). Mas, teologicamente, é S. Tomás de Aquino, quando cita o Salmo XXXVI – “com a tua luz [Senhor] veremos a luz” – que melhor ilustra a dimensão simbólica da luz que, curiosamente, quando aqui falei de Caravaggio disse que não era o ponto central da sua obra. Tal como o simbolismo não é a dimensão central das luzes de Flavin, como dizia nos anos 60 o seu colega Mel Bochner: porque Flavin prefere sempre a presença à transcendência. Lógico.

É Merleau-Ponty quem nos pede um “contrato ingénuo” com o mundo, que o descrevamos e não comecemos por explicá-lo. Ora, Ponty é importante para o minimalismo, tal como as luzes de Flavin são importantes para a arquitectura que as envolve. E creio mesmo que quem vê Flavin nunca mais olha para uma sala da mesma meneira: através da luz “geométrica”, Flavin mostra-nos a arquitectura como nunca a vimos. Quem quiser experimentar, passe pelo CCB.

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74 respostas a DAN FLAVIN – uma recomendação antes que se faça tarde

  1. Mário de Sousa diz:

    Parece que estão todos mudos…será que alguém se picou??

  2. Inês Pedrosa diz:

    Caro Mário,

    Posso lhe dizer que virtuoso, original e rebelde é o Alonso Martinez!! Qualquer idiota pode, mesmo sem conhecer o seu percurso, verificar isso! Quer nos seus trabalhos quer na sua biografia!! Esse é homem!! Só é pena ter exposto na galeria dos bimbos: a Arte Periférica!!

    Mas nesse, aqui o Setôr não fala!! Talvez porque se arrisca a levar um tiro nos cornos!!!

    Vamos lá vêr se o Setôr tem, no minimo, dignidade para aprovar este comentário…!

  3. Carlos Vidal diz:

    Caro Mário de Sousa,
    Não foi a pensar nas galerias que eu respondo às suas perguntas para escolher artistas segundo os critérios que me designou.

    Repare, o mercado da arte hoje, em Lisboa-Porto ou em Nova Iorque, é tão vasto e plural, que dificilmente lhe há um exterior, ou uma série de génios escondidos e ainda “sem representação”.
    Não é impossível, mas é difícil.
    Passe pela Bienal de Veneza e verá que tenho razão: não há uma nem duas nem três … linhas estéticas dominantes – há uma infinidade de hipóteses de trabalhar ou realizar trabalhos (provavelmente tantas como o número de artistas).

    O Bunga próximo do Diebenkorn … não sei, talvez.
    E o Amadeo de Picasso. E Picasso de Braque, e Braque de Cézanne, e Manet de Velázquez ……………….

    Por aí não se faz caminho, tenho pena.

  4. Mário de Sousa diz:

    Epá…o Bunga é comparável a todos esses génios:):):)

    Só que todos esses passaram fome! Não foram meninos bem comportadinhos a fazer curriculum limpinho!!

    Esses entregaram a vida à arte, Sr. Vidal!!!

  5. Inês Pedrosa diz:

    Ui, hoje isto promete! Com censura e tudo! E depois vêm estes senhores falar mal do Governo…ahahahah

  6. Carlos Vidal diz:

    Cara Inês P., vou sugerir-lhe um nick bem mais poético: Inês, apenas Inês, que tal? Por uma razão: não gosto nada do que escreve e publica a Inês Pedrosa romancista, e dos seus comentários eu gosto.

    Caro Mário de Sousa, eu não comparei o Bunga a ninguém, não se precipite.
    E já que me pede nomes, há uma outra hipótese: Gabriel Abrantes.

    E, por exemplo, também há dois consagradíssimos, Paiva e Gusmão, que estão a representar Portugal em Veneza agora, que, apesar de ofertados com todas as honrarias, não me convencem – como vê, há consagrados e celebrados a que eu não adiro. Não me sinto forçado nem obrigado a aderir a celebridades (ao contrário do que v. pensa).

    O passar fome não é um critério único, nem critério sequer: por exemplo, Velázquez nunca passou fome (e foi/é, provavelmente, o maior inventor da história da pintura……..).

    Cumps.
    CV

  7. Mário de Sousa diz:

    Pensei que o maior inventor da história da pintura fosse por exemplo o Giotto…!

    Será que você não se precipitou um pouco e disse asneira??

  8. Mário de Sousa diz:

    Ah…em relação ao Gabriel Abrantes…não acha que é muito novinho para pintar à anos 80??

  9. Inês Pedrosa diz:

    Querido Setôr,

    O meu nome é Inês Pedrosa! Não aquela mas outra! Ok?

  10. jEAN dAVID diz:

    Caro Senhor Carlos Vidal,

    Que ridiculamente interessante você é!

    Um terceiro-mundista que pensa ter voto na matéria! Não me faça rir! Não nos faça rir a todos! Você está ao nivel do seu país! Você é o seu país!! Você não existe! Escritor?? Ahahahah….não seja ridiculo!

    VOCÊ NÃO EXISTE!!!!!!!!!!

  11. Carlos Vidal diz:

    Cara Inês Pedrosa, se o seu nome é esse e você é a outra, pronto, não se fala mais nisso. Está certo, é a outra e também se chama Inês Pedrosa, e escreve melhor que a romancista. Ok.
    Censurá-la eu? Nem pensar.

    Mário de Sousa, o Gabriel Abrantes não pinta à anos 80, agora faz cinema.

    Quanto a Velázquez – pode estar certo de que não me enganei: é a porta de saída quando se entra por Giotto. Mas Giotto era um homem do seu tempo, e Velázquez está entre o século XX e o XXI.

    Tenho para aqui no 5dias dois longos posts que justificam tal afirmação.
    Procure, sff.
    Se já os leu e não gostou nada (o mais certo), paciência.
    Amigos e inimigos como dantes.

  12. Mário de Sousa diz:

    …”a porta de saida quando se entra por Giotto”…Ok! Não sabe perder!
    Mas o Giotto não era um homem do seu tempo! Mais o era o Velazquez tendo como paralelo o Rembrandt! Quer discutir pintura comigo???

    Ah…o miudo..o Gabriel Abrantes agora não pinta à anos 80 e faz cinema?? E o que fez com a tão genial pintura! Ficou-se por ali??

  13. Mário de Sousa diz:

    Meu caro Carlos Vidal,

    Assumindo-se você, nestes comentários, como um defensor dos homens que não são do seu tempo mas para além, não acha que deveria abrir os olhos aos grandes artistas de hoje?? Identificar aqueles que são do futuro?? É que até agora você só mencionou aqueles que estão a fazer o que se faz pelos 4 cantos do mundo!! Não há terriola que não tenha uma galeria com uma instalação “déjà vu” ou luzes neon!!

    Caramba! Abra os olhos homem!! Preste atenção ao unusual!!

    A sua atitude é igual à dos que criticavam o Velazquez no seu tempo!

  14. Carlos Vidal diz:

    Nunca ninguém criticou Velázquez, nem no seu tempo, nem agora.
    Cumps.
    CV

  15. Carlos Vidal diz:

    E pergunta-me se eu quero discutir pintura consigo, Mário de Sousa?
    Não.

  16. Mário de Sousa diz:

    Caro entendido D. Vidal,

    A pintura “Vénus ao espelho” gerou muita polêmica na época, pois não era comum retratar nu feminino, nem mesmo de uma figura mitológica. Ele não a trata como uma deusa, mas como uma simples mortal no momento da toilete!!

    FOI MUITO CRITICADA!!!

  17. Carlos Vidal diz:

    D. Diego teve todas as honrarias possíveis em vida.
    Foi aposentador do rei e não só.
    Leia Palomino, o biógrafo.
    Ou Carl Justi.
    Uma simples opinião sobre apenas uma obra não tem qualquer significado para seja que conversa for.
    Passar bem.

  18. Mário de Sousa diz:

    Leia o que você escreveu lá em cima:

    “Nunca ninguém criticou Velázquez, nem no seu tempo, nem agora.”

    Você diz asneiras, homem!

    Quem não discute mais pintura com você sou eu!!!
    Tenho mais que fazer!!!!

  19. Você nada sabe de pintura.
    Confunde pintura com episódios menores da história da arte e intrigas da sociedade.
    Leia a “Caras”, também, há lá pintores.

  20. Mário de Sousa diz:

    Há pintores na “Caras”?

    Não sabia! Obrigado pela informação!

  21. Mário de Sousa diz:

    Ahahahah…..só agora reparei: se o Velázquez fosse vivo, com as ambições sociais que sempre teve, não viria na “Caras” mas sim na “HOLA!”!! Você sabe disso!! E pelos vistos você seria o primeiro a dizer mal dele por esse simples facto!! Já viu como são os lapsos Freudianos?????

  22. Antonio Alonso Martinez diz:

    “Prefiro ser o primeiro pintor dos populares ao segundo dos requintados!”
    Diego Velázquez

    Na verdade ele foi o primeiro dos populares e o primeiro dos requintados! Como diz Carlos Vidal, ele é um pintor intemporal!

    Este é um dos blogues que tenho mais ou menos acompanhado. Felicito o Carlos Vidal por nos apresentar, junto aos seus textos, sempre artistas fora do comum.

    Não me parecem construtivos alguns comentários que aqui se fazem. Parece que há algum problema pessoal com o CV mais que outra coisa. Este poderia ser um espaço interessante de cooperação. Pena que algumas pessoas venham aqui descarregar outro tipo de problemas.

    Se conheço este blogue foi porque alguém me disse que haviam falado em mim. Pois bem, já o fizeram mais do que uma vez. Sempre a mesma pessoa que sinceramente não faço ideia de quem seja. Espero que todos os que acompanham este espaço se apercebam de que se trata de uma brincadeira de alguém com afirmações que não correspondem à realidade da minha pessoa.

    António Alonso Martinez

  23. Carlos Vidal diz:

    Muito grato pelas suas palavras António Alonso Martinez.

    Em geral, creia que recebo muito mais comentários favoráveis e simpáticos do que desfavoráveis e absurdos. Mas leio ambos, de ambas as “categorias”.
    Isto para lhe dizer que, de uma forma um tanto estranha, estes meus dois últimos posts sobre arte, um sobre Dan Flavin, este, outro sobre arte feminina do século XX e arte e feminismo (tema de expo. no Centro Pompidou), foram literalmente invadidos por comentadores ou comentadoras completamente estranhas quer ao blogue, quer aos meus posts. Como não apago comentários, fui deixando passar estes absurdos todos – por isso agradeço o seu comentário e felicito-o pela sua exposição, pois o seu trabalho desenvolve-se numa linha incomum, muito incomum e original, no contexto da produção nacional.
    Cumprimentos,
    CVidal

  24. COMUNICADO

    Eu, ANTONIO ALONSO MARTINEZ, comunico que a exposição com pinturas de minha autoria que será realizada na Galeria Arthobler no Porto sob o título “UNNATURAL TIME” é uma mostra de alguns trabalhos meus que não corresponde à verdadeira exposição por mim criada com esse título.

    A autêntica exposição “UNNATURAL TIME” incluía um objecto audiovisual, imprescindível, e foi realizada em 2009 na Galeria Arte Periférica.

    Acrescento que esta mostra na Galeria Arthobler foi decidida sem o meu conhecimento!

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