O bei de Tunes dos blasfemos

A receita já vem, pelo menos, de Eça: quando os prazos de entrega dos textos apertam, escreve-se não importa o quê só para preencher o número de letritas encomendado.
O blasfemo Paulo Morais segue esta nobre e patusca tradição. No JN, publica um longo texto a pugnar pela queda drástica e mediata dos impostos. IRS, IVA, IRC, tudo levaria uma corrida em pelo. Os resultados seriam miríficos, embora inexplicados: mais emprego, mais riqueza para todos, mais investimento, mais poupança. Como? A redução do IVA aumentaria a procura, forma consabidamente saudável de fazer crescer o PIB; a descida das taxas de IRS tornariam «os custos do factor trabalho mais competitivos para as empresas», apesar de hoje recaírem sobre os trabalhadores, não sobre as entidades empregadoras. E por aí afora.
Mas o melhor pedaço deste exercício de wishful thinking vem no fim: “A redução drástica de impostos é a medida cirúrgica que urge para extirpar esse tumor galopante que é o desemprego. Uma eventual consequência seria a diminuição das receitas do Estado. Tanto melhor, pois obrigaria à adopção dessa medida de higiene económica que se impõe há décadas, que é a eliminação das despesas supérfluas do Estado”.
Amanhã, os empresários vão acordar com menos impostos às costas. Em vez de embolsarem mais proventos, tratam logo de reinvestir os novos lucros e de distribuir a riqueza recém-chegada. Quanto ao Estado, era mesmo boa ideia um tratamento ao estilo cold turkey: também amanhã, deixava de haver dinheiro para pagar ordenados, pensões, subsídios sociais, obras – e presume-se que ao terceiro dia a ressurreição miraculosa ocorreria, com um Estado robusto, esguio e minimalista a emergir triunfante do sepulcro.
Ao pé destas divagações, as “notícias” sobre espiões e assessores que se sentam sem serem convidados até parecem fazer sentido.

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