Salazar e Simplexidade

Deveria ser evidente que a relação entre as direitas portuguesas e o legado salazarista não é assunto fácil. E, no entanto, é cada vez maior a facilidade com que o PS de Sócrates afirma uma suposta continuidade entre Ferreira Leite e Salazar. Mesmo que a primeira ajude à festa, quem leve a sério o problema do salazarismo em Portugal deveria discutir seriamente o perigo do seu regresso, o que obviamente implica exceder a figura de Manuela Ferreira Leite. Possivelmente, o PS de Sócrates não leva a sério o problema do fascismo e limita-se a ver o antifascismo como um tema histórico que lhe permite atalhar caminho na sua recente tentativa de aproximação aos eleitores que têm votado nos partidos à sua esquerda e aos sectores alegristas que pensam vir a fazê-lo. Não sei se este atalho levará o PS de Sócrates a algum lado e, assim de repente, lembro-me apenas da grande cruzada antifascista que embalou a derrota de João Soares às mãos de Pedro Santana Lopes. Mas há uma coisa que o apelo do PS de Sócrates consegue: simplificar as coisas a tal ponto que a política dispensa qualquer análise mais complexa. Com efeito, a simplexidade com que se vem agora estabelecer uma linha de continuidade entre PSD e salazarismo começa por fazer esquecer que, mesmo durante o tempo do fascismo, as análises efectuadas pelos principais sectores da oposição, a começar pelo próprio PCP, não eram assim tão pouco sofisticadas que nos levassem a rotular de fascista todos os seres vivos que não se reivindicavam de esquerda ou de centro-esquerda. Não se compreende, aliás, que o PS de Sócrates se atire ao ar sempre que alguém diz que PS e PSD estão cada vez mais iguais e que, pelo contrário, não hesite um segundo que seja na hora de dizer que PSD e Salazar estão abençoados pelo mesmo espírito.

PS e PSD não são iguais, por certo, mas PSD e Salazar também não são iguais. Isto não quer dizer que daqui se apoie Manuela Ferreira Leite, pois não temos que limitar as nossas opções à dicotomia “Ferreira Leite – Oliveira Salazar”. Tal como reconhecer que PS e PSD são diferentes não significa que tenhamos que limitar as nossas opções à dicotomia “Sócrates – Ferreira Leite”. O boletim de voto tem mais do que duas casas.

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12 respostas a Salazar e Simplexidade

  1. Carlos Vidal diz:

    Muito bom. Era um assunto ainda não tratado, esta coisa socratista de chamar qualquer nome a qualquer pessoa ou grupo: para os tipos, todos temos nomes: salazarentos, direita conservadora, esquerda radical, esquerda não democrática. A necessidade daquela malta em entrar neste jogo tem de ser dissecada.
    E bem vindo, caríssimo.

  2. p.heinz diz:

    A tendência simplexista de apelidar de fascistas o PSD e Ferreira Leite, vindo de quem vem, não pretenderá, seguramente, alertar para o perigo do fascismo. É apenas, mais ou menos como dizes, ZN, uma estratégia eleitoralista com vista a captar votos à esquerda.
    Só que essa estratégia pode acabar por se virar contra o próprio PS. À imagem de outros governos “democráticos”, também o governo PS, e já antes dele, o governo PSD/PP, diga-se, têm assumido formas e recuperado métodos e técnicas típicos dos fascismos. A confusão entre elites e poder, o populismo, a intensificação do carácter policial e repressivo do estado ou a tentativa de criminalização da oposição são exemplos desse fenómeno.

  3. ana diz:

    “O boletim de voto tem mais do que duas casas.”
    Pois tem. Mas só 2, ou 2+1, podem ser governo.

  4. Carlos Vidal diz:

    E depois, ana?

  5. Estou neste momento a comer uma cartola acompanhada de tabasco. Tinha apostado que nunca te veria a escrever um post, abominável homem das neves.
    Querido camarada, bem-vindo.
    Agora vou voltar à deglutição. Boa cartola!

  6. antónimo diz:

    O Boletim de votos ter mais do que duas casas é verdade, mas é uma falácia dizer que só 2 ou 2+1 podem ser governos.

    Faz, aliás, parte do colete de forças da opinião publicada.

    Objectivamente, algo impede a publicação de referências à ideia de uma coligação PS (sem sócrates e sem Costa)+CDU+BE?

  7. LAM diz:

    Isto é uma postaça muito bem mandada mas que quanto a mim confunde o “ser” com o “parecer”. (no que me fui meter para agora explicar esta merda). Uma coisa é o que o PSD é, com as diferenças políticas que obviamente tem com o salazarismo, quer na sua génese quer em muitos dos seus militantes (sobre alguns dirigentes não tenho tantas certezas); outra é a imagem que actualmente apresenta, as suas ausências de política e os seus tiques, que têm paralelo óbvio também no salazarismo. E isto, essa imagem é (bem) explorada, quanto mais não seja para tentar estabelecer diferenças, pelo Ps.
    A líder silenciosa, como ali se acoitassem razões e poderes inacessíveis aos mortais falantes, a recusa do debate e de apresentação de propostas, o “desligamento” até das razões políticas transformadas em pecado pela urgência da salvação nacional, os slogans de apelo á família ensaiados desde as europeias, etc. A pontos de ter transformado Paulo Portas, que usou o método há uns anos, num MRPP das feiras tal a ânsia de qualquer dia da semana querer dizer mais qualquer merda a propósito de tudo ou de nada.
    A figura da virgem de Fátima, imóvel e muda, vinga. O povo PPD supõem-lhe sempre razões fundas e inconfessáveis. Isto é salazarismo.

  8. LAM diz:

    p.s. note-se que estou de acordo quanto às diferenças apresentadas pelo ZN.
    Só que não é esse o discurso actual do PSD. Aliás, se houvesse discurso POLÍTICO do PSD este seria tão próximo da práctica dos últimos anos da governação de Sócrates ( e do que provavelmente será no futuro) que reduziria em muito o espaço de crescimento eleitoral. Aproveitando a “onda” o Ps até se pode mostrar como um “partido de esquerda”. Juntou-se a fome com a vontade de comer, penso que é assim que se diz. Bloco central em grande, mais uma vez.

  9. Patricia diz:

    Eu tambem não concordo que se considere MFL como fascista,é muito conservadora acerca dos costumes,atrapalha-se quando fala á comunicação social e todos os deslizes da senhora são aproveitados para a atacar.Faço já a minha declaração de interesses nunca votei PSD nem tenciono votar,mas eu vivi no tempo do fascismo e portanto não confundo as coisas.Mas tambem lhe digo neste blog muitos dos seus companheiros usaram e abusaram da palavra fascista para criticar as medidas tomadas pelo governo PS,que devem ser criticadas sem dúvida,mas não as catalogando da forma como o fizeram.Eu peço aos mais velhos como eu,63 anos,que expliquem aos seus filhos o que foi o fascismo já que pelos vistos na escola sobre esta matéria não lhes ensinaram nada.

  10. Tiago Mota Saraiva diz:

    Bem-vindo camarada!

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