A Esquerda para principiantes

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Paul McCarthy, Bear and Rabbit on a Rock

Numa altura em que o PS espreitou para além do seu ombro e da Mota-Engil, descobriu os ricos e enche a boca com justiça social. Num tempo em que as promessas se multiplicam como pãezinhos quentes no regaço do engenheiro dominical. É preciso explicar, muito devagarinho, o que é uma opção de esquerda nestas eleições. Ao contrário do que os assessores de turno e os cristãos novos do socratismo nos querem convencer, a esquerda não se mede pelas promessas e migalhas de subsídios que dá aos humilhados e ofendidos desta sociedade, mas pelo poder que lhes devolve. Governar à esquerda não são os anúncios repetidos de mais uns poucos euros nos subsídios de inserção, nos subsídios de velhice, nos subsídios de desemprego, embora todos eles possam ser úteis. Governar à esquerda significa dar poder às pessoas, dar direitos às pessoas, dar direitos à, chamada, sociedade civil. Não governa à esquerda quem aprova um código de trabalho a favor dos patrões, quem afronta os sindicatos e quer acabar com eles, quem acaba com o ensino superior público gratuito e com o Serviço Nacional de Saúde. Uma alternativa política de poder de esquerda tem de colocar como primeira prioridade dar poder à maioria dos trabalhadores (eu sei que é uma palavra caída em desuso). Significa, não só, redistribuir de uma forma mais justa o produto social, mas, sobretudo, dar poder político e económico à maioria da população.

Em estéreo no Blogue de Esquerda (quando conseguir funcionar com aquilo)

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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11 respostas a A Esquerda para principiantes

  1. D.,H diz:

    “…não são os anúncios repetidos de mais uns poucos euros nos subsídios de inserção, nos subsídios de velhice, nos subsídios de desemprego…”

    Os contornos assistencialista e fracturante nos costumes – este já datado -, retocam-lhe a imagem, dão-lhe ares de progressista. Que bom os pãezinhos quentes no regaço do engenheiro dominical:)! Isto e o seu mundo tecnocrático do “chip no carro”, da “pulseira electrónica” ou do “cartão único” , eis a esquerda moderna.

  2. Paz diz:

    É verdade, grande post Nuno!

    O Blogue de Esquerda vai ressuscitar?

  3. MS diz:

    “Governar à esquerda significa dar poder às pessoas”

    Há pessoas (uma microscópica parte da ‘sociedade civil’) que já hoje têm (muito) poder – económico e social, portanto, político – a todos os níveis, passando pelas empresas e pelo poder de Estado. Governar à esquerda significa dar poder a _estas_ pessoas? Mas elas já o têm. Estas pessoas sabem – têm «consciência de classe» – que governar à esquerda significa não redistribuir o poder pela ‘maioria da população’, mas antes retirar-lhes o poder. Para estas pessoas isso é insuportável, é uma atentado à sua própria condição social. Tudo farão para conservar o seu poder, que passa, o que é extraordinário, por fazer com que aquelas pessoas que na realidade não têm qualquer poder continuem a ser a «massa» protectora e legitimadora do(s) poder(es) desta minoria.

    “dar poder à maioria dos trabalhadores” significa retirá-lo à minoria que o detém. E é aqui que está a (monumental!) dificuldade de ‘governar à esquerda’. Este é precisamente um dos pontos que dificulta os entendimentos entre os diferentes partidos políticos da esquerda: esta usurpação e redistribuição do poder será (ou deverá ser) paulatina, gradual, lenta ou acelerada, incisiva e determinada? As respostas variam consoante as leituras da (e o posicionamento na) realidade por parte dos indivíduos e dos colectivos em que estão inseridos.

    Como escreveu o Tiago, “Grande post!”

  4. Olá Paz,
    É o blogue da sábado em que colaboro, mas ainda não consegui postar lá nada.

  5. Justiniano diz:

    Caro Nuno. Apenas algumas questões para não navegar na vazio.
    Dar direitos. Que direitos?
    Quando é que o ensino superior foi gratuito?
    Quem quer acabar com o SNS?
    Quem quer acabar com os Sindicatos?

  6. Justiniano,
    Embora eu não tenha nome de imperador romano, tenho mais de 15 anos. O ensino e a saúde são segundo o nosso quadro constitucional tendencialmente gratuitos. Posso lhe garantir que já foram muito mais. Propinas de 1000 euros ano, é que estão muito longe de o ser. É difícil explicar a um PS rendido às delícias do mercado capitalista o que são direitos. Mas vou tentar, direito ao trabalho e a não ser despedido por nada, é um direito fundamental. A situação que se vive nos lugares de trabalho é mt próxima da de antes do 25 de Abril, em relação à prepotencia das entidades patronais. Esta governo não ouve os sindicatos e tem como um dos principais objectivos enfraquecer as organizações de classe em sectores onde elas ainda existem (professores, administração pública, justiça, etc…). É um objectivo estratégico de impor “reformas” combinadas apenas com o patronato, em que são sempre os mesmos, os que trabalham, que pagam a crise.

  7. Justiniano diz:

    Nuno
    Bizantinisses à parte, e tendo V.cmcê o nome com que os seus paizinhos o resolveram apodar, em mono era a mesma coisa.
    – Porquê então “quem acaba com o ensino superior público gratuito e com o Serviço Nacional de Saúde”
    – direito ao trabalho e a não ser despedido por nada, é um direito fundamental. O direito ao trabalho (numa dupla dimensão – económica e pessoal, direito à ocupação efectiva) é um direito fundamental (como V. conhece o quadro já sabe o que lá está pintado) mas não conheço o “e a não ser despedido por nada” (é a primeira vez que leio uma coisa destas).
    Pelo menos o Nuno não é marxista, porque quem fala assim tanto em direitos não há-de ser, certamente, marxista.

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Justiniano,
    Você percebeu o que eu escrevi no post. Esta conversa é inútil.

  9. Pingback: cinco dias » Receitas, Tomás Vasques e Antígona

  10. Justiniano diz:

    Caro Nuno
    O que escreveu no post é assim mais do mesmo…prosa de qualquer controleiro e porta voz do centro de trabalho mais próximo à mistura com tiradas à Sean Hanity de esquerda.
    Se são postas destas que vão animar a ” verdadeira esquerda” Sócrates pode andar descansado.

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