Oh, estava eu a sentir-me já tão … tão … deputado … mas se calhar …

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Arnulf Rainer. 1991.

“Parece-me evidente que o João Galamba não tem condições para continuar como candidato do meu Partido em Santarém.”

(João Ribeiro de “Câmara de Comuns”)

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5 respostas a Oh, estava eu a sentir-me já tão … tão … deputado … mas se calhar …

  1. Bruno Sena Martins diz:

    Carlos, mas não é a personalização do que deveriam ser discussões políticas e ideológicas que cria a escalada cujo corolário previsível é o insulto pessoal? Creio que tenha sido essa personalização que redundou no já famoso insulto (personalização crescente da discussão entre o João Galamba e o João Gonçalves, personalização na alusão do João Gonçalves à paternidade do João Constâncio e, finalmente, personalização no arremesso do João Galamba).

    Obviamente que há questões pessoais que não são só pessoais: é esperável um registo histórico de discussões em que a consistência das opiniões do outro vai sendo desafiada ou o apontar de eventuais contradições entre o que se diz e faz nas diferentes arenas da vida pública. No entanto, quando nada disso está em causa a personalização só alimenta voyeurismos fátuos, ressentimentos difíceis de sanar e, imagino, aqui e ali, noites menos bem dormidas. As questões que te coloco são as seguintes:

    1) é possível criticar um insulto sem questionar uma propensão do debate para a “personalização da ideologia”, sendo que a personalização da ideologia equivale, em última instância, à sua menorização? (leia-se ideologia num sentido lato, a palavra será provavelmente desadequada).

    2- Concordas com o João Ribeiro? Mais, independentemente da opinião que tenhamos sobre a polémica não será excessivo (ou absurdo) insinuar consequências políticas perante um desaguisado que (porventura infelizmente) é tão normal na blogosfera, um meio que, como sabemos, tem termos muito próprios e em que o nível de tolerância para as discussões é endemicamente superior ao do “mundo lá fora”?

  2. Como apreciador do táctico Grácian, a tua desconcerta-me. Mas pronto tu lá sabes, ó grande Mourinho da blogosfera. Sempre ao ataque e mái nada.

    E então vens, ou não? Lês-te o e-mail? A oferta mantêm-se.

  3. Carlos Vidal diz:

    Caro Bruno,
    Vejamos se sou capaz de opinar (no sentido em que não direi nada de muito definitivo) sobre algumas das tuas muito pertimenentes questões: questionas-me se não é a própria fulanização do debate político que leva em escalada ao insulto pessoal? Devo considerar que sim. Mas há ressalvas e problemas que têm aqui também de ser considerados. Por vezes essa personalização é mútua, desenrola-se em duas direcções, outras vezes não, e é resultante da eleição de um exemplo: J Sócrates representa tudo o que eu mais abomino em política – um currículo reivindicado pelo próprio (podia não ser reivindicado ou sublinhado, Jerónimo de Sousa não vai por aí) que levanta, no mínimo, muitas dúvidas; uma ausência total de formação, política e cultural, que é compensada por tiques ridículos de teimosia e autoritarismo (inconsequentes e risíveis uns e outros); uma ausência total de ideias e ideologia que conduz a um exibicionismo (os Magalhães) casuístico e desligado de uma acção global; no fundo, um “político” que mais nada sabe ser, nem pode ser por manifesta incapacidade, incompetência; um mau gosto novo rico, tacanho, disfarçado de Armani; um curso tirado nas duas “jotas”. As violentas críticas a este indivíduo não se podem ver como personalização gratuita, porque está aqui justificada a sua “eleição” como “exemplo”.
    O caso Galamba / João Gonçalves.
    João Gonçalves é muito mais escritor que Galamba, muito mais hábil na argumentação e suscita interesse mesmo quando não se concorda: Galamba não tem estas qualidades. Talvez por inveja da liberdade e heterodoxia (não sei) personalizou em João Gonçalves os seus ataques: de Smerdiakov a “filho da puta” recorreu a tudo. Da parte de J. Gonçalves vi respostas e não insultos, vi críticas contundentes e pouco mais, mas contundentes (a Sócrates e não a Galamba) e pouco mais. A fixação é da parte do J. Galamba, e não é descabida – de facto, Gonçalves é interessante, porque é heterodoxo. Galamba é sempre previsível.
    Resumindo, acho que posso personalizar as coisas se essa personalização ou fulanização estiver ligada ao que chamo de “exemplificação” ou “paradigma”. Seria interessante que Galamba fulanizasse em Ferreira Leite ou Louçã ou Jerónimo. Em Gonçalves, acho que é um problema pessoal e não político de Galamba.

    Se acho que Galamba tem condições para se manter como candidato a Santarém. Creio que não tem grandes condições, mas pior: não tem capacidades para isso. O parlamento não é a casa que eu mais respeito (tenho muitas reservas em relação ao parlamentarismo), mas ele tem as suas regras e Galamba aceitou jogá-las.
    Neste caso……..

  4. p.heinz diz:

    CV,
    O que estes incidentes têm revelado é que o JG, podendo ter qualidades intelectuais, é uma pessoa mesquinha e pouco íntegra.
    Nesta medida, está perfeitamente enquadrado no deputado tipo do parlamento…

  5. Bruno Sena Martins diz:

    Carlos, muito te agradeço pela resposta.

    1- Tens razão: no caso dos políticos – enquanto figuras públicas – alguma fulanização é inevitável, muito mais quando existe uma suspeita sobre a consistência ética da sua conduta cidadã, e muito mais ainda quando a fulanização dialoga com certo culto da personalidade – ou seja, o projecto político que surge muito vinculado a uma personalidade ou a uma biografia está muito mais exposto às insinuações sobre a integridade da pessoa.

    Sem que eu tenha elementos para recapitular inteiramente os contornos da animosidade entre Galamba e Gonçalves era óbvia a acrimónia pessoal que vinha em crescendo. Se por um lado entendo o que dizes acerca da heterodoxia do João Gonçalves – tem de facto uma voz muito própria – também sou levado a pensar que o estilo opera muitas vezes como um anestésico – ou mais como um encantamento sereias vs ulisses – que pode obrigar a uma depuração metódica das “consequências do discurso”. Desconfio que esse exercício terá feito crescer no João Galamba uma aversão que começou por ser metódica e se tornou visceral.

    2- Quanto à relação entre o insulto e o estatuto de deputado divido-me entre a tua leitura e a do Rodrigo Moita Deus, sendo que, a meu ver, as duas se conciliam: se por um lado a presença nas listas pode exacerbar a paixão que se leva para discussão política (e nesse sentido o estatuto de futuro deputado favoreceu a escalada de insultos), por outro, o insulto resulta ainda de uma não institucionalização, João Galamba usou (de forma extremada) uma “irreverência” própria da blogosfera – nesse sentido falou como blogger muito mais do que como o futuro deputado.

    Acusar-me-ás de um relativismo proverbial nos antropólogos, mas tento julgar cada realidade nos seus termos: se no parlamento uns corninhos causam escândalo na blogosfera são o pão nosso.

    abraço

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