Da javardice ao serviço do património

Queixa-se o Tiago Mota Saraiva dos pingos que vertem dos ares condicionados nesta nossa Lisboa (e noutros lugares do Reino, estou certo), javardices sem rei nem roque & caldos de culturas bacterianas que desabam sobre os incautos que roçam as paredes à procura de sombra em vez de a trazerem portátil, por obra e graça de um chapéu. Na aparência, ele está certo na sua indignação; o que ele ignora (ou finge ignorar: o Tiago é assim mesmo) é a função eminentemente museológica do hodierno pingo, que conserva em pleno século XXI a tradição lisboetíssima do “-Água vai!”, tão abundantemente referida pelos estrangeiros que nos visitaram noutras eras, do francês Bombelles ao sueco Ruders, e que tão justamente os encantou a todos. O pingo de hoje já não tem, é certo, a expressividade sensorial do excremento de antanho, mas deve consolar-nos a ideia de que a sua intenção é a mesma – e é certamente uma caridosa e bem portuguesa intenção de partilha das dádivas do céu. Por isso, Tiago, queixa-te, certamente, mas sorri também, e agradece.

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SEXTA | António Figueira
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Uma resposta a Da javardice ao serviço do património

  1. Tiago Mota Saraiva diz:

    Ámen. Se o Santana lê o teu post propõe o pingo para Património Mundial. Até consigo imaginar um título de uma tese de doutoramento sobre a matéria: “Lisboa da Traça ao Pingo”

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