Estados pífios

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Chechen Marilyn, The Blue Noses

Há um espectro que assombra o mundo da literatura de cordel: o espectro do ridículo. Há uma contradição insanável que perpassa por essas páginas: embora os sentimentos sejam menos claros do que o sexo, é mais difícil escrever sexo. O professor José Rodrigues dos Santos vai ajudar-nos nesta demonstração científica. Começamos com um moderado ridículo e acabamos num muito.
Passaram semanas. Tudo o que disse já não faz sentido. Pareço um bêbado no meio de uma sala cheia de sóbrios. Demasiados sentimentos. Palavras que ficaram sós. Estranhas regras da atracção . Inventamos o que queremos. Imaginamos o que não há. O sexo é mais honesto. O desejo tem as suas histórias, mas são fáceis de contar. Ou nem por isso. É interessante que com certa facilidade criamos prosa sentimentaleira, como esta, mas dificilmente conseguimos escrever sexo de uma forma decente. Reparem que o “decente” aqui tem o valor do indecente com credibilidade. O sexo é uma espécie de diálogo no cinema português: não há uma cena em que a gente acredite. A mãe de todas as cenas de sexo à portuguesa estão inscritas nas famosas páginas de José Rodrigues dos Santos que revelam uma sueca mamuda, obcecada com a sopa de peixe (imortalizada neste gerador de Vasco Barreto). Pode o que imaginamos ser verdadeiro ou tudo tende a acabar numa sopa (ou num copo de água fria)?
O problema é sério e pode mesmo suscitar a violência. Contava-se – se não é verdadeiro é muito bem imaginado – que Luiz Pacheco tendo lido vários romances de Urbano Tavares Rodrigues (em que, no climax, os testículos do homem entravam na vagina da mulher, tal a violência apaixonada do acto) escreveu numa crítica literária: ‘das duas, uma, ou o Urbano os tem pequenos ou vai só com putas’. Resultado desta liberdade crítica, o Pacheco ia sendo espancado pelo Urbano no Bairro Alto. Aparentemente, a mesma cena a dois (para não complicar a geometria da coisa) têm várias leituras. O que para um é um desempenho orgástico, para outros é uma cena pífia. Este texto do João Pedro George no Esplanar, é das prosas mais esclarecedoras que li sobre o assunto:

As cenas de sexo em José Rodrigues dos Santos (e não só…)

Já contei a alguns amigos mas ninguém acredita: “Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas”. A cena, fruto da imaginação extraordinária de José Rodrigues dos Santos, aparece n’O Codex 632. É um daqueles momentos que marca, para sempre, a carreira de um escritor. O magnetismo desta passagem é tal que se torna impossível falar da história do livro, das qualidades estilísticas do autor ao nível das descrições, da construção das personagens, a sua psicologia, as suas emoções, etc. Digo-vos uma coisa: esta leitura mudou-me, fez de mim outro homem. Vejamos: Tomás, um bonitão de 35 anos, casado, doutoramento em criptanálise renascentista, é professor de História na Universidade Nova de Lisboa. A meio de uma aula sobre decifração de hieróglifos, entra uma aluna nova, Lena Lindholm. Estudante de Erasmus, sueca, cabelos loiros, olhos azul-turquesa, «Tomás teve de fazer um esforço para não fixar os olhos naquele peito farto e tentador», no «rabo cheio e arredondado», nas «nádegas carnudas». Semanas depois, Tomás vai almoçar a casa de Lena, a convite desta e a pretexto de umas explicações sobre a escrita cuneiforme da Suméria. É aí que se verifica a já célebre cena da sopa de peixe:

Parou de comer e fitou-o com uma expressão insinuante. «Sabe qual é a minha maior fantasia de cozinheira?»
«Hã?»
«Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas.»
Tomás quase se engasgou com a sopa.
«Como?»
«Quero fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas», repetiu ela, como se dissesse a coisa mais natural do mundo. Colocou a mão no seio esquerdo e espremeu-o de modo tal que o mamilo espreitou pela borda do decote. «Gostava de provar?»
Tomás sentiu uma erecção gigantesca a formar-se-lhe nas calças. Incapaz de proferir uma palavra e com a garganta subitamente seca, fez que sim com a cabeça. Lena tirou todo o seio esquerdo para fora do decote de seda azul (…). A sueca ergueu-se e aproximou-se do professor; em pé, ao lado dele, encostou-lhe o seio à boca. Tomás não resistiu. Abraçou-a pela cintura e começou a chupar-lhe o mamilo saliente.

Por causa desta passagem, Pedro Mexia disse que «um dos traumas da ficção portuguesa é o sexo foleiro. Há dezenas e dezenas de páginas de sexo foleiro nos romances portugueses». É verdade. Mas será exclusivo da literatura portuguesa? Por via das dúvidas, e para comparar, fui ler um especialista em cenas de sexo: Henry Miller. Peguei em Sexus (ed. Livros do Brasil) e, a páginas 14, deparo-me com isto: «Lançámo-nos numa fornicação louca, com o carro aos trancos e solavancos» (…) e o suco a correr dela como sopa quente». Não anda muito longe da criatividade de Rodrigues dos Santos. Ainda no domínio do sexo foleiro, mais exemplos: «Veio-se repetidamente, a guinchar e a grunhir como um porco degolado» (p. 62); «a minha moca parecia uma mangueira de borracha em mau estado» (p. 196). Já se sabe, quando toca a descrever o órgão sexual masculino, os homens exageram. São uns gabarolas de primeiríssima ordem. Estão sempre em grande forma, em pleno apogeu da glória física. Por exemplo, Rodrigues dos Santos, ou melhor, Tomás tem uma «erecção gigantesca». Em Miller, é certo, as variantes são mais imaginativas e o catálogo de erecções vastíssimo: «erecções perpétuas», erecções capazes «de partir um prato», há até quem tenha «uma enorme moca», «uma moca de super-homem», uma «autêntica picha de cavalo», «uma erecção tal que mesmo depois de descarregar uma salva a picha continuou espetada como um martelo», «tesa como um cacete», «como um pau de bandeira», «como um cabo de vassoura», «como uma vareta de ferro», «como um touro», «com uma erecção que não envergonharia um garanhão», «o meu marsapo é dum tamanho monstruoso», etc, etc. Noutra obra de Miller, Opus Pistorum, o cenário repete-se, com uma personagem feminina a confessar que «não penso noutra coisa senão nesse grande pénis» (p. 19) ou «julgo que é por teres uma ferramente tão grande. Quando penso no tamanho dela sinto uma excitação enorme» (p. 20).

Nas descrições do pénis, os homens (conheço-os de gingeira) gostam de armar aos cucos. A literatura erótica masculina apresenta-nos aquilo a que resolvi chamar de Dogma da Infalibilidade do Pénis. Nas cenas de sexo escritas por homens (as leitoras e os leitores mais sensíveis talvez estremeçam agora): «a moca entesava-se-me todas as noites, que nem uma matraca» (p. 373) ou «tinha uma daquelas erecções derradeiras, que parecem nunca mais acabar» (p. 410). Além disso, obrigam as personagens femininas a dizer coisa como «nunca tinha visto um instrumento daquele tamanho! Parecia um animal» (p. 376) e, na mesma página, «era um mangalho tão grande que julguei sufocar. Nunca vi nada parecido» (citações de Sexus). No entanto, lendo Anaïs Nin, amante de Henry Miller, percebemos que os homens nem sempre estão em grande forma, a incompetência, aliás, é notória: «Ele [Henry Miller] penetrou-me, mas o seu pénis de repente pára de se mover e fica mole» (Henry & June, p. 151). Se pegarmos noutro livro erótico escrito por uma mulher, por exemplo, esse já clássico, traduzido pela Asa, Finalmente Atingi… (a autora é francesa – assina apenas como Sarah – e relata a história de uma jovem de vinte anos que procura obsessivamente atingir, pela primeira vez, o orgasmo), o que é que encontramos? Isto: «O seu caralho! Uma excrescência de carne pesada de sangue que não endurecia apesar da pressão dos meus dedos» (p. 30) ou «Matthieu deixara de me interessar. Não gostava da forma do seu sexo» (p. 63). A perspectiva, convenhamos, é um pouco diferente.

Os homens, quando o assunto é sexo, são indiferentes à realidade. Neles, tudo é incomensurável e grandioso. Diria mesmo: grandalhão. E o orgasmo, claro, vigoroso e torrencial, tipo Niagara: «apunhalei-a repetidamente e despejei-lhe uma grande carga na frente do vestido de seda preta» (Sexus, p. 36); «Esguichei como uma baleia» (p. 63); «explodi como uma pistola de água» (p. 239); ou ainda, em Opus Pistorum, «o esperma esguicha do meu pénis, como a água esguicha de uma mangueira» (p. 19). À força de tantas erecções irrepreensíveis, não surpreende que as mulheres «ardam de desejo», sintam «diversos orgasmos seguidos», «orgasmos sucessivos, de tal maneira que pensei que nunca mais acabava», «mergulhou num orgasmo prolongado, durante o qual receei que me gastasse a gaita», «a seiva escorria dela, abundante», ou ainda «teve um orgasmo quase imediatamente e depois outro e outro». Veja-se agora em Finalmente atingi…: «ele ia e vinha por dentro de mim, rasgou-me a carne e eu já não me sentia molhada como antes e só tinha vontade de fugir (…). Lançou-se sobre mim. Mal estendera ainda o braço quando o mordi e me escapei, deixando-o sozinho com a sua desenvoltura imbecil» (p. 71). Ou em Anaïs Nin: «com todo o imenso prazer que Henry me tem dado ainda não senti um verdadeiro orgasmo» (p. 113).

Nas investidas sedutoras não há, regra geral, acanhamentos ou inexperiências. Pelo contrário, os homens são desembaraçados com as mulheres, revelam grande desenvoltura erótica, jamais confessam falta de prática, ou de jeito. Os homens, há que reconhecê-lo, precisam de provar a sua potência e que, além disso, sabem fazer amor. Que são desembaraçados e confiantes. Em Opus Pistorum, por exemplo, há uma personagem masculina que diz coisas como: «vou acabar com as recordações desses outros que te possuíram (…). Antes de mim não existiu qualquer homem e nenhum virá depois de mim» (p. 18). O tanas! Leia-se o relato de Anaïs Nin: «ele deitou-se [Henry Miller] na cama e disse: – Ainda não me sinto à vontade contigo». Qual a minha perplexidade quando, depois de ler Miller, em Sexus, dizendo que «era o único homem que conseguia satisfazê-la» (p. 181), me deparo com Anaïs Nin revelando esta coisa extraordinária: «Quando vejo que o deixei ficar excitado, parece-me natural deixá-lo libertar o seu desejo entre as minhas pernas. Deixo, por pena» (p. 19). Os homens são todos uns maduros, uns matulões, mas depois vai-se a ver e «estou espantada com a sua sensibilidade. Chorou enquanto me observava» (Anaïs Nin, p. 170).

Em Miller, as mulheres estão sempre «em brasa», são (obviamente) «insaciáveis», «têm espasmos eléctricos», movimentam-se «num frenesi de abandono». Anaïs Nin, porém, diz que ficou «inteiramente passiva. Não senti nenhum prazer. E tenho medo que ele possa aperceber-se disso» (p. 100). Em Miller, Opus Pistorum, ela «está louca por ser possuída» (p. 15) ou «ela quer ser possuída e, se fosse preciso, deitava-se numa cama de pregos» (p. 17). Anaïs Nin: «na noite passada ele estava ardente, extático e eu, obediente e fingida. Simulando o prazer» (p. 104). Pessoalmente, considero isto altamente escandaloso (embora tenha aprendido imenso). E pergunto: podem os homens ter a certeza absoluta de que estão a dar prazer a uma mulher? A avaliar por um especialista como Henry Miller, não. Impossível. Sendo assim, uma conclusão impõe-se: os homens preferem acreditar que dão sempre prazer. Vejamos o sexo oral. Miller diz que teve «medo que, na paixão frenética e destruidora para que se deixara arrastar, cravasse os dentes com força e me decapitasse a picha» (Sexus, p. 107) e que «ela inclinou-se e chupou-o gulosamente» (p. 62). Anaïs Nin, no entanto, confessa que «certas práticas nos jogos sexuais não me atraem realmente, como chupar pénis, que eu faço para agradar a Henry» (p. 162). No imaginário masculino, as mulheres só querem «foder e foder e foder». São sexualmente escravas, só pensam em sexo, gostam sempre tanto que logo lhes apetece «outra». Assim em José Rodrigues dos Santos, onde Lena é – e de que maneira! – uma «gulosa», uma «esfaimada», uma «fera sedenta», «ávida de carne», «desinibida», «ruidosa quando lhe fruía o corpo». Na página 143, «a sueca atravessou o gabinete com um passo insinuante, meneando o corpo como uma gata com cio». Tal qual como em Miller: «parecia uma cadela com cio, a morder-me todo» (p. 193).

O corpo das mulheres, por norma, é quase sempre esplendoroso e bem nutrido. Ao contrário do que se passa na realidade, os padrões de exigência dos homens são, aqui, elevadíssimos. A mulher, descrita pelos escritores «gajos», é tão ou mais apetitosa que uma mulher de calendário. É uma tentação, uma doidice, é de perder a cabeça. É uma beleza olímpica, uma autêntica obra-prima da natureza. Pernas compridas e fortes, um traseiro apetitoso, com as nádegas roliças, seios esplêndidos e magníficos, a boca carnuda, dentes fortes e brancos, nariz impecável, sexo frondoso. Ou seja, para lhe resistir um homem precisa, como Ulisses, de amarrar-se ao mastro de um navio. Em O Codex 632, Lena Lindholm «irradia uma beleza espampanante», tanto veste um «macio pullover azul» que lhe «insinuava uns seios atrevidos e generosos, com um volume que a cintura estreita mais acentuava», «um apertado pullover vermelho-púrpura que lhe acentuava as volumosas curvas do busto», um vestido «muito justo ao corpo e de um vermelho berrante», abrindo-se «num amplo decote onde se avolumavam os maciços seios, comprimidos um contra o outro e desenhando um rego profundo», calça «uns elegantes sapatos pretos de salto alto que lhe acentuam as sensuais curvas do corpo».

No que toca à anatomia feminina, José Rodrigues dos Santos prefere o peito feminino ou, para ser mais rigoroso, mulheres peitudas género Ava Gardner. Nesta matéria, diga-se, os atributos de Lena Lindholm são inolvidáveis, tal o destaque que Rodrigues dos Santos lhes concede um pouco por todo o livro: «enormes seios arrebitados» (p. 86), «adivinhou-lhe os vastos seios, cheios e arrebitados, querendo irromper pelo pullover» (p. 146), «o decote era infinitamente aberto, revelando-lhe os seios quase até ao limite, vastos e voluptuosos, sem soutien, separados por um profundo sulco» (p. 155), «apertando-lhe os volumosos seios (…), as mãos cheias e irrequietas, afundando-se na superfície gelatinosa dos peitos fartos, sensuais, espremendo-a em torno dos mamilos como se a quisesse ordenhar» (p. 206), «seios tão grandes que davam a impressão de estarem à beira de transbordar de leite. Numa reacção quase animal, Tomás sentiu o desejo tomar instantaneamente conta da vontade e apalpou-lhe o peito farto como quem espreme um fruto sumarento e espera que dele jorre o suco leitoso» (p. 237), «os vastos seios de mamilos rosados pendentes» (p. 240). Henry Miller, embora não deixando de apreciar «uns seios que parecem prestes a rebentar», mostra maior inclinação pelas «pássaras sumarentas», «felpudas», «densas» e «luxuriantes», do género «moita» ou até mesmo «matagal».

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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6 respostas a Estados pífios

  1. Carlos Vidal diz:

    Gostei muito inventário. Longo trabalho, Nuno:
    work in progress?

    Acho que as mulheres deviam ser todas assim.

  2. Luís Antunes diz:

    Gosto desta época do ano em que as mulheres andam decotadas com saias transparentes com as cuequinhas à mostra .

  3. Carlos,
    A George o que é de George, a totalidade da investigação é dele. Eu limitei-me a arranjar uma introdução e recuperar este post muito interessante.

    Luís,
    Estou de acordo.

  4. Carlos Vidal diz:

    Está certo, mas podia ser um elemento bibliográfico de um trabalho teu futuro in progress.

    De qualquer maneira, inolvidável a escrita de Rodrigues dos Santos.
    (Quem sabe se não está a ser um escritor subavaliado? As coisas que nós às vezes perdemos…)

    O Luís Antunes – que me chama sempre “cassete Vidal” – além de melómano, é (pelo menos um pouco) erotómano. Como todos nós. Parabéns.

  5. Algarviu diz:

    O JR dos Santos bem podia ser mais poupado nas palavras e resumir a coisa, v.g., tipo “era uma gaja muito boa com um belo par de mamas”. Isto sim, isto é que era de escritor.

  6. Não esquecer a baba com que José Rodrigues dos Santos emporcalhava, qual órgão ejaculatório, o fim dos telejornais depois da passagem das formas exuberantes de uma qualquer passagem de modelos.

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