Por que razão devemos cultuar Eça de Queirós

1. Por duas ordens de razões:
1.1. Uma de natureza histórica e sociológica, que se prende com a nossa qualidade de
1.1.1. falantes de português e de
1.1.2. portugueses – e isto porque Eça, para além de ter inventado o português moderno, aberto aos barbarismos, culto mas não castiço, irónico mas não histriónico, e sempre superiormente espirituoso, no sentido inteligente da palavra – inventou ainda o Conselheiro Acácio, o Dâmaso, o Gouvarinho, etc. – ou seja, a galeria das bestas que ainda hoje temos de aturar;
1.2. outra de natureza universal: Eça de Queirós é genial, universal e objectivamente genial, e, por exemplo, “A Relíquia”, é um dos mais geniais romances escritos sobre ou a propósito da crise espiritual da segunda metade do século XIX – que, recordêmo-lo aos mais esquecidos, moldou decisivamente a modernidade ocidental: por essa razão, até se tivesse sido escrita em finlandês ou servo-croata, “A Relíquia” merecia ser lida – e desse-nos ela tipos como o Raposão ou o Alpedrinha ou não.

2. Na sua qualidade universal, Eça de Queirós (e Machado de Assis, cujo culto também nos é devido enquanto falantes de português, embora não enquanto portugueses, se não num sentido arqueológico) não é nunca, obviamente, sobrevalorizado, antes pelo contrário, e apenas pelo facto de ter escrito em português; tudo isto me parece claro como Bucelas.

PS: Prosinecki até não foi um mau jogador, comentator dixit.

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SEXTA | António Figueira
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7 respostas a Por que razão devemos cultuar Eça de Queirós

  1. Este génio cultuado
    de natureza universal,
    deixou-nos um legado
    sobre a crise espiritual.

    A actualidade aterradora
    de um Eça revisitado,
    é por demais reveladora
    de um país arrastado.

    Irónico mas não histriónico,
    culto mas não castiço,
    o nosso atraso crónico
    é tudo menos postiço.

  2. Aquela titi tenebrosa do Teodorico Raposo é todo um Portugal castrante e castrado, desafogando em prostíbulos nos intervalos da beatice.

  3. António Luis diz:

    Figueira, está tudo muito certo mas não conhecer o Prosinecki…………

  4. António Luis diz:

    Eu até acho que tens razão, mas olha que o Prosinecki, apesar de tudo, não foi um mau jogador

  5. renegade diz:

    ui, aquele “porque”!…

  6. António Figueira diz:

    Vou tomar já desde já duas medidas:
    – reconhecer Prosinecki;
    – partir o “porque” ao meio (acrescentando-lhe “razão”, para facilitar).
    Comentadores, que faríamos nós sem vós?
    Agradecido, AF

  7. Carlos Lacerda diz:

    Cultuar? O que é que isso quer dizer?

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