O bunker é quando e onde um homem quiser

cremaster11

Camarada, colega, amigo. Está aflito? Vêm aí ideias e gentes que não entendes e que te fazem sentir acuado? Receias pelo teu emprego, pelos teus votos, pela tua way of life?
Não tremas nem temas, que há solução. Pega nuns metros cúbicos de betão, na sábia forma da tartaruga e põe-te a salvo. Se não for uma casamata, pode ser uma sede partidária, uma barragem de comunicados a falar de campanhas negras ou a negar laxismo na supervisão… não há limites para a imaginação dos desesperados.
Enver Hoxha só elevou este posicionamento à estratosfera da paranóia. 700.000 bunkers consumiram (até 1985!) o dobro do dinheiro e o triplo de cimento da linha Maginot (que só era disparatada na estrutura, não nos receios que a motivaram).  O ditador albanês ainda conseguiu enriquecer o panteão das lendas da argamassa com alma, pedindo ao seu engenheiro-chefe que desse o corpo ao manifesto para provar a resistência da sua criação: lá teve o pobre homem de se sentar no bunker-protótipo enquanto este era alvejado por um tanque.
Como antes já suspirara Afonso Domingues, a coisa não caiu, a coisa não cairá – para desespero, aliás, dos pobres albaneses, que gostariam de ter terrenos livres onde fazer casas com mais de uma divisão e tectos menos abobadados.
Enquanto símile atarracado mas eficaz de tantos comportamentos humanos, a casamata albanesa pode bem sobreviver para lá do dia infausto em que a última seja demolida para fazer estradas ou qualquer desperdício prosaico dos burgueses acomodados. Assim o queira o espírito de Hiram Abiff.

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2 respostas a O bunker é quando e onde um homem quiser

  1. antónimo diz:

    Não foram vocês que aqui há dias referiram o Cravinho e a Corrupção? Sei que na altura lembrei o Garcia dos Santos (com quem politicamente me não identifico, mas a quem – um tenente coronel de Abril, e não capitão pq em Trnasmissões se era promovido muito depressa – me custa não reconhecer alguma verticalidade)

    http://www.ionline.pt/conteudo/17866-escandalos-da-democraciao-general-que-acusou-os-politicos-e-foi-condenado

  2. Carlos Vidal diz:

    Boa, o Cremaster com a star Richard Serra, um homem que faz “bunkers”, aparentemente são “bunkers”, mas apenas para mostrar que o “bunker” é aquilo que o rodeia (Tilted Arc, 1981).

    Mais “bunkers”: eu pensava que a muralha da China era imbatível nesse particular.

    (Além disso, a relação entre a Linha Maginot e as fortificações do camarada Enver é tão clara quanto a ligação entre o PCA e o PCP, ou não será? – além disso, prefiro gastar energia com a engenharia civil do nosso quase-engenheiro: e sabe-se lá se o homem não aconselhou o Enver!….. Ah, um pormenor: sim, a Linha Maginot tinha receios fundados: a Alemanha. Mas o Enver tinha medo da Itália, que por lá já tinha andado, o que é que queres? Malucos pá)

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