Do azar de escrever em português

Acabei de reler outra vez “A Relíquia”; não é um grande livro, é um livro enorme, que, não fora ter sido escrito em português, faria o nosso Eça vender mundo fora, em colecções de clássicos, em francês, inglês ou alemão, tanto quanto vendem as outras grandes vedetas da literatura universal (e isto apesar da pecha, que primeiro lhe apontou Pinheiro Chagas, creio, de que põe na boca do Raposão palavras com uma graça e uma elevação que o mesmo Raposão seria insusceptível de proferir). Eu acho bem que se leia de tudo – e as veigas do Mondego, formosas que sejam, não são o que de mais formoso há na Terra – mas antes de invocar Dostoievski, Dickens ou Flaubert, não deveríamos nós cultuar o grande Eça, ou o grande Machado de Assis?

PS Post antigo, lembrado por mão amiga, sobre o “descarado heroísmo de afirmar” – ou a sempiterna guerra da verdade contra a hipocrisia.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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14 respostas a Do azar de escrever em português

  1. LR diz:

    Deixas de fora o Zola?
    🙂

  2. antónimo diz:

    Prefiro o Camilo, mesmo sendo miguelista. Ao menos usava bigode em vez do cabelinho à foda-se do porta-voz Tiago e do ex-porta-voz Moita.

  3. Bruno Sena Martins diz:

    Na recente entrevista à Ler Vasco Pulido Valente jura que relê todo o Eça todos os anos. Honestamente não sei como reagir a este conceito de releitura.

  4. JMG diz:

    E não é demais recordar que com este romance concorreu a um prémio literário e não ganhou. Quem ganhou foi … não me lembro.

  5. Luis Rainha diz:

    Henrique Lopes de Mendonça com “O Duque de Viseu”.

  6. Algarviu diz:

    Tenho o hábito de mais de vinte anos de reler “O Conde de Abranhos”.
    Reler é uma maneira de dizer, porque nunca me parece o mesmo livro que folheei no verão anterior.

  7. carlos graça diz:

    ” (…) E ainda há quem faça propaganda disto : a Pátria onde Camões morreu de fome / E onde todos enchem a barriga de Camões!(…)”
    Almada Negreiros, A Cena do Ódio

  8. algernon diz:

    estas merdas chateiam-me. quer dizer, o gajo pega no autor mais sobrevalorizado da história da literatura nacional, uma espécie de prosinecki da literatura, e diz que não é suficientemente “cultuado”; depois vem com a mesma merda de sempre: Eça e Machado (outro que não deve ser suficientemente “cultuado” e o caralho) contra o resto do mundo. não há paciência.

  9. António Figueira diz:

    Algernon,
    Eu não sei quem o Prosinecki, suponho que jogue à bola, mas também não sei o que pode ele ter a ver com a ideia deste post, que é simples: o Eça é tão bom como, por hipótese, o Flaubert e vende, worldwide, duzentos ou quinhentas vezes menos que o Flaubert, por ter tido o azar de escrever em português (idem para o Machado de Assis); e se o Eça é “sobrevalorizado” como diz em Portugal, será somente por uma conspícua falta de concorrência, e por não mais do que a meia-dúzia de fiéis, entre os quais gostosamente me incluo, que o relêem muitas vezes, e com muito prazer, porque ele é simplesmente o inventor da língua que hoje escrevemos e falamos.
    Cumps, AF

  10. yussuf diz:

    o mais sobrevalorizado é certamente o Saramago. Quanto a escrever em Português e a tal falta de mercado, a mim só me faz lembrar que o Brasil, tal como o Porto, fala outra língua. Porque se eu consigo ler brasileiro – e acreditem que mesmo o melhor brasileiro é fodido de ler (embora quando se perceba seja muito bom) – já acho mais difícil (oi?) que os brasileiros consigam ler português. Lá está, o acordo ortográfico bem nos pode fornicar a língua toda, mas lá que a prazo pode dar mercado, lá isso…

    Tivesse sido uma J.K Rolinha a escrever um Henrique Potes em vez de uma J.K. Rowling a escrever o Harry Potter e quantos exemplares teria vendido? (e agora para usar uma expressão do comentador Algernon e mais quantos filmes e o caralho?)

    Querem ver que As Aventuras da Magalhães e da Alçada não estão ao nível de uma Blyton com os livros dos 5? Mas também, editadas pela Caminho estavam fadadas a não ir longe.

  11. JMG diz:

    Ter inventado a Língua em que escrevemos, como bem diz António Figueira, já bastava para Eça ter direito permanente à “meia-dúzia” de fiéis (bom, se acrescentarmos os anónimos como eu, que sempre há em todas as gerações, já dá várias dúzias); mas inventou também os tipos de portugueses que, desgraçadamente, continuam vivos entre nós.

  12. Justiniano diz:

    António Figueira.
    Não sei se Flaubert vende ou não vende mais que Machado de Assis ou Eça mas sabemos que, pelo menos nos seus países e reciprocamente, ambos são muito mais cultuados doque Flaubert em França.

  13. António Figueira diz:

    Caro Justiniano,
    Eça morreu em 1900; no ano do seu centenário decidiu-se a publicação de uma edição crítica das suas obras, que permitisse ao público conhecê-las expurgadas dos moralismos que um dos filhos acrescentou (às obras póstumas), às selvagerias de uns quantos editores, etc.; estamos em 2009, e foi editado um terço ou um quarto do que havia por editar, por isso permita que lhe pergunte: acha que a França teve de esperar um século e tal para que o Estado ou a Academia lhe servissem as obras de Flaubert tal qual Flaubert as escreveu? Óbvio que não; Eça não apenas vende menos (no mundo): Eça é mais maltratado no seu próprio país.
    Cumps., AF

  14. Justiniano diz:

    Caro AF.
    Devolvo-lhe a sua pergunta.(Enquadrando, evidentemente, tudo no seu tempo histórico)
    Acrescento então: Acha que a França (A Republica) dedica a Flaubert o tempo institucional e curricular que Portugal dedica a Eça ou que o Brasil dedica a Assis.
    Eça não é nem nunca foi maltratado
    Quanto às vendas não sei, mas reparei que excluiu o Assis da comparação.

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