Sócrates no JN

José Sócrates, Primeiro-ministro e Secretário-geral do Partido Socialista, publicou hoje um artigo de opinião no Jornal de Notícias, entitulado “Uma escolha decisiva”. Não é preciso ler o artigo para advinhar que a conclusão a que chega é que a única escolha dos eleitores é re-eleger o PS.

Cabe antes de mais re-lembrar que as eleições legislativas do dia 27 de Setembro são para a composição dos 230 deputados da Assembleia da República (AR). Não são eleições directas para o Governo, e muito menos para o Primeiro-ministro (como a página Sócrates2009 parece querer implicar). Assim, os eleitores não devem condicionar o seu voto pensando apenas em quem vai formar governo, mas tendo em conta o espectro partidário do boletim de voto e reflectir que voz querem representada na AR. Se estão insatisfeitos com a política de direita conduzida pelos sucessivos governos do PS e PSD (com ou sem o CDS-PP), têm todo o direito de votar noutras forças que na AR façam oposição a essa política.

Duas notas a este propósito: Sócrates assume-se como de esquerda, como se a aplicação das directrizes neoliberais vindas da Europa, ou espelhadas no Tratado de Lisboa do qual ele tanto se orgulha, não desmontem esse seu posicionamento. Fala agora em investimento público para dinamizar a economia, após uma governação caracterizada pela obsessão pelo déficit, a redução de custos públicos (chumbando simultaneamente os limites ao paraíso fiscal da Madeira ou a lei, do seu camarada João Cravinho, de combate à corrupção). Afirma-se como uma alternativa, como se não se tratasse antes de continuidade.

As forças à sua esquerda, descreve como “esquerda radical” que ” que se limita a protestar, dispensando-se da maçada de contribuir para a solução de qualquer problema”. Isto é descarta todo o trabalho da AR dos grupos parlamentares à sua esquerda, que durante mais uma legislatura demonstraram uma capacidade de apresentação de projectos de lei, propostas de alteração, requerimentos, interpelações etc. que em muito ultrapassa as outras forças na AR. Que a maioria parlamentar se limite a chumbar automaticamente essas propostas construtivas, que tentam resistir à política do PS, não lhe permite caracterizar a oposição como apenas protestando. Protesta claro. É seu direito, por mais desconfortável que o Governo se sinta quando os trabalhadores saem à rua. Caso exemplar: se 2/3 dos professores protestam contra as políticas do Ministério da Educação, apresentando os sindicatos propostas alternativas e estando estes dispostos a negociar, são os professores e sindicatos que “não entendem”, que só protestam, são forças corporativas conservadoras.

Sócrates coloca a opção como entre a direita e o PS, como se o PS não vem praticando políticas de direita, e como se a verdadeira rotura política não fosse votar nas forças de esquerda que Sócrates exclui logo à partida.

Não é preciso sondagem para indicar que o PS ou o PSD irão conseguir uma maioria, pelo menos relativa. Os eleitores porém podem optar por reforçar as outras forças partidárias na AR. O que Portugal precisa é que nenhum dos partidos da alternância volta à prepotência que uma maioria absoluta lhes oferece. E sob uma maioria relativa serão forçados a dialogar com as outras forças políticas e com os parceiros sociais, não apenas como gesto demagógico, mas efectivamente tendo em conta as suas propostas, pois elas existem. É preciso é que as oiça.

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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2 respostas a Sócrates no JN

  1. Patricia diz:

    Completamente de acordo com a sua análise da entrevista,contudo parece-me que uma maioria relativa do PS não é exactamente o mesmo que uma maioria relativa do PSD quanto ao resultado do diálogo com as outras forças politicas e com os parceiros sociais.Tenho assistido,pelo menos naquilo que as televisões nos querem mostrar,e que é afinal o que a maioria dos eleitores ouvem,com alguma preocupação á forma como as forças á esquerda do PS estão a conduzir a campanha eleitoral,fazendo a maioria das criticas ao PS e deixando em silencio o muito que há para dizer acerca do PSD.Embora fosse muito importante que os votos que o PS vai perder fossem para a CDU,sei que isso nunca aconteceu e que na sua grande maioria eles acabam por ir para o PSD,e para esse peditório convem que não contribuam os partidos á esquerda do PS.É que o partido de MFL parte já em vantagem,tem um representante em Belém e outro em Bruxelas

  2. Chico da Tasca diz:

    As “propostas alternativas” dos sindicatos dos professores, nomeadamente daquele que é o braço armado do PCP para desestabilização politica, a Fenprof, são tão sómente serem eles a tomarem as decisões relativas à educação, ou seja, o PCP, e obrigarem a Ministra a ceder em todos os pontos e, se possivel até, acabar por demitir-se.

    Ou seja, a avaliação não seria para se fazer, ou seria de tal forma esvaziada que na prática se continuaria no regime de progressão automática, e do igualitarismo de todos os professores, obviamente todos com classificação de “excelente”.

    Seria fazer um estatuto da carreira docente sob as directivas da Soeiro Pereira Gomes, dando aos professores tudo o que eles querem sem lhes exigir nada em troca, nomeadamente responsabilidades.

    Seria continuar num sistema de gestão das escolas dito pomposamente “democrático”, mas em que a responsabilizade, mais uma vez, é inexistente, totalmente sem rosto, e integralmente diluida num colectivo.

    Ou seja, os sindicatos, todos eles, especialmente os ligados à CGTP, não têm “alternativas”, têm uma prática politico-partidária, a mando de um partido, e perseguem objectivos de torpedeamento de qualquer governo que não seja afecto à linha ortodoxa do PCP.

    Por isso, nem se pode falar em negociações séria porque elas são impossiveis uma vez que esses “sindicatos” braços armados, vão para elas com uma atitude de pré-concebida intransigência, e arrogância, com objectivos politicos bem definidos.

    É com este terrorismo sindical que de sindicalismo não tem nada, que todos os governos desde o 25 têm tido de lidar, e invariavelmente cedido, por pura cobardia e oportubismo eleitoral.

    Felizmente o Governo Sócrates foi o unico (e muito bem!) que não cedeu, e por isso (mas não só) vou votar nele.

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