entes queridos

Lembro-me de há muitos, muitos anos, estar em casa dos meus avós enquanto alguém colocava no gira-discos um humilde 45 rotações com a “Guerra” do Raul Solnado. Os adultos sentavam-se com o ar seráfico e solene de quem aguarda um momento religioso importante. Ao fim de segundos, já as gargalhadas ecoavam pela sala. E eu ali ficava, sem achar qualquer pilhéria ao puído disco mais o seu cómico revisteiro.
Há uns minutos, vi o sketch num programa da RTP. O Bruno Nogueira anunciou-o como a destilação suprema da arte da gargalhada. Eu vi aquilo com a sincera expectativa de ultrapassar as limitações de entendimento dos verdes anos. Mas agora continuo sem achar qualquer piada à coisa; defeito meu, com certeza. Ademais, fiquei a saber que nem se tratava de material original, mas sim de um texto espanhol.
Falecido Solnado, todos têm algo de bom a dizer sobre ele. Melhor: uma história sobre eles mesmos, que de alguma forma remota envolve o actor. Por mim, fico com a ideia de que ele conseguiu ser um raio de Sol que entrou em casa de muitos numa noite especialmente sombria e longa. E já foi muito. Transformá-lo agora numa espécie de Monty Python unipessoal é que nem me parece elogio fúnebre decente.

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4 respostas a entes queridos

  1. Num dia que lhe deu para a parvalheira, o…”defeito meu, com certeza”…é das poucas coisas que se aproveitam.

  2. Ora bem, o texto da Guerra, não presta, Rainha, nunca lhe achou piada.
    «Ademais, fiquei a saber que nem se tratava de material original, mas sim de um texto espanhol.»
    Ademais se o texto nem sequer era de Solnado, o facto de se tratar dum texto medíocre (na opinião do autor do «post) não pode servir para uma pseudo-mediocridade de Solnado.
    Julgamos Solnado como comunicador/intérprete/actor e não como autor.
    «Por mim, fico com a ideia de que ele conseguiu ser um raio de Sol que entrou em casa de muitos numa noite especialmente sombria e longa.»
    Neste particular está enganado, o Zip-Zip é transmitido em plena Primavera Marcelista… quanto muito conseguiu (nessa altura) ser um raio de Sol primaveril.

  3. Luis Rainha diz:

    Pedro,
    Ninguém aqui falou em mediocridade; apenas em inflacionar para lá da escala humana um bom actor e um estimável ser humano. Quanto à Primavera, olhe que “A Guerra de 1908” foi editada em disco ainda em 62.

  4. Pedro diz:

    O maior humorista português do século XX foi o Herman José. Ponto final. O humor que se faz actualmente, feito pelos filhotes do Herman, gatos, contemporâneos e companhia, é melhor do que alguma vez se fez. Outro ponto final. A única coisa que toda a gente recorda do Solnado é a rábula da guerra, que, como bem recorda o Luis Rainha, nem sequer era dele. Imagino (tenho até a certeza) de que era um texto revolucionário para a época e que foi uma ousadia e uma lufada de ar fresco para a época. A mim, agora, não me provoca mais do que um sorriso. O resto que tem aparecido dele por aí não ultrapassa a mediania num género, o revisteiro, que já de si não é grande coisa. Não vale a pena sermos paternalistas e forçarmos a gargalhada. Dizem-nos que foi um homem bom que ajudou muita gente. É quanto basta para o homenagear.

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