A Era dos Extremos (o fim de certa blogosfera)

The Age of Extremes. Feito o devido downgrade, o título da obra de Eric Hobsbawm é suficientemene adulterável para descrever aquele que foi o momento fundador da blogosfera portuguesa. Mais, descreve a natureza da blogosfera política que lhe sucedeu e que acabaria por perdurar até há bem pouco tempo. A aparição de uma blogosfera portuguesa, resolutamente marcada pela direita intelectual e provocatória que se corporizou na Coluna Infame, foi de molde a definir o debate político em termos diversos da demais esfera pública. O facto é que os dados inicialmente lançados impuseram lógicas de radicalismo e afinidade ideológica que longamente definiriam os termos do jogo.

Além dessa direita intelectual, decididamente à direita do PSD, fosse pela irreverência e pelo culto do politicamente incorrecto, fosse pela afirmação de um conteúdo ideológico orgulhosamente de direita, a blogosfera tornar-se-ia também o habitat de um certo liberalismo que se reivindica subsisidiário de Friedrich Hayek e Isaiah Berlim (seria difícil nomear todos os blogs que se destacaram nesta linha). Escusado será dizer que este liberalismo não tinha então qualquer correlato significativo na vida partidária indígena (só muito mais tarde Passos Coelho ensaiaria uma tradução política).

Como resposta, haveria de surgir uma blogosfera ideológica à esquerda do PS (conotada sobretudo com o Bloco de esquerda) que se mostrou capaz de afirmar uma agenda recorrendo aos usos da ironia e do cinismo, marcas de estilo que a direita influentemente havia cultivado. Parece-me lícito afirmar esta esquerda ideológica surge na blogosfera como uma réplica vagamente simétrica da direita que então dominava. Esta vaga de esquerda — com corolário no Blog de Esquerda e no Barnabé — viria também a ser grandemente definida e impulsionada, no seu “radicalismo oposicionista”, tanto pela oposição à governação Barroso/Santana Lopes, como pela constestação à guerra do Iraque — estávamos numa altura em que a política internacional aparecia como uma dimensão decisiva na demarcação política (voltaria a acontecer com a guerra do Líbano).

Assim se forjou uma era em que o debate político ia sendo fortemente alimentado pelas franjas do espectro político e em que a discussão vivia de questões marcadamente ideológicas. Pois bem, essa era acabou. Hoje a blogosfera é um reflexo fiel da esfera pública portuguesa: o debate ideológico foi largamente substituído pelas questões pragmáticas do governo da república e a crítica tendencialmente indiscriminada foi dando lugar aos rigores da lealdade partidária. De facto, não haveria forma de olharmos para o Jamais ou para o Simplex senão como sintomas cintilantes de uma nova era, uma era em que os partidos do centro político reclamam na blogosfera o protagonismo que lhes é devido no mundo real. Enumerando as causas desta transformação, poderíamos dizer que resulta de uma crescente densificação de transações entre a blogosfera e o mundo exterior, que resulta da institucionalização de algumas vozes sob a morna respeitabilidade dos media tradicionais, que resulta de uma conjuntura em que a política internacional não fomenta fracturas ideológicas de maior, que resulta de um clima pré-eleitoral que favorece um calibrar das relações de poder, que resulta, enfim, do magnetismo de um centro político que assim revela a extensão da sua hegemonia (replay).

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8 respostas a A Era dos Extremos (o fim de certa blogosfera)

  1. Justiniano diz:

    “Escusado será dizer que este liberalismo não tinha então qualquer correlato significativo na vida partidária indígena (só muito mais tarde Passos Coelho ensaiaria uma tradução política).”
    Não tinha, não tem nem terá (este liberalismo hayekiano).
    E muito menos o Passos Coelho é rapaz para ensaiar o que quer que seja ou representar o que quer que seja, excepto, naturalmente, a sua pessoa.
    Quanto ao Jamais e Simplex são apenas fenómenos transitórios até Setubro.

  2. Luis Rainha diz:

    Bem-vindo, camarada!

  3. carlos fonseca diz:

    Parabéns, pela clareza e profundidade da análise. Excelente texto.
    Ao contrário do Justiniano, sou da opinião de que o Jamais e o Simplex não são fenómenos transitórios. Porque, com ou sem eleições, a luta no interior do círculo do centrão é e será perene. Os únicos safanões sérios que o perturbarão têm que ter origem externa, fruto de eventuais efervescências em sociedades mais politizadas – onde os Isaltinos não voltariam a concorrer e ganhar eleições, por exemplo.

  4. Justiniano diz:

    Carlos.
    O Jamais e o Simplex são fretes (comissões especiais) irrepetíveis fora da contenda pré eleitoral.

  5. Carlos Vidal diz:

    Tambén acho que o Jamais e o SIMplex acabarão em Setembro (como os blogues que apoiaram Cavaco e Soares). Senão, lá se vai o Jugular. Galambas e Pires estão muito activos na vitória do PS, um porque tem tudo a ganhar, a outra porque pode ser que debique algo depois.

    Mas o objecto do comentário era dar as boas-vindas ao Bruno Sena.

  6. Bruno Sena Martins diz:

    Na transformação de que dou conta o Jamais e o Simplex são entendidos como sintomas ou epifenómenos de uma transformação de fundo que os precede, transformação facilmente reconhecível para quem conheceu a blogosfera em 2003. Passa-se algo diferente do fenómeno dos blogs para as presidenciais, esses sim efémeros, na medida em que há muito que se vem desenhando um quadro de opinião crescentemente próximo dos partidos do centro-esquerda e centro-direita: um duradouro movimento centrípeto. É verdade que eleições agudizam tudo isto. O facto é que já não são as franjas da opinião política que assumem o protagonismo que outrora tiveram no mapa dos blogs políticos com visibilidade.

  7. Bruno Sena Martins diz:

    Muito obrigado pelas boas-vindas.

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