O senhor Eduardo Pitta é incomentável….

…. em todos os sentidos. É incomentável, porque tem um estilo marcante – não se deixa comentar (e aquilo que ele escreve também não ajuda nada). Exemplo de um estilo (um entre muitos exemplos): Vivaldi, il furioso; a sua caracterítica era uma mistura de fúria (andamentos descontroladamente vivos e rápidos, colagem….) e lirismo exacerbado, a fúria do prete rosso da Serenissima. Pitta é todo um outro mundo: cinco séculos depois deste Verão, ainda nos lembraremos que o homem (um crítico de quem não li uma única crítica) não permitia comentários nos seus posts, e só dialogava quando vinha comentar os posts dos outros (frequente, mas não aqui, safa!). Agora, acrescentando uma linha ao que em baixo escreve o Luís, vem como uma teoria notável muito “socialista” (atenção Fernando Rosas, atenção Irene Pimental ou mesmo António Reis, gente que estudou Portugal contemporâneo) que é a seguinte: funcionários públicos, professores, suponho ainda que inquilinos, etc. – há cambadas de parasitas (Pitta aprendeu termos com António Costa) que vivem hoje de privilégios que Salazar (os inquilinos e outros “vespeiros”, que Pitta não especifica) lhes deu. O maldito 25 de Abril fez o resto. E o homem que veio acabar com esses resquícios 25 de abrilistas foi, nem mais nem menos, o Engenheiro J Sócrates. Boa imagem: o coveiro dos direitos e de Abril. Certíssimo.

Isto é bom, muito bom.

Enquanto não emigrarmos, temos de viver nesta porcaria de lugar.

ADENDA (7-8 / 17:30): O que é francamente deprimente, ou revelador, no texto de E. Pitta aqui comentado é o modo como aí se define os propósitos do 25 de Abril: diz E. Pitta que se tratou de desmantelar a polícia política e terminar a guerra colonial. Ora bem, que dizer? Não foi só isso o 25 de Abril, senhor Pitta. Foi muito mais: para simplificar, e porque não tenho muita paciência, foi a esperança numa sociedade nova, fosse qual fosse o nome a dar-lhe. Olhe, EXPERIMENTUM MUNDI, como dizia Ernst Bloch, e não a mediocridade gestionária em que estamos imersos, tão do agrado de E. Pitta. (Que se lixe o link.)

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6 respostas a O senhor Eduardo Pitta é incomentável….

  1. Justiniano diz:

    Vidal!
    Mas que resquícios 25 Abril e direitos é que estás para aí a falar?

  2. alzheimer diz:

    Não é o Pitta da Madeira?Se é,tem uma grande estória atrás dele

  3. Chico da Tasca diz:

    Olhe no caso dos inquilinos que andam a chular os senhorios com rendas miseráveis e a serem subsidiados por eles na ordem das centenas de euros todos os meses, são parasitas e bem parasitas.

    Ou o Carlos Vidal tem alguma dúvida ?

  4. Justiniano diz:

    Vidal! (Com a adenda) Já estás como o Pitta, para não nomear hegelianos de domingo (bloch incluido, quando a utopia se aproxima…avança para a horta que não é esta…é outra).
    Mas não é esta sociedade, de mediocridade gestionária, exactamente o legado de Abril? Não foi aquela utopia que nos trouxe até aqui!? Queres outra ou outro Abril?

  5. Carlos Vidal diz:

    Caro Justiniano
    Bloch, Badiou, Brecht, Balibar… Grandes “B”.

    Vamos por partes:
    1. A sociedade gestionária e medíocre não é um legado de Abril!
    É um legado da morte do PREC, é um legado de quem interrompeu o PREC, é um legado de um PREC absurdamente anulado.

    2. Quanto a um novo Abril, sim.
    Estou sempre interessado no “acontecimento”, chame-se revolução ou outra coisa qualquer.
    O “acontecimento” é:
    – imprevisível
    – não se faz anunciar
    – inédito e sem precedente (claro!)
    – sem contornos fáceis de explicar

    À explosão súbita do “acontecimento” chama-se humanidade.
    À sociedade gestionária e medíocre chama-se “sobrevivência” ou sub-humanidade.

    Isto parece apenas uma teoria mas não é, nem nunca foi.

  6. Justiniano diz:

    Caro Vidal! Força, avança.
    Mais tarde, obra..aos frescos e é estucar os tetos e desfazer os aindaimes ou então…lavra, até à desova, que a fome aperta e a sede mata. E voltas, com a ressaca, secão e fome.
    De acontecimento em acontecimento até ao acontecimento final.
    Percebi-te.
    Mas e o tal indivíduo onde é que entra nessa turba da humanidade a que chamas acontecimento.

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