ABOMINAÇÃO DA PÁTRIA ou VIAGEM DE VIENA AO ALGARVE

Schwarzkogler.2
Rudolph Schwarzkogler. Foto. (década de 60: mutilação, estetização da dor.)


Hermann Nitsch. “Maria – Conception”. Orgia-Mistério. 1969

Não, não iria agora falar de J. Sócrates nem de política partidária portuguesa, apesar de poder ser abominada uma “pátria” que elege J. Sócrates para o que quer que seja. Iria agora falar de uma curiosa ocorrência das neovanguardas austríacas, nos anos 60-70. Poderemos começar aqui, nesta “ocorrência”, uma conversa sobre relações entre arte e política ou “arte política”?
Não sei. Ainda hoje não sei até que ponto uma acção estética, individual ou colectiva, quando investida de uma forte automitificação (mesmo que em torno da abjecção, contrária a sensibilidades “oficiais”), é potencial e realmente emancipadora ou, ao contrário, conservadora. Poderá a automitificação levar-nos a uma teologia libertadora, ou levar-nos-á sempre a um autocomprazimento convencional ou, como antes se dizia, «académico»? Vejamos o acontecido com o «Accionismo Vienense», movimento colectivo que me suscita esta questão e em relação ao qual balanço entre um pólo e outro. De facto, havia aqui um potencial emancipador que passava, como em muita da cultura austríaca recente (Peter Handke, Thomas Bernhard) por uma “abominação da pátria”, daquilo que a forma ou ela contém; território, identidade, história, lei, ordem, capital, direitos, deveres, trabalho, propriedade, etc.
O «Accionismo Vienense» surge na cena artística austríaca em meados dos anos 60, agrupando artistas que me motivam reacções ambivalentes (porque por vezes me interessam muito, outras me suscitam uma distância que quase me faz esquecê-los em certas enumerações, no entanto nunca uma rejeição), como Arnulf Rainer, Hermann Nitsch, Schwarzkogler ou Günther Brüs e Otto Mühl, grupo cujos temas em permanência foram a estetização celebratória da morte, a superação do corpo, a possessão demoníaca como um teatro vivo materializado em performances ritualizantes (ecoando Artaud), sacrifícios de animais e subsequente exaltação organicista das suas vísceras enquanto substitutos dos materiais actuantes da pintura (o gesto de matar transformado em action painting), celebração do acto de defecar, vomitar e comer os próprios dejectos (no esteio da oposição hegeliana natureza/cultura), tudo isso tratado como programa para uma teologia da libertação plena de fisicalidade. O que, como disse, nunca se desligou de um claro e radical programa político-social: pela oposição à propriedade privada, pela vida comunitária alternativa; pela sexualidade livre, democracia directa, etc.

Schwarzkogler.1
Rudolph Schwarzkogler. Acção (ritual de castração). 1965.

Todo este movimento vem a adquirir, no seu desenvolvimento, facetas de tal modo vitais que, num cruzamento entre a psicanálise de Jung e de Freud, levarão o indivíduo para um exterior da estética (sem apelo ou recuo possível), a qual, junto às estruturas da sociedade e do Estado, passa a ser responsabilizada por todas as fases decepcionantes e adversidades fatais por que passa a (impossibilidade de uma) verdadeira libertação. No entanto, para Rosalind Krauss toda a reacção «Accionista» contra a forma estética tradicional, ou contra as paralelas formas de poder de Estado, é realizada segundo uma modalidade exclusivamente religiosa, ou seja, estamos perante posturas que não reagem à forma estética clássica mostrando a sua decrepitude e a sua caducidade entrópica, mas substituem-na por uma nova formalização/tematização fundada no incorpóreo e na sacralização conservadora, mítica, ritual. E o incorpóreo é pouco ou nada reactivo, transformador. Porque do incorpóreo a um neoformalismo o caminho é curto (Krauss prefere o “dispêndio” de Georges Bataille ao “Accionismo”). E porque não pensar de outro modo? Porque não propor a tese de que aquilo que o «Accionismo» pretendeu foi não a «morte da experiência estética», mas precisamente a sua transvaloração pela libertação da força dionisíaca e do recalcado (é de um eco nietzschiano que se trata, com efeito). Libertação intempestiva (chame-se-lhe religiosa, se se quiser), motivada por um pânico incomum (tipicamente austríaco) pela «vitória» anunciada do formalismo.

Por isso, um autor como Hermann Nitsch não hesitou em cruzar Sófocles, Eurípides e a leitura nietzschiana da tragédia com as noções de pecado e redenção cristãs numa nova Gesamtkunswerk a que chamou de Teatro Orgia Mistério, sujeitando-se inclusive à reclusão policial — um facto acessório perante a transvaloração e a catarse essencial. Tal como Schwarzkogler (morto em 1969), que igualmente não hesitou em levar o seu projecto meta-estético às últimas consequências. Dele se espalhou uma versão da sua morte ligada a uma performance de autocastração; notícia não verdadeira, mas a morte acabaria, de qualquer modo, por estar ligada à sua «experiência estética» — Schwarzkogler lançou-se, naquela que foi a sua última «obra», da janela do seu apartamento testando a necessidade e capacidade de voar.

Paradigmático é ainda o caso de Otto Mühl, um dos nomes mais radicais deste grupo de artistas, pelo modo como transformou as suas críticas a uma socialidade repressiva numa estruturação vivencial comunitária total. Desde os anos 60 que diagnostica as fontes de todas as patologias agressivas e destrutivas no conceito de «família nuclear». Em resposta, entre 1970 e 1972, abandona as artes performativas e funda a Comuna de Acções-Analíticas — aí, a posse privada da propriedade e do dinheiro eram incompatíveis com a vida e, devido à livre sexualidade, a paternidade era desvalorizada e trocada por uma educação e desenvolvimento colectivo dos menores. A Mühl são movidos entretanto vários processos e o artista é preso em 1991. Mas, em 1997, funda uma outra comuna na serra algarvia, na zona de Faro. E acho que ainda por lá vive.


Otto Mühl. “Mama and Papa”. 1964.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

6 respostas a ABOMINAÇÃO DA PÁTRIA ou VIAGEM DE VIENA AO ALGARVE

  1. Otto Mühl, vive ainda na zona de Olhão Tavira se não estou em erro, ainda não estive lá mas conheço amigos que frequentam ou frequentaram a sua comuna.
    Quanto ao abjecçionismo e vendo estas imagens (nunca tinha visto algo semelhante) me interrogo do mesmo modo;
    “Não sei. Ainda hoje não sei até que ponto uma acção estética, individual ou colectiva, quando investida de uma forte automitificação (mesmo que em torno da abjecção, contrária a sensibilidades “oficiais”), é potencial e realmente emancipadora ou, ao contrário, conservadora.”
    A superação do modo de produção capitalista, não desemboca necessariamente nesta catarse, talvez possa servir de denúncia?

  2. Carlos Vidal diz:

    Caro Adão Contreiras, grato pela informação sobre Otto Mühl, é muito interessante que ele continue a viver em Portugal, e que o deixem em paz – é um ponto a favor de Portugal (e já são tão poucos os pontos a favor “disto”, que a notícia que me dá sobre Mühl me traz particular satisfação).
    Quanto ao potencial emancipatório destas formas artísticas: eu vejo esse potencial mais na catarse (que compreendo) e menos na automitificação ou autoglorificação de tipo religioso.

    Na mesma época, certas expressões e artistas radicais feministas norteamericanas, Carolee Schneemann principalmente, trabalhavam essa dimensão de catarse diminuindo a mitificação religiosa.

    Veja por exemplo a sua performance “Meat Joy” de 1964, onde a “ambiência” é muito próxima do “accionismo vienense”, mas totalmente diferente:

    http://www.ubu.com/film/schneeman_meatjoy.html

  3. Pingback: Não se ponha com ideias. « vida breve

  4. só hoje entrei aqui novamente; o link da Schneemann mostra outra performance que desconhecia, assim me vou informando; obrigado também da minha parte.

  5. Pingback: Ainda dizem que somos racionais « Um Pouco de Bom do Resto

Os comentários estão fechados.