Morreu um grande artista do século XX e também XXI de que eu muito gostava: MERCE CUNNINGHAM – permitam-me pois que reproduza (excepcionalmente) um post muito recente que aqui publiquei sobre ele
27 de Julho de 2009 por Carlos Vidal
Excerto do filme The Collaborations: Cage, Cunningham, Rauschenberg. 1987
Merce Cunningham é hoje um artista de 90 anos.
É um coreógrafo, sim, mas o seu génio e as implicações globais da sua obra (interacção de interesses, conjugação de disciplinas, colaborações…) permitem-nos falar de um “artista”, aliás um dos maiores do século XX. Foi bailarino solista da fundadora da dança moderna americana, Martha Graham, entre 1939 e 1945. No princípio da década de 50, vamos encontrá-lo nesse lugar mais do que mítico (onde pontificava leccionando Joseph Albers, um exilado alemão da Bauhaus, fundamental teórico da cor) e escola charneira para quase toda a geração de artistas americanos pós-Expressionismo Abstracto (ou pós-Jackson Pollock, se quisermos, que morreu em 1956), a famosa escola da Carolina do Norte de nome Black Mountain College. Aí encontraria Cage, John Cage, o seu companheiro de arte e de vida (Cage morreria em 1992), e Bob Berg, Robert Rauschenberg, o pintor de quem Serralves expôs há pouco trabalhos inéditos (!!), criador da “combine painting”, levando o objecto para o seio do Expressionismo Abstracto, também este já falecido.
Com Jasper Johns, Cage, Rauschenberg e Cunningham formaram o quadrunvirato de amigos íntimos mais importante da arte americana do pós-II Guerra. Cunningham é autor de mais de 200 coreografias desde os anos 40, passou com a sua companhia várias vezes por Lisboa (felizmente), foi retrospectivado (com o seu universo colaborativo) na Fundação Tàpies, de Barcelona, e em Serralves, entre muitas outras exposições. No princípio deste mês o Reina Sofia de Madrid programou alguns dos seus “Events”, mostras aleatórias de várias das suas coreografias, aleatório que é uma das ideias centrais de Cage e Cunningham, criador de uma dança não psicológica, ou seja, de um trabalho no movimento per se sem significado, sem narratividade e emoção. Tratando a dança como “meio puro” ou, usando um termo de Giorgio Agamben, medialidade pura, “meio sem finalidade”. Pertence, na minha opinião, a Cunningham uma das melhores se não a melhor definição de dança que li: “Realmente, temos de amar a dança para lhe dedicar a vida. A dança não te devolve nada: nem manuscritos que se conservam, nem pinturas que se mostram nas paredes de museus, nem poemas que se editam e se vendem. Na dança não há nada mais do que um momento fugaz em que te sentes vivo. A dança não é feita para almas instáveis”.
Penso aqui o quanto isto se opõe a uma convencional definição de arte, como sendo aquilo que lançamos contra o efémero, isto é, contra a morte, contra o real, para retomar a definição de mito por Hans Blumenberg (Arbeit am Mythos, 1979). Recorde-se que, para Blumenberg, o mito surge quando o homem tem de abandonar o refúgio da floresta fechada e daí vai recorrer à caça em espaços abertos e viver em grutas. Apanhado na abertura total das savanas, o homem experimenta o medo do real, o medo da “absolutização do real”; e daí surge a realidade mitológica. Ora é isso que a dança enfrenta de peito aberto: a absolutização do real, a savana aberta do efémero, sem precisar de deixar testemunhos.
Channels/Inserts. 1981.
NOTA: Texto aqui publicado com o título “Absolutamente real: sobre MERCE CUNNINGHAM”, a 28 de Maio deste ano.

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