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Círculo de prosa: Caça grossa

25 de Julho de 2009 por António Figueira

Ressacado porém feliz, contou-me candidamente a noitada que o pusera naquele estado: um primo, o primo predador por excelência, em cuja companhia, nos verdes anos, tinha disparado uma flauber a esmo no rabo dos passantes e atirado um desconhecido ao mar, do paredão de Cascais, por puro gozo juvenil, tinha agora um novo projecto, que lhe explicara precisamente ontem e para o qual havia requerido a sua infalível colaboração: tratava-se agora de implementar, numa vasta quinta de 3.000 hectares no T., em plena estepe alentejana, devidamente despojada de mujiques, um projecto de caça grossa, a cavalo como de costume, mas desta vez com lança, como se fazia algures na Escócia, “-Não é lindo?”, perguntou-me ele, com o olhar alucinado que é habitualmente o seu, mas ademais com o facies verde e a língua encortiçada da pós-alcoolização. “-Em dependendo do traje”, respondi-lhe eu, “se for com um saiote das highlands parece-me um bocado bobicha; eu acho que com uma armadura das antigas ia melhor”. “-E se um gajo cai?”, perguntou ele com uma inquietação genuína. “-Porra, vocês já não têm aios que vos acudam?” O meu reparo foi certeiro: não respondeu, logo o traje medievo foi reconhecido como o mais apropriado. Aproveitando a deixa, prossegui: “-E que caça grossa é essa, elefantes?” Respondeu com o olhar ausente, distraído ainda pelo tormentoso problema do traje (como sempre, e em todas as situações, o mais ingente): “-Não…, acho que se mandam vir uns veados e uns porcos…, mas uns porcos selvagens…”

Comentários

Pingback de cinco dias » Círculo de prosa: Uma certa ideia de Portugal
Data: 25 de Julho de 2009, 21:18

[...] dia o Velho Mundo há-de ressuscitar e Portugal há-de voltar a ser uma enorme superprodução, com trajes à antiga, cavalos em vez de carros e a malta toda a fazer de figurantes – e ele e os seus pares a mandar, [...]

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