Manuel Alegre e a esquerda

Um dos deputados com mais anos de hemiciclo deixará hoje o seu lugar. Por agora não me interessa pensar se regressará (como ameaça) ou se prepara a sua candidatura à Presidência da República.
Interessa-me sim, reflectir sobre a forma distinta como PCP e BE têm reagido às posições de Alegre nos últimos quatro anos. A tese que estas reacções são determinadas, num caso, pelo sectarismo, noutro pela ânsia de protagonismo e poder, tem impedido uma reflexão séria e que os dois partidos possam pensar em conjunto.
Parece-me claro que PCP e BE têm visões opostas do papel que Alegre tem.
O PCP entende que Alegre legitima as políticas de Sócrates, ao dar a ideia que existe uma parte da estrutura dirigente do PS com preocupações de esquerda. Ainda que não se traduza em medidas concretas, o seu discurso, permanecendo como militante do PS, permite aos eleitores de esquerda uma réstia de identificação com o partido socialista. Ao invés, o BE entende que as tomadas de posição pública de Alegre enfraquecem Sócrates e que a sua proximidade com a alegada ala esquerda do PS, lhe permitirá crescer eleitoralmente.
Este entendimento é bem patente nas inúmeras declarações de Louçã a apoiar tomadas de posição de Alegre, mesmo quando este também crítica a alegada incapacidade da “outra esquerda” em ser poder, e nas declarações de Jerónimo quando diz que Alegre tem de ser consequente com as afirmações de ruptura com o PS que profere.
Eu penso que Alegre teve a oportunidade da sua vida, na sequência das presidenciais.
Se é um facto que o seu programa e discurso eram vazios e genéricos, o movimento que se constituiu e que se materializou com uma importante expressão nas urnas manifestava uma clara vontade transformadora e de ruptura pela esquerda.
O que fez Alegre?
Voltou à sua Vice-Presidência da Assembleia da República, manteve-se no PS e para além de uma ou outra intervenção mais recente, não se conhece nenhuma sua acção parlamentar (à excepção de uns quantos votos contra) que pudesse potenciar a vontade transformadora que quem nele votou esperaria. Aliás, a única materialização política posterior terá sido os Cidadãos por Lisboa no qual, mais uma vez, Alegre teve um papel fundamental na sua diluição dentro do PS, com o recente acordo.
Conseguindo entender o raciocínio de PCP e BE, entendo que a acção de Alegre teve um papel fundamental no desmantelar de movimentos de carácter eleitoral que traduziam uma expressão da vontade transformadora do eleitorado e na falta de trabalho conjunto entre os dois partidos, potenciando um para ostracizar o outro. Sócrates estar-lhe-á agradecido, mas a esquerda não lhe deve perdoar.

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8 respostas a Manuel Alegre e a esquerda

  1. Antónimo diz:

    Muito provavelmente Alegre será o candidato da esquerda contra Cavaco (se este se recandidatar, o que não é uma certeza.)

    Também me parece que o conjunto do raciocínio faz bastante sentido, mas tende a ignorar a vontade do poeta nestas consequências todas.

    Alegre não parece capaz de desenhar estratégias nem cenários fora do navegar à vista. O desmantelar referido passa mais pelo lado fortuito da acção do que por uma intenção planeada. O que não diz muito em abono do candidato presidencial.

  2. i.tavares diz:

    Desculpa-me Tiago.Eu já comentei,em outro local. Mas o que se pode pensar,de pessoas que não são carne nem são peixe.

  3. Justiniano diz:

    Tiago!
    O Alegre pertence à tradição Republicana Portuguesa. E, como tal, a uma esquerda, pós hegeliana, Patriótica e liberal.
    Como Patrióta é incompatível com o BE e como Liberal é incompatível com o PCP. Alegre só pode estar dentro do PS e quer pouco saber do que pensa ou diz o PCP ou o BE e pouco que lhe diz a pretensa esquerda que cada um desses partidos que representar.
    Quanto à temática do PCP e BE trabalharem em conjunto…ridículo.

  4. Augusto diz:

    Não sei se o Alegre legitima ou não as politicas de Socrates, tal como João Cravinho, Vera Jardim e mais alguns.

    O que sei é que muitos diplomas entre eles o Codigo do Trabalho do PS , o Alegre votou ao lado do PCP e do BE contra….

  5. António Figueira diz:

    Bom post.

  6. Tiago Mota Saraiva diz:

    Antónimo, não me parece que o processo de congregar o voto de de quem pretende uma transformação, para mais tarde o desmantelar seja fortuito.

    Justiniano, o que defendo é que Alegre sempre fez mais pela divisão da esquerda do que pela sua união. E na minha concessão, o trabalho unitário é fundamental.

    Augusto, também Pacheco Pereira votou a legalização da IVG, e depois?
    Alegre também votou com PCP e BE outras coisas, mas veja este texto do Emídio Fernando sobre um dos “momentos de esquerda” de Alegre: http://correiopreto.blogspot.com/2009/01/vergonha.html

  7. Justiniano diz:

    Tiago.
    A esquerda não é unívoca! (Nem a direita)
    O “trabalho unitário” só é possível se for instrumento de alguma homogeneidade de ideias, de outro modo será, apenas, mais uma categoria subsidiária da acção política partidária.(como na fábrica)

  8. Tiago Mota Saraiva diz:

    Justiniano, de acordo.

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