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Setenta e uma páginas traduzidas de francês mauzito para passável português pagam uma palmeira sub-desenvolvida com vasto potencial de crescimento, dois arbustos & três pés de alfazema para a varanda, 12 copos de vinho para substituir os que se vão partindo, um candeeiro para a sala, um sofá em promoção, e sobram cem euros. Não é mau negócio, mas a tarefa teria sido laboriosa, não fosse existir uma versão inglesa que me permitiu decifrar o original francês, afogado em passivas e perífrases. Apeteceu-me enviar flores à tradutora inglesa, e à autora, um exemplar do “Fight the Fog”, um manual na arte de escrever de forma clara criado pelos tradutores da Comissão Europeia para combater o euroinglês – que é, suspeito, uma invenção francesa. Quando trabalhei na Comissão (e uso o termo “trabalhar” com o sentido mais amplo), tive um chefe que passava as reuniões de avaliação das propostas a concurso a comparar o “florid style” das candidaturas francesas com a concisão das inglesas; para poupar tempo, determinou que saltássemos os primeiros capítulos das ofertas chegadas do Hexágono, divagações poético-filosóficas que contrariavam o sentido prático de funcionário europeu educado em Oxford. Era também ele que dizia que o inglês, “if and when spoken slowly enough, is a language that anyone will understand”, um “whishful chauvinism” comparável aos “Manolo, tra-zes-me um bi-fe bem pa-ssa-do, se fa-zes favor” com que o meu pai atormenta desde sempre empregados de restaurante espanhóis.

Mas é injusto creditar a clareza e o poder de síntese aos ingleses e assacar a responsabilidade das derivações do eurojargão aos franceses, claro: o “Tristam Shandy” de Sterne não perde menos tempo que Proust em digressões literárias, e, nas mãos erradas, todos os idiomas se prestam a maus usos. Culpa de franceses ou de um “eurobug” endógeno em Bruxelas, a verdade é que a alergia a chamar os bois pelos nomes (“to call a spade a bloody shovel”) infectou directivas e memorandos (criando clássicos do género “it was agreed that further evaluation would be carried out to assess in more detail the feasibility of the project”). E não se limita ao eurocratês publicado no Jornal Oficial: um aviso na casa-de-banho da empresa onde trabalho diz: “Pour des raisons d’hygiène et eu égard à la dignité des utilisateurs de ce lieu, merci d’en respecter la propreté” (onde, em inglês, um simples “keep clean” bastaria). Eu adoro aquele “eu égard à la dignité des utilisateurs” (e porque não também “pour minimiser les nuisances olfactives”?), mas temo pela eficácia desta literatura de JO & WC. Conta-se que Churchill, para quem “short words [were] best, and the old words when short best of all”, devolveu o discurso de um general americano que lhe pediu conselho com a nota “too many passives and too many zeds”. Intrigado, o general solicitou explicações. “Too many Latinate polysyllabics like ‘systematize’, ‘prioritize’, and ‘finalize’. And then the passives. What if I had said, instead of ‘We shall fight on the beaches’, ‘Hostilities will be engaged with our adversary on the coastal perimeter?'”.

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