Bonito, bonito… era deixarem o meu naperon em paz
17 de Julho de 2009 por Luis Rainha
A Coca Cola decidiu arvorar-se em árbitro do gosto dos portugueses, através da linda campanha “Coca Cola Light Gosta de Ti” (mas quem terá inventado este nome grotesco?). O mentor da coisa, o bufarinheiro que usa umas linhas no I para se vender com textos paupérrimos, diz que «através de um apelo nacional à consciência estética, queremos que Portugal, seja um país ainda mais Bonito.» O homem não sabe, patentemente, o que fazer às vírgulas e às maiúsculas. Mas as ideias são ainda mais canhestras, como o demonstra a sua profecia de um Portugal Coca Cola Light: «um país mais bonito que não qualifica, nem apela à superficialidade, mas à beleza profunda das coisas e das pessoas que, hoje mais do que nunca, precisa de ser, acordada, recriada, imaginada.»
Vai daí, obedecendo a este lindo programa, a marca desatou a pedir às pessoas que se desfaçam dos seus objectos “feios” em troca de umas pavorosas latas da beberragem. As tralhas feias assim recolhidas (quadros, naperons e sabe-se lá mais o quê) serão colocadas nas mãos de designers que com elas comporão umas quantas assemblages; tralha arty, portanto.
E que dizer das latas comemorativas desta verdadeira corrida nacional ao Bonito? Uns monos de alumínio que parecem convites do Lux enrolados; o design gráfico armado ao pingarelho agressivo no seu pior. Quando o meu naperon se tiver convertido em antiguidade preciosa, já elas estarão há muito recicladas em coisas de jeito, como transformers a pilhas ou latas de anchovas.
Lata tem esta malta. Só me apanhariam a participar nisto se aceitassem lixo de grandes dimensões, assim como o Santana Lopes ou o Sócrates. Até lá, deixem-me na companhia do meu menino choroso, obra que ainda por cima até já tem lendas à volta.

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