Bonito, bonito… era deixarem o meu naperon em paz

A Coca Cola decidiu arvorar-se em árbitro do gosto dos portugueses, através da linda campanha “Coca Cola Light Gosta de Ti” (mas quem terá inventado este nome grotesco?). O mentor da coisa, o bufarinheiro que usa umas linhas no I para se vender com textos paupérrimos, diz que «através de um apelo nacional à consciência estética, queremos que Portugal, seja um país ainda mais Bonito.» O homem não sabe, patentemente, o que fazer às vírgulas e às maiúsculas. Mas as ideias são ainda mais canhestras, como o demonstra a sua profecia de um Portugal Coca Cola Light: «um país mais bonito que não qualifica, nem apela à superficialidade, mas à beleza profunda das coisas e das pessoas que, hoje mais do que nunca, precisa de ser, acordada, recriada, imaginada.»
Vai daí, obedecendo a este lindo programa, a marca desatou a pedir às pessoas que se desfaçam dos seus objectos “feios” em troca de umas pavorosas latas da beberragem. As tralhas feias assim recolhidas (quadros, naperons e sabe-se lá mais o quê) serão colocadas nas mãos de designers que com elas comporão umas quantas assemblages; tralha arty, portanto.
E que dizer das latas comemorativas desta verdadeira corrida nacional ao Bonito? Uns monos de alumínio que parecem convites do Lux enrolados; o design gráfico armado ao pingarelho agressivo no seu pior. Quando o meu naperon se tiver convertido em antiguidade preciosa, já elas estarão há muito recicladas em coisas de jeito, como transformers a pilhas ou latas de anchovas.

Lata tem esta malta. Só me apanhariam a participar nisto se aceitassem lixo de grandes dimensões, assim como o Santana Lopes ou o Sócrates. Até lá, deixem-me na companhia do meu menino choroso, obra que ainda por cima até já tem lendas à volta.

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6 respostas a Bonito, bonito… era deixarem o meu naperon em paz

  1. Carlos Vidal diz:

    Pois, é o “bom design” como crime, como dizia o outro de que por aqui falei. É o design já a passar do objecto e da cirurgia estética (design do nariz, dos lábios, corpo) para a “política do espírito”.

  2. Luís Alvoeiro diz:

    Luís Rainha. Percebe-se um ódio de estimação ao Carlos Coelho e contra isso nada tenho a dizer. É consigo. O texto que refere no I está de facto, na minha opinião, mal escrito. Mais importante, torna uma campanha, divertida e que brinca com alguns clichés dos portugueses, numa coisa demasiado séria. Como diz o Carlos Coelho “um apelo nacional à consciência estética”. Nunca fui muito fan deste estilo. Também já gostei de ser o “homem da flauta” e conduzir as pessoas ao meu porto mas nunca com este tom de “vamos salvar Portugal”.

    Mas gostava que se fizesse alguma justiça em relação à campanha, que é de longe a minha favorita das que conheço da ivity. Está a ser injusto, a meu ver, no ponto em que diz que “A Coca Cola decidiu arvorar-se em árbitro do gosto dos portugueses, através da linda campanha”. Ao contrário disso, são as pessoas que decidem o que é bonito ou feio e querem trocar por uma lata de Coca-Cola. Ninguém vai ser juiz disso. A campanha avança de facto com alguns exemplos que os criativos envolvidos acharam eficazes para passar a mensagem, mas são apenas exemplos escolhidos por eles para esse fim. Nesse sentido têm o direito de, na opinião da campanha, afirmar que o menino da lágrima é um quadro feio tal como o Luís não se inibe de achar que as latas são feias.

    Pessoalmente gosto muito das latas. São gostos.

    Obrigado

    L.A.

  3. Luis Rainha diz:

    A campanha publicitária em si tem piada. As latas, acho-as mesmo feias. Quanto ao conceito por detrás de tudo isto, parece-me totalitário e despropositado decretar, para mais do alto de um trono bem duvidoso, o que tem bom gosto ou não. Afinal, de toda a tralha gráfica que a Coca Cola deixou para trás, o que é que não pode já ser visto como kitsch?
    Mas é um prazer discordar com gente educada e que sabe expor os seus pontos de vista; pode crer que é um bálsamo para a alma de quem aqui anda…

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  5. Sara Martins diz:

    Boas Luis! Desde ja digo que é dificil encontrar algo tão bem estruturado e cómico. Mas devo dizer, também, que discordo. Posso não ser o poço fundo da verdade incontestavel, mas devo dizer que, como aluna de design, achei a campanha minimamente interessante. Não sei se a Coca-cola facturou mais uns trocos mas a verdade é que o “Menino da Lágrima” nunca foi tão requesitado. Eu nunca soube da existência de tamanha fealdade numa obra de arte e de repente vê-se o puto espalhado por tudo quanto é mupi, cartaz, outdoor, etc. Vou mais longe, o pais nunca deu tanta importância a tralha, como refere, e nunca pensei ir de propósito a Lisboa, no âmbito pedagógico, ver tralha e afins numa(s) exposição(ões) que até percurso turistico tem. E por mais idiota que pareça, nunca se deu tanta importãncia à temática retro (parece que está na moda!). Até podem vir os nerds ambientalistas dizer que tem a ver com as questões de sustentabilidade…mas temos que admitir que hoje em dia é o que toda a gente (diga-se designers, preferencialmente) faz e trabalha à volta de. Não quero insinuar que as massas detêm um poder indestrutivel mas penso que haja minimamente consciência para admitir que determinadas coisas/campanhas/latas/tudo façam algum sentido. A Coca-cola foi inteligente! Gastou meia duzia de moedas para fazer uma edição limitada de packaging das latas e em troca recebeu material suficiente (e de sobra, porque naperons ha muitos) que meia duzia de designers transformou em, digamos, arte e ficou como mecenas da maior campanha publicitaria e, tambem, cultural que Portugal poderá ter testemunhado. Digo eu… Mais! Voltando à questão retro, é importante salientar poderá ser a única salvação do mercado hoje em dia. Não sei, mas dizem por ai que recentemente o curso de design da Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão organizou uma conferência de marketing cujo tema foi, claro, retro. Os miudos até tiveram uma “retro store” e uma exposição. E adivinhe o que la estava… O iniguanavel menino da lagrima e mais não sei quantos artefactos da Coca-cola! E tente adivinhar quem era um dos oradores… O sr Carlos Coelho! Esse…que dizem ser um bicho do marketing. Ele, juntamente com mais não sei quantos de tamanha respeitabilidade, falaram sobre a tendência retro no mercado e como se propaga, que efeito tem nos consumidores, bla bla bla bla…dizem por ai! A verdade é que continuamos a preferir a comida da mae e o bolo da avo…acho que da que pensar!

    Ja falei demais e, provavelmente, desnecessariamente. Sinceramente não gosto de todas as latas, mas ha algumas engraçadinhas. De resto, continuo a ver o sr Carlos Coelho como um geniozinho do marketing; pelo menos uma vez na vida ja fomos sujeitos às “artimanhas” do homem. Não sei, digo eu…

    Obrigado pelo post, Luis!

  6. Eduardo Homem diz:

    Luís, a Coca-Cola Light a apelar à “beleza profunda das coisas e das pessoas” e “à formação de uma consciência estética nacional” só poderia ter nascido algures na cabeleira do Coelho. Isto sim, é marketing! Eu diria mesmo que o Ministério da Cultura deveria ter patrocinado esta genial inspiração do Coelho. Gostaria de saber o que fizeram os novos estetas com as latas? Candeeiros? Cântaros para manjericos? Outra curiosidade, Luís: qual era o alvo da campanha? Os proprietários da tralha kitsch? Coelho, o grande esteta, pretendia convencê-los à troca por uma…lata decorada pelos seus andy warhol!? É óbvio que o nosso amigo Coelho é o verdadeiro alvo da campanha. Está a aprender com o Edson, o espertalhão. Lata não lhe falta.

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