Fedor

Reconheço o paradoxo: não sei quem é João Gonçalves, mas adorei a invocação que, a seu propósito, o João Galamba fez de Smerdiakov, uma personagem de Dostoyevsky que é, concordo, um dos grandes tipos literários de todos os tempos. Primeiro, porque o Dostoyevsky sempre foi muito lá de casa, e, depois, porque me parece que todos os pretextos são bons para evocar Smerdiakov. Se posso acrescentar algo, é apenas que Smerdiakov, o mal-amado, não pode ser entendido (hoje) sem uma referência ao seu quase homónimo Smerdinov, o malicioso, que surge em “Nobadie Pravosta” (“After Punishment”, na tradução inglesa) e que o completa e ajuda a entender. Digo hoje porque não podemos em 2009 ler Dostoyevsky amputado da sua obra póstuma, que é claramente uma chave para compreendê-lo e – porque não dizê-lo? – amá-lo (ainda) melhor. Desde a descoberta dos inéditos do autor das “Recordações da Casa dos Mortos”, em pleno terror stalinista, nas vésperas da II Guerra Mundial, que a crítica tem vindo a debater, primeiro subterraneamente, depois mais às claras, mas sempre com paixão, o contributo dessa parte não negligenciável da obra de Dostoyevsky na sua economia geral. O seu maior estudioso, Gregoryi Fashkchov, no seu notabilíssimo “Précis de littérature russe et soviétique”, editado em 1955 (em pleno “degelo”, portanto) mas nunca publicado entre nós (porquê?), explica bem o dilema: “Entre Smerdiakov et Smerdinov, ce n’est pas simplement question de quelques petites lettres qui changent, mais de tout un monde – ou toute une vision du monde – qui s’écroule” (p. 89), para depois, numa nota de rodapé que ficou famosa, acrescentar: “Plus jamais on ne saura invoquer Smerdiakov, le mal-aimé, sans faire référence à Smerdinov, le malin; peut-on dire que, plus on lit Dostoyevsky, plus on va vers la fusion des deux, dans la peau d’un Smerdikov à inventer ?” (p. 397). A pergunta é sibilina: Fashkchov revela-se aqui, mais uma vez, o mais agudo analista de Dostoyevsky do século que passou, João Galamba, mesmo sem ter colocado abertamente “a hipótese Smerdikov”, por assim dizer, deve ser saudado por ter permitido evocar esta questão que apaixona, desde há meio-século, a crítica mundial e, enfim, João Gonçalves merece igualmente uma referência por ter, malgré lui, fornecido o pretexto desta pequena digressão literária. A todos, muito obrigado.

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SEXTA | António Figueira
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4 Responses to Fedor

  1. Carlos Vidal says:

    Mas há que acrescentar que destas subtilezas, hibridações, “negociações”, João Galamba sabe muito pouco (a RTPn é fatal).

  2. yussuf says:

    E será Galamba um Ivanovitch, Alexis de nome próprio, um personagem que também não se enxerga? É que sinto uma forte empatia pelo personagem: eu não quero que ele continue a jogar, eu não quero que se perca mais. No fundo quero que vá para casa. Um pouco como o Galamba, que pare com a patetice e vá para casa. No fundo, é transformar a empatia (Ivanovitch), pelo confrangedor (Galamba). A cada personagem, pelos seus motivos, o que se deseja é que vão para casa.

  3. is a bel says:

    Viva António, perdi os seus contactos. Por favor envie para este mail. obrigada. beijo.

  4. anonimo says:

    E a editora é a Forgerie et Frères? É para mandar vir

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