Cardos, dinheiro, maçãs e Weber

Há uns dias, o André Abrantes Amaral escreveu um interessante post em que partiu de uma pintura de Frans Hals para edificar algumas considerações sobre a inutilidade da ostentação e a secura de sentimentos de muitos. O retrato de casal talvez represente o rico mercador Isaac Massa e a sua esposa Beatrix van der Laen. Ou talvez ali esteja sim o irmão do pintor, Dirck Hals, e a sua primeira mulher.
Esta obra surpreende por muitos aspectos, o menor dos quais não será por certo a presença de sorrisos; coisa rara na hierática e solene pintura de antanho, colonizada maioritariamente pela imagética religiosa do catolicismo. A centralidade da mulher, relegando o marido para a periferia da imagem, é outro atrevimento do artista. Mas, mesmo que na Holanda de 1622 a influência da Igreja Católica se limitasse aos seus já escassos fiéis, a mania de empanturrar cada pintura com símbolos vários demorou ainda mais algum tempo a passar. Neste retrato, a hera é o elemento mais evidente, abraçando a árvore e vendo-se ecoada na posição da mão direita da mulher, sobre o corpo do marido. Sem esquecer o “Jardim do Amor” no fundo (até talvez obra de um outro pintor, Pieter Molijn), incluindo o templo da deusa Juno, protectora do matrimónio. E depois, há o cardo.
O André toma este bicudo vegetal por um adereço que «simboliza a fidelidade masculina», tese que é apoiada pelo facto de existir um tomo de Jacob Cat sobre o casamento que é coevo da obra de Hals e atribui esse simbolismo à humilde planta. Mas o cardo também tem sido visto como um memento do decreto de expulsão de Adão e Eva do paraíso: «Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos e cardos também te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto, comerás o teu pão, até que te tornes à terra». (Génesis 3; 17,18 e 19)
O trabalho. Eis talvez o verdadeiro tema desta pintura – se é que ela representa mesmo um mercador. A felicidade, a despreocupação, a ligeireza de atitudes, tudo nasce da tal terra (aqui nua) que Deus declarou maldita; tudo provém do suor do rosto de Isaac Massa. E o Calvinismo tratou de desculpabilizar o seu usufruto, bendizendo a vida quotidiana em detrimento da contemplação, do sacrifício e da meditação. Os talentos dos homens passaram a ser vistos como uma oferenda de Deus e o sucesso material foi promovido a reflexo do favor divino, já não fonte de pecado e tentação – desde que nunca ostentado nem motivo de vaidade.
A transparência da prosperidade como ilustração da conformidade aos desejos do Senhor. Não sei se Max Weber alguma vez contemplou esta pintura; mas ela pode ser vista como a materialização, em pinceladas soberbas, de algumas das suas teses.

PS: Longe de mim querer beliscar a prosa do André. Mas palpita-me que ele devia ter cuidado a falar destas coisas da cultura, não vá alguém metê-lo à força numa lista de perigosos membros da odiada intelligentsia…

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3 respostas a Cardos, dinheiro, maçãs e Weber

  1. uma pequena divagação: o cardo é tradicionalmente na iconografia utilizado não tanto como símbolo de fidelidade, mas como símbolo de nobreza ou origem nobre – a que se liga o lema associado ao cardo “Nemo me impune lacessit” (ninguém me ataca impunemente); não teria o Isaac Massa a pretensão de sugerir uma remota origem aristocrática (quando é ordenado cavaleiro pelo Rei da Suécia – embora em data posterior à do quadro – ele ter-se-á apresentado como de uma “boa família de Liége”), ou então, mera afirmação social/política – ilustrar a “nobreza” do orgulhoso burguês?

  2. LR diz:

    Tanto quanto saiba, o cardo tinha essa simbologia na tradição celta, com reflexos actuais na Escócia, onde é a flor nacional. Não dou por esse significado na pintura dos Países Baixos…

  3. “O trabalho. Eis talvez o verdadeiro tema desta pintura – se é que ela representa mesmo um mercador. A felicidade, a despreocupação, a ligeireza de atitudes, tudo nasce da tal terra (aqui nua) que Deus declarou maldita; tudo provém do suor do rosto de Isaac Massa. E o Calvinismo tratou de desculpabilizar o seu usufruto, bendizendo a vida quotidiana em detrimento da contemplação, do sacrifício e da meditação. Os talentos dos homens passaram a ser vistos como uma oferenda de Deus e o sucesso material foi promovido a reflexo do favor divino, já não fonte de pecado e tentação – desde que nunca ostentado nem motivo de vaidade.”

    Gostei.

    Ab
    RAF

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