O medo da inteligência

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O blasfemo PMF assustou-se com o uso que Eduardo Pitta fez da palavra “Intelligentsia”. Para aquele bloguista, trata-se de «um termo fortemente ligado à velha União Soviética», descrevendo uma «espécie de intelectuais revolucionários, logo, bons!», «ou seja, como uma espécie de etiqueta auto-definidora de uma classe…claro está, convencida da sua superioridade moral.» E a santa alma assusta-se porque acha «que invocar (e auto-invocar as respectivas pertenças) a “classes intelectuais”, com uma conotação (pelo menos, implícita) de elite moral, é algo de descabido, muito próximo de uma cosmovisão instintivamente anti-democrática.»
Há que notar que esta conotação implícita só existirá mesmo na cabeça de PMF, sendo mais motivada por algum ressentimento oculto do que pelo pensamento: desde quando é que a condição de intelectual alguma vez acarretou uma presunção de superioridade moral? Nunca, claro.
Mas, já que PMF se dedica, aparentemente, a escavar os sinistros alicerces do repugnante vocábulo, talvez não fosse má ideia citar um pensador que ele até deve conhecer: Isaiah Berlin, no magnífico O Poder das Ideias, traduzido por Miguel Serras Pereira. «A palavra intelligentsia, como o conceito que designa, é de origem russa e foi inventada a certo momento algures entre a década de 1860 e 1870. Não significava simplesmente o conjunto de pessoas instruídas. E também não, sem dúvida, simplesmente os intelectuais nessa qualidade.»
Afinal, parece que a palavra tem origens e significado precisamente opostos aos que PMF lhe atribui: «no país em que a intelligentsia nasceu, o seu fundamento foi, a traço grosso, a ideia de uma oposição racional e permanente a um status quo considerado a todo o momento em vias de ossificação, tido por um obstáculo barrando o caminho do pensamento e do progresso humanos. (…) O termo intelligentsia não designa simplesmente os intelectuais ou os artistas enquanto tais; (…) As pessoas instruídas podem ser reaccionárias, do mesmo modo que as desprovidas de instrução. (…) O simples protesto, justificado ou injustificado, não torna automaticamente alguém membro da intelligentsia. Para tanto, é necessário que se verifique uma combinação da crença na razão e no progresso, juntamente com uma profunda preocupação moral pela sociedade.»
PMF conclui em triunfo que esta companhia vai ser funesta para António Costa: «Raramente as “intelligentsias” ganharam eleições! Ao invés, quase sempre andaram associadas a totalitarismos». Aqui, quase acerta: Berlin afirma que «a intelligentsia militans – e assim era a intelligentsia original, sendo o traço da militância parte integrante da sua essência – é engendrada por regimes efectivamente opressivos.» Mas engendrada enquanto oposição; não no lugar de cúmplice, como implica a tresleitura de PMF.
Esta é a extensão da distância que separa o pensamento do papaguear de lugares-comuns. Este último modo de reflexão só pode dar em tristes figuras como a presente: falar de uma «cosmovisão instintivamente anti-democrática» para reforçar um sentimento próprio de desconfiança dos intelectuais (que devem incluir os abomináveis artistas subsídiodependentes) é dar prova de preconceito e arrogância, ao julgar e sentenciar os outros de forma generalizante. Socorrendo-se, ainda por cima, de uma etimologia desfocada e ignara.

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12 respostas a O medo da inteligência

  1. Pingback: Sobre a condição de intelectual. « BLASFÉMIAS

  2. Em resumo, segundo o Luís Rainha, o que o Eduardo Pitta disse é que quem não apoia o António Costa é irracional, contra o progresso e sem preocupações morais. Portanto, a massa-desprovida-de-inteligencia-e-de-pensamento-próprio-mas-que-não-é-moralmente-inferior deverá seguir a recomendação dos inteligentes.

    É curioso ver “intelectuais” a usarem argumentos de autoridade, ataques ad hominem, etc.

    P.S. Raios. Disse isto sem usar citações intelectualoides ou palavras estrangeiras. Suponho que eu não seja intelectual.

  3. excelente post. Gostei do blogue. Um beijo

  4. PMF diz:

    Agradeço a crítica e o debate.

    Voltaremos…… logo que oportuno.

    http://blasfemias.net/2009/07/15/sobre-a-condicao-de-intelectual/

  5. Dasse diz:

    Mas o que é que os 120 subsidiodependentes (directos ou indirectos…) têm a ver com a “intelligentsia” lisboeta?
    De muitos sei eu que nem ao domingo se licenciaram… A outros a coisa resolveu-se pelo telefone ou com cupões da farinha amparo (maizena, se quiserem).
    Que corja!

  6. luis t. diz:

    Gostei muito da escolha da imagem! “Arte degenerada”, lembra-me um passado que muitos insistem que volte.

  7. LR diz:

    Mas você sequer pensa antes de papaguear esses disparates? O que é um “subsidiodependente indirecto”? E que terá a noção de intelligentsia a ver com licenciaturas? Nem lê o que comenta??

  8. Luis Rainha diz:

    Viva,
    Não. Nada disso. Mas nem adianta explicar, pois não?

  9. PMS diz:

    O Manuel João Vieira é um intelectual. Brilhante

  10. publicas-me isto? diz:

    É pá tu és mais um intelectual filosofo daqueles que vai a todas, do clube do galamba, jeitinho ao PS, opina sobre tudo.

  11. Luis Rainha diz:

    Fazer “jeitinhos ao PS” equivale a comentar imprecisões de linguagem e preconceitos vários? Então, está bem.

  12. LR diz:

    PMS,

    Isso de achar que “Intelligentsia” = “intelectual” é coisa dos blasfemos e sua. O texto que acima cito trata de desfazer a confusão. Talvez seja boa ideia não começar pelo fim, comentando o que não se leu.

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