O que se passa com Esta Esquerda?

Para além do que aqui já referi, o discurso de José Sócrates, ontem na apresentação da candidatura de António Costa, teve uma particularidade bastante interessante. Na mesma semana em que Costa se re-posicionou como pretendente a sucessor do primeiro ministro, José Sócrates fez um esforço para ser visto com gente de esquerda procurando, ontem, abraçar todos os apoios que se juntam a Costa temendo Santana.
Remetendo para posterior análise, o valor político dos recém-apoiantes de Costa, as suas motivações individuais ou o seu conteúdo político, também José Sócrates tem recebido alguns apoios, embora não tão abrangentes como os de Costa.
Curiosamente estes apoios de figuras com relevância mediática e que tradicionalmente defendiam e subscreviam as posições do BE, deixam-no exactamente no momento em que o Bloco pode crescer. Os recém-admiradores de Sócrates partilham da tese de Alegre, sem apresentar qualquer facto recente que lhes motive a mudança. O argumento é único, o que está à esquerda do PS não deve crescer porque não quer governar ou é irresponsável, no fundo, não constitui nem nunca constituiu alternativa.
O texto de Miguel Vale de Almeida é uma pérola política. Vale de Almeida procura que o leitor se identifique, fala de um “nós” abstrato, que rompeu com a esquerda revolucionária e que nunca esteve com a terceira via. Gente que gosta do PS “quando se apresenta do lado da igualdade, da liberdade, da modernidade”. Da sua actual posição, Vale de Almeida, declara que está em condições de afirmar que todo o passado recente da governação de Sócrates será purgado e que, a partir de agora, o partido socialista se vê “obrigado a pensar à esquerda e a pensar em diálogos com muitos cidadãos e cidadãs das várias esquerdas“. Factos, medidas e políticas concretas, nada disso interessa a Vale de Almeida, a Alegre ou a Galamba.
O que interessa a Esta Esquerda é que a estabilidade do regime não saia afectada e lutam com todos os meios para que a indignação dos cidadãos, de que se afirmam únicos defensores, não se reflicta numa significativa alteração dos equilíbrios políticos e sociais dos últimos trinta anos. Porque de facto, ganhe Sócrates ou Ferreira Leite, para a maioria das vidas das gentes d’Esta Esquerda, é igual ao litro.

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8 Responses to O que se passa com Esta Esquerda?

  1. Filipe Gil diz:

    Caro Tiago, permite-me discordar.

    Está muita coisa em jogo para as próximas autárquicas, sobretudo em Lisboa. Costa tem na equipa Zé Sá Fernandes e poderá vir a ter Helena Roseta, são contributos muito importantes para a vivência deste espaço a que chamamos cidade. Se Santana Lopes ganhar, juntamente com o PP e o PPM, serão mais anos de atraso. Mais dívidas contraídas, a Experimenta Design a ser mais uma vez posta em causa, o arraial gay a não ser apoiada pela câmara. E são apenas coisas “menores”, e nem quero tocar na questão de urbanismo e ordenamento do território.

    Eu identifico-me com o texto do Miguel Vale de Almeida. Sou um daqueles de quem ele fala.

    Abraço

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  3. Falando de forma franca… o número de personalidades que o BE pode esperar atrair como partido de pequena/média dimensão será sempre limitado pelo hábito do caciquismo (essencialmente não pode “remunerar” os seus apoiantes). Não deveria ser assim mas é.

    Quanto ao resto não sei o que é esquerda nem direita, não os distingo (nem ninguém parece capaz de tal proeza). Há dois grupos, quem proponha uma partida radical deste modelo político (com ramificações económicas e sociais – mantendo um esquema de pluralismo individualidade) e quem se desfaça em tentativas de o restaurar e salvar o que for possivel – o resto são rótulos artificiais. Fazer parte do primeiro grupo doi muito mais porque não há prémios nem palmadinhas nas costas…

  4. Diogo Vasconcelos diz:

    nem mais.

  5. Tiago Mota Saraiva diz:

    Caro Filipe, repara que retiro do texto a questão específica da CMLisboa apenas notando a vontade de Sócrates em se colar a Costa mesmo depois deste lhe ter dado umas quantas caneladas. Sobre a CML, sinto-me obrigado a escrever mais à frente.
    O texto de Vale de Almeida diz respeito às legislativas e ao seu apoio a Sócrates.

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  7. Tiago Mota Saraiva diz:

    Pedro e Diogo, nunca percebo quem diz que não vê diferenças entre a esquerda e a direita.
    Independentemente da apreciação que possamos fazer, julgo que ninguém tem dúvidas que, por exemplo, um governo liderado pelo PCP teria opções políticas muito diferentes das que tem um governo do PS.

  8. Tiago Mota Saraiva diz:

    … ou melhor. Diogo, nem mais o quê?

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