Pesquisa

Back

13 de Julho de 2009 por António Figueira

Em matéria de trânsito, a tradicional inversão dos ingleses (mote de tantas glosas) pouco me incomodou: apenas nalguns roundabouts os meus baixos instintos de continental se revelaram, com inesperadas porém enérgicas guinadas à esquerda, que deixaram o terror estampado nas faces dos ilhéus incautos que comigo se cruzaram (eu vi, e lá por na aparência lhes ter pedido desculpa, não quer dizer que por dentro não me tenha divertido um pouco, mas apenas um pouco, com a situação). O mais chato dos ingleses não é isso: é a sua absoluta infantilidade, cujo espectáculo confrangedor leva a que os abundantes conselhos que prodigalizo ao meu filho, para fazer dele um homenzinho, percam de todo o sentido (e deixem nele as sementes de uma revolta que, sinto, há-de explodir ainda este século; virá ele algum dia a duvidar de Paulo Bento?). A comida dos ingleses é uma comida de putos, gulosa e insensata, já se sabia; a crença deles na sinceridade da nossa assinatura, em múltiplas ocasiões da vida social, também dá vontade de enganá-los a toda a hora (e viver uma vida de enganos, opulenta, na sua opulenta capital); mas o falar deles é que é o pior, e confunde sem piedade o cínico que existe em cada meridional: estarão eles a falar a sério, ou simplesmente a gozar connosco? A mim prometeram-me uma cottage (é feminino, ensinou-me a Senhora Morgada de V.) num “dramatic scenery”, onde, lendo um jornal, descobri que o defunto Michael Jackson era uma “massive star” e, ouvindo a rádio, que o atentado suicida de Julho de 2005 em Londres (cujo aniversário se celebrou na semana passada) tinha sido um “callous attack”. Porquê? Porque os suicidas tinham calo – um calo que, de resto, decidiram extirpar pela raiz? Porque já não há mais adjectivos para o mega hiper super Rei da Pop? Porque os cenários campestres se dividem entre dramáticos e cómicos, e a mãe-natureza não é para brincadeiras? Mas o inglês também pode ser uma língua séria: por umas modestas três libras comprei em Bristol, num frio e chuvoso dia de Verão, um livro intitulado “Speeches and Toasts for All Occasions” (de 1972), que ensina a preparar e a proferir os ditos e inclui numerosos exemplos. Na instrutiva secção “Loyal and Patriotic Toasts”, lê-se assim sobre os brindes à Rainha: “This toast is almost always proposed by the host. It always heads the toast list; and, as smoking is not permitted until this toast has been given, the host is expected to propose it as soon as possible after the last course of the meal has been finished. The proposer is not required to make a speech. He simply rises and utters the time-honoured formula: – Ladies and Gentlemen – the Queen! Immediately after this toast he should announce: – Ladies and Gentlemen, you may smoke.”

Comentários

Comentário de Nuno Ramos de Almeida
Data: 13 de Julho de 2009, 2:37

A Rainha é uma espécie de palavra de passe para o pessoal ir fumar, como o portuguesíssimo, meninas à sala.

Comentário de
Data: 13 de Julho de 2009, 2:42

Racismo.

Comentário de Dorean Paxorales
Data: 13 de Julho de 2009, 14:45

“estarão eles a falar a sério, ou simplesmente a gozar connosco?”

não, é um convite ao gozo.
além de que numa sociedade com pouca paciência para o lugar-comum e toda para o sarcasmo e self-deprication, o exercício do advérbio é um culto nacional.

Comentário de yussuf
Data: 14 de Julho de 2009, 9:05

In Saudi Arabia: “Ladies and Gentlemen – the King! Immediately after this toast he should announce: – Ladies and Gentlemen, you may burp (or fart, if not in Riade).”
Sim, gozam-nos em segredo como nós aos do Porto, esses estrangeiros em terra nossa, com a sua pronúncia que é toda uma outra língua. Grafar-se-á a língua do Porto em letrário romano ou círilico, ou terá o seu próprio alfabeto? Há cursos de Portuês, para se perceber o que “eles” dizem? Gostava que houvesse, para o frequentar, aproveitando a maçada do Verão – estes calores que não passam (safam-se as miúdas mais para o descascadas, mas ainda assim é tudo muito brega…).
Olhe, faz-se como Paulo Bento, i.e., com dranqüilidade (reparou no trema, senhor? e não é que ali ele faz todo o sentido? e sim, o “d” foi propositado como é agora este “adeus e bem haja pela prosa”).

Escreva um comentário