“Apelo” a uma aliança BE-PS: mediocridade, tédio, “morrer devagarinho”, sem “grandes dores” – não chateia, tá?…

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A última morte de Marinetti. Enfim, é a vida…

Ora, eis que surge e se assume aquilo que há muito se desenhava ou anunciava subrepticiamente, eis que toma forma o que já estava mais do que em embrião e prontinho a apresentar-se publicamente, no fundo a razão de ser do manifesto dos “51” economistas ou lá o que é (é também uma espécie de Louçã no seu melhor: num encontro universitário sobre Marx diz uma coisa, no manifesto dos “51” diz o seu contrário…), um pedido de aliança Bloco-PS eis que chega, o rosto da mediocridade e da vida molezinha, a força da debilidade que tudo aceita desde que não seja demasiadamente mau, o elogio do “assim-assim”, o português “vai-se andando” como ideologia política, o meiozinho “já não é mau de todo”, a calminha e brandura salazarenta: é, no seu esplendor de nada, o manifesto (?) “Talvez não sejamos muitos e muitas …. mas existimos”, comemorando ou fazendo recordar por antítese (oh ironia das ironias, oh decadência…) um outro Manifesto, o do Futurismo de Marinetti, publicado em 1909 no Le Figaro – é verdade, faz 100 anos porra!!

Em 100 anos a espécie regrediu muito, em muito e em quase tudo: tornámo-nos pobrezinhos, medíocres, ou pobres mas honrados – ora bolas, apenas não queremos sofrer lá muito e nada mais, pronto. Agora, em 2009, escreve-se:

«Somos as pessoas que, no espectro político-partidário, tal como ele se apresenta (e não o que idealizaríamos), se colocam entre o PS e o Bloco. Não gostamos do PS-centrão, com políticas neo-liberais no trabalho e na economia, e com um séquito de pessoas predispostas ao tráfico de influências. Gostamos do PS quando se apresenta do lado da igualdade, da liberdade, da modernidade. Não gostamos do Bloco quando descai para a demagogia, quando arrebanha as pulsões populistas, ou quando aposta no “correr por fora” desresponsabilizando-se do governo da coisa pública. Gostamos do Bloco quando se apresenta … do lado da igualdade, da liberdade, da modernidade. (…)
Mas vejo pela primeira vez, no PS e sobretudo em Sócrates, sinais de um projecto de modernização para o país que se diferencia quer da tentação miserabilista da maior parte da direita, quer da tentação revolucionária da maior parte da esquerda. Justamente num dos piores momentos por que aquele partido passa, e sem qualquer intenção de aderir de novo, enquanto filiado, a um partido, votarei pela primeira vez na vida no PS (escrito por Miguel V. Almeida, não sabendo eu quem isto representa).»

Esta choradeira faz Santana Lopes, Rangel ou Manuela Ferreira Leita passarem por espíritos utópicos, activos revolucionários, rupturantes, vitalistas e energéticos! Gente viva, em suma!! Em 1933, escrevia Cioran (fizeste bem, Nuno em te lembrares de Cioran há uns dias): “Fazer a apologia do espírito é uma prova de inconsciência, da mesma maneira que fazer a apologia da vida é uma prova de desequilíbrio.(…) Mas que será daqueles que já não podem glorificar nem a vida nem o espírito?” (Sur les Cimes du Désespoir).
Ah Marinetti, por fim, volta que estás perdoadíssimo: “Queremos cantar o amor do perigo, o hábito da energia e da temeridade. (…) Cabeça erguida!… Erectos sobre o pináculo do mundo, mais uma vez lançamos o nosso desafio às estrelas”.

Meu querido Marinetti, adivinhavas que isto iria acabar assim, tudo de cabeça baixinha a votar PS ??

Bom, não adivinhavas pois não, Filippo. De qualquer modo, ninguém vai ler este meu texto! Portanto, agora, toca a dormir que já é tarde, é hora de fazer OÓ …

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Marinetti. “Irredentismo”. 1912

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8 respostas a “Apelo” a uma aliança BE-PS: mediocridade, tédio, “morrer devagarinho”, sem “grandes dores” – não chateia, tá?…

  1. Augusto diz:

    Enfim quando o Costa diz, sem ter sido desmentido, que já há meses andava em conversações com o PCP, parece que anda alguem a tentar esconder alguma coisa….

  2. pUtoFisH diz:

    “(escrito por Miguel V. Almeida, não sabendo eu quem isto representa).”

    Imagino que “isso” represente, antes e fundamentalmente, Miguel Vale de Almeida.
    Depois, todos os que se revejam no texto, onde me posso desde já incluir, se o problema é achar que MVA é caso único…

  3. almajecta diz:

    Ora nem mais e como todos os manifestos e vanguardas, servem apenas para consumo próprio. Não se esperava outra coisa de tanto furor conferencista, mais um erro de trajectória, o preço da originalidade e da diferença, chic . Seguem-se cenas dos próximos capítulos, em bom.

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Vidal,
    O Miguel Vale de Almeida saiu do Bloco há anos. É como responsabilizares o PCP das posições do Vital Moreira.

  5. Pingback: cinco dias » Ora, no meio do meio do meio do meio do meio do meio do meio do meio.

  6. Carlos Vidal diz:

    Não crei Nuno. O Vital Moreira é hoje um anticomunista puro e duro.

    O Miguel Vale de Almeida não saiu bem do Bloco, ele está entre uma coisa e outra (não sei bem quais: parece-me que é o Bloco e o PS).

    E mais, há pormenores que desconheço: julgo mesmo que MVA não saiu do Bloco, mas da “Mesa” do Bloco.
    E mesmo que tenha saído da “Mesa” e do Bloco, ele está a apelar ao Bloco.
    Não há nenhuma relação com Vital Moreira.
    Além disso, este post não era (não é) sobre Miguel Vale de Almeida, como se percebe.

  7. almajecta diz:

    Era o mais que faltava, não fora “o poder” o doce atractor do tal pensamento reflexivo em profundidade da malta chic, vidé o puto dos lábios sensuais e etc e tal, à medida que a idade vai passando começam as contas á vida, oh, oh…

  8. almajecta diz:

    donde a pretensa coligação do Cioccolato Svizzero con il Cacao della Bolívia.

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