O meu pleno elogio do fanatismo

 

Ora, este é o livro que todos nós urgentemente necessitamos. Virá já depois do Verão (portanto, não é uma sugestão de leitura de Verão, isso não faço, é coisa para jugulentos). E tenho pena, muita pena que ainda tenhamos de esperar por ele até Outubro ou Novembro: trata-se de um estudo sobre o termo “fanatismo” e, ao mesmo tempo, um elogio e um importante apontamento sobre a sua necessidade, sobre a necessidade do fanatismo. O seu autor É Alberto Toscano: Fanaticism: On the Uses of An Idea (ed. Verso, claro!).

O que é o fanatismo? Quem usa e porquê ou para quê este termo? A quem ele serve? Quem são os oportunistas que o empregam para nos incomodar a todos nós, democratas igualitários? A quem é que este termo se aplica em primeiro lugar? Quem nos quer limitar a liberdade como tal apodando-nos a todos (e ninguém escapa aos usos oportunistas deste conceito)? Disso se encarrega Toscano, naturalmente. Mas, resumidamente, quem é “fanático”?? Ora, ora, todos nós, os que não somos nem política nem economicamente liberais, nem tão-pouco social-democratas. O fanatismo, por alguns (os do costume) é jogado como um insulto e um aprisionamento de tipo irracional aos contendores; foram os liberais buscá-lo ao espaço religioso para nos jogar na cara, aos que não nos reconhecemos na política existente, aquela que não deveria sequer ser denominada “política”. Portanto, para esses, todos os que não se revêem na concepção liberal do mundo e da economia são fanáticos. E isso que nos importa?

Para os senhores do costume, fanáticos são todos os que, como muitos de nós, nos revemos nas históricas revoltas de escravos e camponeses, de Spartacus e Thomas Müntzer, e de Robespierre a Lenine. O termo fanatismo não faz sentido nenhum da forma como hoje é usado, é apenas uma acusação, essa sim totalitária, aos não-liberais. Toscano procurará ainda demonstrar que os próprios liberais, nomeadamente ao longo do século XIX, também foram apodados de fanáticos. Portanto, chama-se hoje fanático a todo aquele que sabe que na política (naquilo que merece ser chamado de “política”) se exige a todo o momento uma ilimitada imaginação (e que essa imaginação é que caracteriza o género humano, como diria Ernst Bloch, somos seres do advento).

Concluindo, foi sem dúvida o fanatismo que formou o nosso mundo moderno. O fanatismo é o centro da política, da política da emancipação e da liberdade, e sem o fanatismo não estaríamos aqui.

(Alberto Toscano é sociólogo e está ligado ao Goldsmiths da Universidade de Londres. É ainda o mais conhecido tradutor das obras de Alain Badiou para a língua inglesa.)

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7 respostas a O meu pleno elogio do fanatismo

  1. Jeronimo diz:

    Não há por aí nenhum hospício especializado no problema deste gajo ?

  2. Carlos Fernandes diz:

    Meu caro, não é preciso ler esse livro, por muitíssimo interessante que se afigure, como é o caso, para se ter uma ideia de como os termos “fanatismo” e “extremista” ( de direita ou esquerda) são meros rótulos e termos de linguagem usados como arma psicológica para neutralizar adversários. Os marxistas ( e Lenine em particular)eram peritos nisto…

    Porém, o fascismo e a ditadura de esquerda ( URSS) e o fascismo e ditadura de direita tiveram (Alemanha Nazi) que já houve, tiveram , curiosamente, o mesmo ideólogo e manipulador-mor… Tchakotine!

    Ich bin, ao contrário de muitos outros,… um democrata! Chateiam-me as ditaduras ( de esquerda ou direita)!

  3. Carlos Vidal diz:

    Jeronimo, está a referir-se a qual gajo?

    A mim, pobre de mim, ou ao ensaísta Alberto Toscano??

  4. Jeronimo diz:

    A si, Vidal. Só tenho pena de não ser psiquiatra. Você dava um case study fantástico. Está absolutamente convencido que a história parou nos anos 60.

  5. Carlos Vidal diz:

    Sim, caro Jeronimo.
    Nasci pelos anos sessenta e, confesso, não evoluí lá muito desde então. Logo……………

  6. J. Urbano diz:

    Peço desculpa pelo abuso e já que o post se refere a um livro do Alberto Toscano aproveito para referir que a Revista NADA 13, que acaba de sair, abre com um texto do Alberto Toscano, “O Disparate: ontologia e política em Gilbert Simondon”. Na próxima NADA sai uma longa entrevista feita por Aécio Amaral a Howard Caygill com quem Alberto Toscano trabalha em Londres, como saiu um artigo do Howard importante na NADA 12,”Notas para uma metafísica do gene.”

  7. Carlos Vidal diz:

    Caro Urbano, obviamente que não é abuso nenhum.
    A “Nada” é uma excelente revista. Escreva-nos sempre. E envie sempre as novidades que achar prementes como a que me mandou agora.
    Grato. CV

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