O meu pleno elogio da tauromaquia

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Poderia começar este meu elogio com toda a clareza dizendo que não sou minimamente tocado pelos argumentos dos defensores dos animais sobre esta questão. Sou-lhes mesmo absolutamente insensível pelas razões que adiante se compreenderão. E sobre este assunto incomoda-me ainda a ignorância estética e filosófica. Imperdoável.

Por outro lado, também não me interessa muito o argumento dos defensores da tauromaquia que se desenrola em torno da defesa da “tradição”, porque acho que ali, na arena sacralizada, muito mais é posto em jogo que a mera “tradição”, e, além disso, se eu recuasse a Altamira, isso seria sempre mais profundo que a tradição. Mas, apesar disso, estou deste lado da barricada, do lado dos que sabem, consciente ou inconscientemente, que a tauromaquia é estética (não lapidada e em estado bruto), é símbolo e imagem de algo muito profundo relativo à condição humana.

Por isso, recuaria à Fenomenologia do Espírito de Hegel e à conhecida dialéctica senhor/escravo. Teria de começar por aqui. Vejamos. Há três pontos fundamentais: primeiro, teremos uma explicação dessa duplicidade senhor/escravo; segundo, deve saber-se até que ponto essa dialéctica se desenvolve até se concluir que a verdade do senhor é a do escravo, porque, precisamente, o senhor não pode lançar-se em absoluto e cegamente na morte.

Diz-nos Hegel que a operação do “senhorio”, do ser “senhor”, consiste em “mostrar que não se está ligado a nenhum ser-aí [Dasein, diria Heidegger] determinado, nem à singularidade do ser-aí em geral”. É muito simples: o senhor é aquele que mostra não estar ligado à vida, por isso é senhor, porque tem a força e o discernimento de a jogar quando necessário. Bataille aqui, como noutros momentos, acompanha Hegel: trata-se de pôr em jogo (wagen, daransetzen) a vida, “pôr em jogo”, expressões caras a Hegel e a Bataille (por isso Jacques Derrida falará de um “hegelianismo sem reservas” a propósito de Bataille). Esta é a caracterização do senhor. E o escravo, o servo? O servo é aquele que não põe a sua vida em jogo e, pelo contrário, quer conservá-la, quer ser conservado (servus). Este é o servo.

Para Bataille, o centro do hegelianismo é este saber superar a angústia da morte, este estar à “altura da morte”. Porque a vida do espírito tem de saber enfrentar a morte e nesse enfrentamento se manter, aí se quedar, ou seja, importantíssimo, também o senhor não se oferece à morte de qualquer maneira. O senhor olha cara-a-cara a morte, o negativo, queda-se aí, suspende-se perto dela, não se lhe oferece. O senhor arrisca a vida, joga-a, mas depois tem de gozar aquilo que arriscou. Por isso é que o processo é dialéctico, julgo eu: o senhor, ou a experiência de senhorio, não se oferece à morte, nunca. Ele tem de conservar a vida que arrisca, pois ir até à morte absoluta é entrar numa lógica de perda total de sentido. Ele joga, o senhor joga, mas não pode perder. Conclusão: a verdade do senhor é o escravo, ou o senhor é como o escravo. Se fôr até ao fim, até à perda do sentido, ele perde igualmente a sua força de senhorio.

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Ora a tauromaquia joga-se aqui melhor do que em qualquer outro ponto ou contexto: e por isso ela é bela em estado bruto, associada a um conceito (não é como o belo kantiano, qua agrada sem conceito), associada ao conceito da realidade humana e ao cumprimento sacrificial. O toureiro (e falo da beleza do toureio a pé e dos touros de morte, não da tourada à portuguesa) tem, sem qualquer falha, de entrar na arena para a sua lide sabendo que nunca em momento algum vai morrer – essa é a explicação sacrificial, essa certeza só pode ser atingida no seio da experiência sacrificial. Mesmo morrendo, o que sucede inúmeras vezes, o toureiro tem de estar ciente de que essa morte tem nela a vida a manifestar-se: é a lógica do sacrifício.

O toureiro não pode entrar na arena com a ideia de que pode morrer em vão, nunca. Por outro lado, ele é, de facto, o senhor, mas o senhor hegeliano que joga e tem de preservar a vida que expõe. Se a perde, ele tem de saber que nessa perda há vida, ou seja, nunca há morte na arena, ou se houver, há vida dentro dessa morte (o que se aplica ao animal). Claro que estou a pensar na definição de erotismo por Bataille (L’Èrotisme): “diz-se do erotismo que é a manifestação da vida até na própria morte”.

Pode parecer estranha a frase, mas é decisiva, porque só sábio desta dimensão sacrificial o toureiro pode entrar na arena: tem de saber que, morrendo, se trata de uma “falsa” morte. Porque, na morte sacrificial, a vida continua para além, sempre para além – ou seja, esta não existe, a morte, e isso sabemos da leitura de Sade, inventor de um erotismo sacrificial. E Bataille, genialmente, reitera-o.

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27 respostas a O meu pleno elogio da tauromaquia

  1. João Manuel Vicente diz:

    Pois. Tanta ganga, tanta ganga para enroupar e adornar tanta e tão tamanha animalidade. Sei. Só assim provavelmente se aquieta o espírito após tanta submissão a tanto MAL, a tanta CRUELDADE sem preço…Oxalá essa ganga retórico-filosófica dê descanso àquele módico de conscência que provavelmente ainda terá.

  2. Pingback: cinco dias » Um monumento: e um clássico apenas para iniciados e interessados

  3. luis t. diz:

    Há uns anos fizeram-me a proposta de realizar uns desenhos e pinturas sobre tauromaquia.
    Nunca o tinha feito e posso afirmar que foi fantástico! Não entro numa praça desde os meus vinte anos…Vi vídeos fotografias, colei-as com memórias bem distantes…As obras estiveram expostas numa mostra colectiva em Salamanca e recebi localmente críticas bem positivas.

    O tema em si desperta para mim sentimentos contraditórios…
    Como numa dança interminável, diestro e toro, como num tango, macho e fêmea se combatem…

  4. Jeronimo diz:

    Vê-se mesmo que o assunto não lhe interessa pevide. Ou melhor dizendo interessa-o apenas para se exibir e alimentar a sua grande vaidade, já que os touros e touradas lhe devem dizer tanto como os lagares de azeite.

  5. almajecta diz:

    muita marialva, aquilo da história do labirinto absolutamente a não perder, importantíssimo e etc e tal, mais o modernismo au meunière. Se te aparecem as cientistas da LGBT, mais as da protectora e tal, estás frito. Nem a fenomenologia do espírito em ti se salva.

  6. lol diz:

    Pode ser que um dia toureiem o Vidal. Aí vamos a ver se continua a achar que é “estético”…
    Sabes que mais? Vai pró caralho, Vidal.

  7. Carlos Vidal diz:

    Caro Jeronimo, dormiu mal certamente.

    Há pouco, em Sevilla, dediquei um dia (pela enésima vez) aos Murillos do museu de Bellas-Artes, e outro à Maestranza.

    Costuma ser mais ou menos assim.

  8. almajecta diz:

    e quando é que passas ao 2º tércio? e ferros curtos para esteticizar o evento? vamos lá então dar ao corpinho em sports.

  9. Vasco diz:

    Teoria de merda, a sua. Tantos livros, tantos livros para nada. Atire-se para a frente de um carro. Vai ter a mesma sensação de absoluto, sem ser necessário sacrificar um boi que nada tem a ver com o assunto.

  10. Vasco diz:

    Já agora: essa história do senhor e do escravo. Porque não estoira a cabeça a uma empregada de limpeza? Ou vai para a guerra? Acho que só aí, não em simulacros ou em livros, poderia V. Exª começar a perceber (através da razão e da experiência, num momento metodológico invulgar) os dilemas da condição humana. Todos sabemos que o único problema da Filosofia, e da Arte, é ser cobarde – ou usar argumentos errados. Como os simulacros com animais.

  11. almajecta diz:

    O que é isso de pôr em jogo? O jogo dos possíveis mais o fenómeno cultural e sua função criadora, as formas lúdicas da filosofia pied bricolar, o sentido desportivo da vida em sensibilidade estetica, receptividade moral e etc e tal, tudo menos arte. Mas a tauromaquia é um evento, não?

  12. vgc diz:

    que carregue as bandarilhas até que a alma lhe doa.

  13. Carlos Vidal diz:

    Claro, Grande Jecta, a tauromaquia é um evento, mas não é uma arte. Porque o belo nela (ainda) não é admirado sem conceito. Pelo contrário, nela necessitamos do conceito de, digamos, lógica sacrificial para a entender.
    Bom, e é isso, essa incapacidade de conceber essa lógica sacrificial, que anima os seus detractores.

  14. Carlos Vidal diz:

    Luís Bonifácio, grato pelo excelente texto que me recomendou, de Francis Wolff.

  15. almajecta diz:

    dimensão sacrificial como forma de amor, logo mais próxima da Religião que da Arte tout court, certo?

  16. Carlos Vidal diz:

    Creio que sim, Grande Jecta, é isso.

  17. Não te sabia forcado amador. Mas boa lide, Vidal. Ainda que eu não tenha percebido bem o que queres dizer gosto de ver a tourada defendida com tanta galhardia filosófica. Em especial os touros de morte.
    Já agora, e perdoa-me o armanço erudito, recomendo-te (se é que ainda não o lestes), “Sobre a caça e os touros” do Ortega y Gasset (edições cotovia). É, apesar de tudo, mais acessível para espirítos mais simples como eu.
    Viva la muerte!

  18. Caro Carlos,

    Sendo eu um activista da causa animal, devo confessar que, no meio de todas as formas de utilização dos animais, os touros são aqueles que menos sofrem. À excepção do dia da corrida e dos dois ou três dias anteriores, em que são enfraquecidos de todas as formas e feitios para não poderem dar luta na arena, os touros têm uma vida de luxo. Mais: prefiro as touradas de morte, em que o animal deixa de sofrer logo ali, do que a tourada à portuguesa, em que o touro passa um fim-de-semana a agonizar até ser abatido pelo veterinário na segunda-feira.
    Quem come carne, não pode criticar as touradas.
    Ainda assim, aconselho-te Peter Singer e a «Libertação Animal», onde ele aborda pormenorizadamente o conceito do especismo – semelhante ao do racismo, mas para as espécies.
    Abraços.

  19. Carlos Vidal diz:

    Meus grandes amigos miguel e Ricardo,
    Não estamos muito de acordo neste ponto, de qualquer forma, miguel, confesso qua não li o conhecidíssimo texto de Gasset, e como insistes vou lê-lo agora com mais tempo (andei, como todos nós, pelo Gasset, mas muito por outras bandas).
    Não creio que o lema da tauromaquia seja o viva la muerte, mas compreendo a referência.

    Ricardo, seguirei também a tua indicação bibliográfica.
    Grande abraço a ambos.
    CV

  20. LR diz:

    Tudo o que aqui ficou aduzido seria também válido para a guerra. Sem grande proveito, aliás

  21. Os argumentos estéticos são os que menos interessam na discussão. Aliás, não interessam rigorosamente nada.

    Cumprimentos

  22. Carlos Vidal diz:

    Caro Miguel Lopes, em parte concordo consigo.
    Repare, eu não usei argumentos estéticos ou esteticizantes, e tanbém disse que não me interessava a ideia simples de “tradição”.
    Disse outra coisa, levei a discussão para a teoria de religião e do sacrifício de Bataille. Disse que a coisa humana, nós, necessitamos de espaços onde arrriscar a vida sabendo simbolicamente que ela nunca é de todo arriscada nem “perdida” (mesmo que o seja), ela mantém-se. Ou seja, mesmo perdida, ela “está viva”, fica “viva”. É a definição de erotismo em Bataille: a manifestação da vida, mesmo no “lado” da morte.
    E isso é complexo, e até está próximo da necessidade de criar obras de arte, de deixar descendência, em suma, de perdurar (cuidar de nós mesmos, como diria Heidegger), viver, etc, etc.

  23. LR diz:

    Carlos,
    H’a uma dimensão sacrificial na corrida de touros (“tourada”, nunca, mas nunca!); certo. A dominação e o poder tamb’em são dados importantes. Claro.
    Mas onde é que isto chega para formar um “elogio”? Se pensares bem, aquilo tb se pode aplicar à tortura, por exemplo…

  24. A Tese é a Simetria da Igualdade, o confronto entre duas auto-consciências. A Antítese, em que o caro se demora desproporcionalmente é A Assimetria do Dono e do Escravo: em que Hegel conclui que a única forma de ganhar a Liberdade é através de um confronto mortal. No entanto, quem sai vitorioso do confronto dialéctico compreende que matar seria fútil, pois ninguém pode ser admirado por um cadáver.

    O ser humano já afirma a sua superioridade sobre a mera realidade biológica do animal ao afirmar “Eu”, tornando-se sujeito capaz de contemplar os objectos e todas as relações dialécticas que se estabelecem entre si.

    A Síntese é a Simetria da Cooperação. De facto, os animais já fazem muito do nosso trabalho e suprem muitas das nossas necessidades. Em Hegel, a relação dialéctica começa a inverter-se, com o Mestre a tornar-se dependente do Escravo. O domínio transforma-se em cooperação. E é esta cooperação que podemos observar em várias instâncias no mundo animal.

    Prefiro enveredar pelos preceitos do naturalismo ético, aceitando que existem características naturais que tornam certas coisas boas, e outras más. A dor e o sofrimento são invariavelmente maus, e devem ser restritos ao mínimo indispensável. A única dialéctica que vejo na Arena é a dialéctica da crueldade, da arbitrariedade e da morte estética.

  25. Carlos Vidal diz:

    Caro Flávio Santos compreendo bastante bem a clareza e solidez da sua tese. Mas a minha proposta, como eu disse, não é redutoramente estética ou esteticizante (ficar por aí seria aliar-me a pressupostos afins do fascismo).
    O meu propósito passa por compreender a teoria do sacrifício de Bataille (ou melhor, a sua leitura do sacrifício, desde que ele acompanha o «Eu» e a própria definição de humano). E, compreendendo-a, gostaria ainda de saber até que ponto ela é formadora da nossa “humanidade” e é necessária, absolutamente necessária, para aceitarmos viver num mundo onde existe a morte.

    Caro LR,
    depois do que disse acima a Flávio Santos, depreende-se que não posso ver possibilidades de comparar a “corrida” nem à guerra nem à tortura.
    Falo de uma dimensão, que Bataille e outros autores chamam de “sacrificial”, em que jogamos algo, preservamos algo, e tentamos compreender um mundo onde existe a morte e a finitude. O “sacrifício” é uma forma de, através do que também Bataille chama “dispêndio”, recuperarmos energias para viver.

    Comecei em Hegel e terminei em Bataille, atente-se, não me fiquei por Hegel. Tentei pois compreender melhor o que Derrida chama “hegelianismo de Bataille”.

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