Sofregamente

Gosto muito de Cioran. É um excelente redactor de frases para frigorífico para pequenos burgueses assustados, como eu. Um paliativo para toda a gente que resolveu viver a pagar as hipotecas das casas e jurou abandonar a violência da vida. Cioran tem essa imensa capacidade de condensar, em frases curtas, a heróica impotência de tentar romper com a impotência. Todos, os que o fazem, sabem-se infinitamente imperfeitos. Só são mais perfeitos do que todos aqueles que encontraram a felicidade da desistência. “Ter provado o fascínio dos extremos, é ter parado em qualquer parte entre o diletantismo e o dinamite!”, escreve ele. A superioridade, desse pensamento, reside na consciência da condenação. A sua subversão poética alimenta-se disso: “uma poesia digna desse nome começa pela experiência da fatalidade. Só os maus poetas são livres“. Para ele, o mal da filosofia é ser demasiado suportável. A vida nasce deste grito de quem se sabe certamente morto, mas não desiste de espernear.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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