Como nos relata o Vasco M. Barreto, Paulo Futre tem por essencial ao sucesso de Ronaldo em Madrid que este se apaixone. Ora parece-me que tal conselho vem tarde: o nosso menino d’oiro já tem em mãos toda a paixão de que precisa para ser o perfeito animal desportivo: motivado, inquebrável, letal.

O que procuramos nos nossos significant others? Muitas coisas, e muitas delas inalcançáveis: características que mimetizem as nossas, outras que as complementem, incentivo, reforço, harmonia, dissonância controlada, beleza física, capacidade reprodutiva, etc., etc. Se é verdade que procuramos no outro uma alma e um corpo capazes de modular o nosso próprio ser, tornando-o em algo de intermédio, numa criatura completa e eficaz, acertamos ao lado quando recomendamos tal processo ao craque-mor.
Cristiano Ronaldo não carece de nada disso. Ele mesmo já tratou de se transformar, da forma mais radical – e eximindo-se a intimidades escusadas – num outro mais desejável e mais performativo. Esculpindo músculos, depilando axilas, desenhando sorrisos ofuscantes e penteados prontos para tudo. Roupas, adereços, trejeitos, manchetes… nada ali faz mesmo parte do miúdo que um dia fugiu das barracas madeirenses para o Sporting. O CR que as multidões amam só em parte é o Cristiano; o resto já é o seu significant other, mas exertado no seu corpo, na sua personalidade. CR não é ele nem é o outro; ambos coabitam, em absoluta e inultrapassável intimidade. Não faz ali falta qualquer criatura suplementar; CR é homem de uma só paixão. Afecto, busca-o, como apontou o Bruno Sena Martins, na família, afinal a forma de alteridade menos distante do espelho.
Há uns anos, o pianista Liberace encenou um dos mais sinistros processos de clonagem da história, persuadindo o seu amante a transformar-se cirurgicamente numa cópia do próprio Liberace aos vinte anos, um monumento de carne à juventude perdida do artista decadente. Cristiano Ronaldo nasceu em tempos mais afortunados: é na sua pele que encontra o eco perfeito do seu devir, sem paixões nem afectos distractivos.
CR parece amar-se. E faz ele muito bem, que sempre se poupa às voragens de Nereidas, Merches e quejandas.

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2 respostas a

  1. yussuf diz:

    Francamente interessante esta análise. A projecção do eu, no próprio, materializando-se a ideia. Ao alcance de poucos, com este sucesso. CR7, ou CR9, who cares, o puto deleita-nos e bem sei que terá pouco a ver com Deus quanto tem a ver com o próprio mas espero que possa continuar a brilhar lá bem alto. Curiosa a referência ao Liberace, quando lá cheguei esperava encontrar Dorian Grey. Mas acho que também serve. Obrigado

  2. Meu caro,

    sobre Ronaldo, tenho só a dizer o seguinte

    http://atributos-1.blogspot.com/2009/07/o-mundo-esta-parado.html

    Cumprimentos

    JM

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