Parasitas e calimeros

Segundo leio num comentário, CGP ainda chora o seu triste fado: «também eu vivi e tive a minha educação à custa dos contribuintes. Como saberá não existem grandes alternativas e as que existem não estão ao alcance de uma família média que se vê subtraída de metade dos seus rendimentos todos os meses».
Usar o ensino estatal, financiado pelos nossos impostos, para se educar é um destino agreste e sem escapatória. Mas querer erigir no interior um projecto pedagógico inovador, levando a educação artística onde tal coisa raras vezes se vê… isso é coisa de parasita, de alguém que devia ter antes optado pela mendicidade ou pela prostituição, supostas grandes alternativas, para poder educar os filhos dos outros.
“Moral” da história: se eu uso recursos estatais em meu proveito, sou uma vítima do sistema; se alguém ousa pedir ao mesmíssimo Estado ajuda para tentar ajudar terceiros (por mal que o projecto tenha acabado) claro que só pode ser uma espécie de carraça, incapaz de gerar emprego e ROIs convincentes.
Ainda por cima, o pobre CGP viu-se obrigado a frequentar os tugúrios académicos do Estado porque os seus progenitores eram esbulhados «para subsidiar Belgais e outros sanguessugas semelhantes». Ora eu também andava a pagar impostos (e muitos) quando o digno economista se licenciou. Será que também lhe poderei endereçar alguns simpáticos qualificativos por isso? Não; acho que a minha educação (também estatal mas mais antiga) funcionou melhor.

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14 respostas a Parasitas e calimeros

  1. Caro Luis, há uma clara diferença entre a educação estatal e o caso de Belgais. A educação estatal está disponível para todos, enquanto que aquilo que a Maria João Pires e outros artistas desejam é um tratamento de excepção: desejam que os rendimentos da sua profissão sejam subtraídos ao bolso dos contribuintes.
    Há também a questão da falta de opções. A universidade pública pela sua gratuitidade junta os melhores alunos de cada área. Por isso, quem quiser, em Portugal, obter ensino de qualidade não tem qualquer alternativa. Ou será que também pensa que quem tem que recorrer às senhas de refeição do governo cubano jamais o poderá criticar?
    A única opção que me restaria seria saír do país, o que fiz assim que tive a oportunidade.

  2. LR diz:

    Há um mundo de diferença entre uma universidade estatal e a escola de Belgais, claro. Isso é absolutamente lateral à questão.
    A questão é que Maria João Pires não tem por profissão aquela escola; nem quis que os seus “rendimentos” fossem pagos por todos nós. Palpita-me que o que a Deutsche Grammophon e os concertos lhe rendem deve ser qb. A questão é que se tratava de um projecto dedicado a populações em áreas remotas e sem grande acesso a coisa alguma – o dinheiro não se destinava aos bolsos de uma “parasita” ou “sanguessuga”. Está a ver porque é que os seus insultos foram despropositados?
    Quanto a isso de criticar o governo, também não se percebe a relação. Você não estava a qualificar o governo mas sim a MJP.
    Por fim, a ideia de sair bem depressa do país só revela gratidão e reconhecimento a quem o financiou: o contribuinte português. Revelando afinal uma atitude não muito dissimilar da que levou MJP a fazer a sua enésima ameaça de largar Portugal. Com muita malta assim é que isto vai mesmo para a frente.

  3. daniel marques diz:

    O projecto é meritorio.
    Considerando esta situacao há que pedir responsabilidades à Maria Joao Pires por deixar falhar o projecto e pelas consequencias directas e indirectas que este falhanco tera no desenvolvimento de projectos semelhantes.

  4. daniel marques diz:

    A Maria Joao Pires nao tem por profissao a escola mas a filha tem…

  5. David Fernandes diz:

    “Há um mundo de diferença entre uma universidade estatal e a escola de Belgais, claro. Isso é absolutamente lateral à questão.”

    Exactamente Luis Rainha; não entendo (como já disse noutro sítio) porque insiste (vc) em misturar as coisas.

    Alguém que não o Luis se lembrou de ir buscar o perfil do tal CGP ao linkedin para referir a licenciatura dele. A meu ver um completo despropósito, que não ajuda nada à conversa, mas que o Luis insiste em manter.

    … já sei que não acha.

    O que acho importante é saber o que se passa… de facto. Óptimo artista não é sinónimo sequer de bom gestor (muitas vezes bem ao contrário) e nestas coisas das contas há coisas do arco da velha; crimes até, que por mera ignorância se podem cometer.

    Como diz o outro: é preciso ber, ber.

    Sobre a MJP querer mudar de vida, boa viagem é o que lhe desejo (sinceramente e sem ironias – cada um é como cada qual).

    Estou como diz o José Saramago sobre o Sousa Tavares: “por mim podia ir até para Marte”. Exactamente o mesmo que pensei quando o nobel nobel abalou para terras espanholas.

  6. LR diz:

    Essa também foi ideia bem estranha…

  7. David Fernandes diz:

    essa??

  8. LR diz:

    A mistura vem de um lugar bem claro: o CGP acha que quem usa recursos do Estado só pode ser “parasita” ou “sanguessuga”. Mesmo que tenha empregue esses subsídios para propósitos louváveis. Os resultados não terão sido os melhores? Feche-se a torneira; que foi precisamente o que aconteceu. Onde está o parasitismo? E a boa educação, que levaria a que não se insulte assim uma senhora que até já fez umas coisas pelo nome do nosso País lá fora?
    Os dados sobre a tal licenciatura são públicos, por vontade do próprio. E ele não se queixou da referência.

  9. David Fernandes diz:

    “A mistura vem de um lugar bem claro”. Não vem não. A mistura entre “subsídio” e “ensino público” não vem desse sítio.

    “E ele não se queixou da referência.”; não deixa de ser uma referência estapafurdia.

    O que eu acho é que descer ao nível de, será sempre descer de nível.

    Se verificar bem os comentários que se seguiram ao primeiro post estão, em alguns casos, muito abaixo do cromo original. E se o Luis nada disse, coloca-se ao lado deles.

    Mas também o que nestes espaços se diz é apenas para suscitar cliques não é?!?

    Eu vou dando uma ajuda, não se preocupe.

  10. LR diz:

    Mas já se esqueceu que a questão original tem precisamente como centro a subsidiação ao ensino? De que se fala quando se fala da escola de Belgais? O que o autor do post original postulou é que MJP é parasita por ter pedido dinheiro ao Estado para a sua escola; isto, vindo de quem usou recursos desse mesmo Estado para se formar, pode parece algo incoerente…
    Aliás, foi o próprio CGP a admitir sem rebuços que «também eu vivi e tive a minha educação à custa dos contribuintes.» Como vê, aquele “também” liga de forma clara as duas situações.
    Quanto a isso dos cliques, não me parece que me traga remuneração acrescida…

  11. “o CGP acha que quem usa recursos do Estado só pode ser “parasita” ou “sanguessuga””

    Não. Num país em que o estado representa 50% da economia e é monopolista ou quasi-monopolista em muitos sectores, é virtualmente impossível viver sem utilizar recursos do estado directa ou indirectamente. Ou seja, nos casos em que não há ou quase não há opção para além de se abster de consumir o produto (por exemplo, o ensino universitário de qualidade), não vejo qualquer problema em se servir dos recursos do estado, para além do facto de achar que o estado não os deve colocar à disposição.
    Ao contrário de quem quer andar de comboio, consumir água potável ou frequentar ensino superior de qualidade, Maria João Pires tinha opção, poder-se-ia ter financiado de diversas formas mas optou pela mais fácil e pela que implica que quem a subsidia o faz de forma involuntária.
    É indiferente neste caso o objectivo do projecto. Todos os projectos deste tipo são pessoais (ou será que a sua filha foi a melhor candidata que ela encontrou entre centenas de candidaturas anónimas?) e eu não tenho qualquer problema com isso, desde que o financiamento do projecto fosse voluntário. Forçar outras pessoas a pagar por um projecto pessoal (independentemente dos objectivos mais ou menos altruístas), eu chamaria roubo. Se feito de forma legal, recorrendo ao poder do Estado, eu chamo parasitismo. E sim, tanto um como outro são mais indignos na minha escala de valores do que a prostituição.

    Finalmente a sua referência à minha ingratidão para com o contribuinte português: a gratidão exprime-se em relação a actos voluntários de boa-vontade. Nem o contribuinte português nem eu tivemos grandes opções no financiamento da minha licenciatura. A minha opção era não fazê-la ou fazer uma licenciatura de qualidade inferior. Ao contribuinte português a única opção a não me subsidiar era a cadeia. Mais uma vez lhe pergunto: deverão os cubanos agradecer ao governo de Cuba as senhas de alimentação? Serão ingratos aqueles que fogem para o paraíso capitalista ao lado?

  12. Luis Rainha diz:

    A bem da verdade, vê é “problemas” quando o projecto é de outrem, ainda por cima, uma “artista”. Todos os projectos de todos esses tipos são pessoais, incluindo a sua educação. Só que o projecto de MJP visava o bem de mais pessoas. A escola Salesiana do Estoril não é um desígnio do Estado, no entanto o seu dinheiro também lá aterra. E depois?
    E que raio de opções é que ela tinha, para lá das que seguiu (pedir dinheiro a mecenas, a si mesma e ao Estado)? Ninguém forçou ninguém a financiar coisa alguma; o Estado não é você mais o senhor Joaquim da esquina, é uma entidade com personalidade própria. Não brinque com as palavras.
    E se um ministro sonha com o CCB, porque terei eu de o pagar? Será que não vê mesmo onde o seu raciocínio nos leva?
    Olhe: chame lá o que quiser a quem quiser, justifique as suas contradições com as cabriolas que entender, que eu para esse peditório já dei.

  13. José Barros diz:

    Eu suponho que o Luís Rainha afinal também seja um grande parasita do sistema capitalista. Senão vejamos: o Luís Rainha que não quer viver numa economia de mercado e faz a apologia das políticas anti-capitalistas do Bloco de Esquerda deve abastecer-se nesses grandes satãs do comércio mundial que são os centros comerciais e os hipermercados, comprar gasolina a esses sanguessugas das gasolineiras, depositar as suas poupanças nas mãos dos satãs que provocaram a crise mundial enquanto acumulavam lucros obscenos, etc., etc…

    Realmente, não se percebe como o Luís Rainha não vive numa comuna com os seus camaradas e insiste em usufruir dos bens que a economia capitalista produz à custa da miséria dos trabalhadores. Está a ver onde o raciocínio leva?

    Que tenha posições políticas diferentes, tudo bem. Que venha com a cantilena da moral púdica, já acho mal. É que o seu argumento falha quando omite intencionalmente o facto de os pais do Carlos terem pago os seus estudos e os dos outros, segundo a lógica socialista de distribuir os custos e a riqueza, independentemente das possibilidades financeiras e do mérito dos beneficiários. Por isso também, mesmo aceitando a triste lógica aqui apresentada, o argumento falha e o Carlos pode falar à vontade. Quem não pode fazê-lo – repito, segundo essa triste argumentação – é a Maria João Pires que, sob a chantagem do “paguem-me senão fujo”, exige que lhe financiem ainda mais os seus projectos pessoais, independentemente de a gestão aparentemente ruinosa de Belgais ter inclusive desperdiçado os subsídios que o Estado já lhe tinha atribuído.

    Para finalizar, tenho uma proposta: se a Maria João Pires pode fazer essas exigências, eu também quero. Tenho imensos projectos de beneficiência muito meritórios que pretendo levar a cabo, desde que o Estado me financie. E conto com o Luís Rainha para me defender quando ameaçar o Estado com a renúncia à minha nacionalidade, se, por acaso, os projectos derem para o torto. Espero que a minha falta de notoriedade não seja argumento para que o Luís Rainha não me defenda publicamente neste seu blogue. Afinal, ou somos de esquerda e todos iguais, ou então uns são podem parasitar e os outros não.

  14. Luis Rainha diz:

    José Barros,

    Mais uma vez, prova que falar do que não se entende nem conhece é estratégia pouco recomendável. É assim: sou empresário e vivo da presença das minhas empresas no mercado há 8 anos. Sem subsídios e até a criar emprego, riqueza e mesmo algumas exportações.
    De resto, não usei o argumento que me aponta, e já o deixei claro nestas caixas de comentários: nada tenho contra o financiamento da educação do homem, nem contra o ensino privado. Irrita-me sim a má educação pesporrenta que leva alguns a insultar de forma gratuita quem até já deu mais a Portugal do que nós.
    Mais: se você tem esses projectos, apresente-os a quem de direito (embora me palpite que tal nunca acontecerá). Se meritórios, não me ouvirá a reclamar contra eles; tal como não me ouviu a defender a desagradável chantagem de MJP ou a bizarra ideia de deixar a filha a gerir a escola de Belgais.

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