Zizek: A crise do Irão e o retorno às raízes da revolução de 1979

Traduzi , com muitas incorrecções, este artigo de Slavoj Zizek sobre a crise iraniana. Não estou convencido da sua análise. Zizek mantem-se fiel à ideia que a política acontece no momento em que o impossível, parece tornar-se possível. Na queda da RDA, o momento político seria a intenção dos primeiros contestatários e dissidentes de construir uma nova RDA verdadeiramente socialista e não a previsível anexação pela RFA. O momento da política seria sempre esse curto espaço de oportunidade de construir algo de novo. Não estou convencido que haja uma alternativa progressista à ditadura islamo-fascista. Acho que mesmo um regime liberal, capitalista e democrático é infinitamente melhor do que esta ditadura que mata e tortura todos os que se opõem ao seu caminho fascista e corrupto. Mas analisar é também um momento de vontade em que se pretende ajudar a escrever um caminho. Deixo-vos o texto de Slavoj Zizek:

Quando um regime autoritário se aproxima da sua crise final, a sua dissolução segue em geral duas etapas. Antes do seu colapso, produz-se uma ruptura misteriosa: as pessoas percebem de uma vez só que a partida acabou, e deixam de ter medo. Não somente o regime perde a sua legitimidade, mas o próprio exercício do poder é apercebido como uma reacção de pânico impotente.

Todos conhecemos a cena clássica de um desenho animado em que um gato se encontra em cima de um precipício mas continua a andar sem perceber que não tem o chão sob as suas patas; apenas começa a cair quando baixa os olhos e se apercebe da situação. Quando perde a autoridade, o regime é como um gato suspendido por cima de um precipício.

No livro o Shah, numa descrição clássica da revolução de Khomeyni, Ryszard Kapuscinski situa o momento preciso dessa ruptura: um manifestante que se encontra numa rua de Teerão recusa-se mexer-se quando um polícia lhe ordena que o faça, perante a recusa, o policia embaraçado vai-se embora; em poucas horas, toda a Teerão já tinha ouvido falar desse incidente e, apesar dos confrontos de rua prosseguirem durante semanas, todo o mundo se tinha apercebido que de uma certa maneira a partida estava decidida. Assistimos, hoje, a qualquer coisa de similar?

As interpretações daquilo que se passa no Irão são múltiplas. Para alguns, é o momento de afirmação de um “movimento reformista” pró-ocidental na sequência das revoluções “laranja” na Ucrânia e na Geórgia, quer dizer uma reacção laica à revolução de Khomeyni. Essas pessoas apoiam os protestos dado que os consideram como o primeiro passo em direcção a um novo Irão democrático, liberal e laico, libertado do fundamentalismo muçulmano.

Para os cépticos, pelo contrário, Ahmadinejad ganhou as eleições: é a voz de uma maioria, enquanto que Moussavi é apoiado pelas classes médias e a juventude dourada . Resumindo: abandonemos as ilusões e reconheçamos que o Irão, tem na pessoa de Ahmadinejad, o presidente que merece. Há ainda, aqueles que não vêem em Moussavi mais de que um membro da autoridade clerical, não tendo mais do que diferenças formais com Ahamadinejad, e estando também decidido em prosseguir o programa nuclear e a opor-se ao reconhecimento do Estado de Israel; tendo tido o apoio de Khomeyni quando era primeiro ministro durante a guerra entre o Irão e o Iraque.

Finalmente, os mais tristes são os simpatizantes de esquerda de Ahmadinejad: aquilo que está em jogo, para eles, é a independência iraniana. Ahmadinejad ganhou porque defendeu a independência do país, denunciou a corrupção no seio da elite e utilizou a riqueza proveniente do petróleo para aumentar o rendimento da maioria dos desfavorecidos. Trata-se, garantem-nos, do verdadeiro Ahmadinejad, por detrás da imagem veiculada pelos media ocidentais de um fanático negacionista. Aquilo que se desenrola no Irão não seria mais do que a repetição do derrube de Mossadegh em 1953: um golpe de Estado financiado pelo Ocidente contra o presidente legítimo.

Bem que divergentes, todas estas versões interpretam os protestos iranianos segundo o eixo da oposição entre extremistas islamistas e reformistas liberais pró-ocidentais, é por isso que lhes é tão difícil determinar a posição de Moussavi: é um reformador apoiado pelo Ocidente que quer reforçar a liberdade individual e a economia de mercado, ou um membro do poder clerical em que a sua vitória não teria qualquer repercussão na verdadeira natureza do regime? Estes pontos de vista arriscam-se a passar ao lado da verdadeira natureza dos protestos.

A cor verde adoptado pelos partidários de Moussavi, os gritos de “Allah akbar” que repetem todos os dias nas ruas de Teerão mostram que eles vêem a dua actividade como a repetição da revolução de Khomeyni, de 1979, como uma espécie de retorno às raízes, apagando a corrupção ulteior da revolução. Este retorno às origens não é apenas programático; ele expressa-se na forma de expressão das multidões: a unidade incontestável do povo, a solidariedade geral, a auto-organização engenhosa, a improvização de meios para expressar o protesto, a mistura singular da espontaneidade e da disciplina, como a marcha ameaçadora de milhares de pessoas em silêncio. Temos perante nós um levantamento popular dos autênticos partidários desiludidos da revolução.

Devemos retirar deste acontecimento várias consequências determinantes. Primeiro, Ahmadinejad não é o herói dos islamistas desfavorecidos, mas um verdadeiro populista islamo-fascista corrompido, uma espécie de Berlusconi iraniano com uma mistura de episódios de palhaçadas e uma politica de repressão feroz que causa mal estar, mesmo na maioria dos ayatollahs. A sua distribuição demagógica de migalhas aos pobres não nos deve induzir em erro: por detrás dele, encontram-se não só os órgãos da repressão policial e um aparelho de comunicação muito ocidentalizado, mas também uma nova classe rica e poderosa, fruto da corrupção do regime – os Guardas da Revolução do Irão não são uma milícia popular, mas um empresa gigante, uma das mais poderosas e ricas do país.

Segundo, devemos estabelecer uma diferenciação clara entre os dois principais candidatos que se opõem a Ahmadinejad. Karroubi é um reformista que defende, em substância, uma versão iranianan da politica comunitarista, prometendo dar benesses a todos os grupos particulares. Moussavi incarna qualquer coisa de diferente: o seu nome representa a verdadeira reanimação do sonho popular que sustentava a revolução de Khomeyni, mesmo se esse sonho era utópico.

Isto significa que não devemos reduzir a revolução de 1979 a uma tomada de e poder por parte de extremistas islâmicos: representavam muito mais do que isso. É tempo de lembrar a enorme efervescência desse primeiro ano que se seguiu à revolução, com a explosão incontrolável da criatividade politica e social, as experiências organizacionais e os debates no seio dos estudantes e da população.

O facto dessa explosão ter sido objecto de uma violenta repressão demonstra que a revolução de Khomeyni era um acontecimento politico autêntico, uma abertura momentânea que libertou forças inéditas da transformação social, um momento em que “tudo parecia possível”.

Seguido de um fechamento progressivo através da tomada do poder politico pelas autoridades islâmicas. Para dizer em termos freudianos, o movimento de protesto que nós assistimos é um retorno das movimentações da revolução de Khomeyni. Isto sobretudo quer dizer que o Islão encerra um verdadeiro potencial libertador: para encontrar um “bom Islão”, ninguém precisa de voltar ao século X; temo-lo aqui sob os nossos olhos.

O futuro é incerto. Muito provavelmente, os detentores do poder engolirão a explusão popular, e o gato, em lugar de cair no precipício, ganhará novamente terra firme. O regime, longe de ser o mesmo que antes, será apenas um governo autoritário e corrompido no meio de outros. Independentemente do desfecho, é importante lembrar que assistimos a um grande acontecimento emancipador que excede o quadro da luta entre liberais pró-ocidentais e integristas anti-ocidentais. Se o nosso pragmatismo cínico faz-nos perder esta capacidade de reconhecer a dimensão emancipadora, então, nós o Ocidentais estamos à beira de entrar numa era pós-democrática, e preparamo-nos para acolher os nossos próprios Ahmadinejad. Os italianos já têm um de seu nome: Berlusconi. Outros esperam a sua vez.

LE MONDE | 27.06.09 | 15h44

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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Uma resposta a Zizek: A crise do Irão e o retorno às raízes da revolução de 1979

  1. Ana Paula diz:

    Nuno, publiquei há dias, no A Nossa Candeia, um post sobre o Irão… vou agora fazer link para este texto. Abraço,

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