Um manifesto, as suas dúvidas e outras questões

O manifesto dos 51, em defesa do investimento público e de dar prioridade às políticas económicas para o emprego, é um documento importante. Nada daquilo que lá está escrito é novidade, mas é fundamental a reafirmação que a economia não está inscrita nos astros e que as escolhas políticas devem determinar os caminhos económicos. Talvez, o aspecto mais relevante do documento seja a abrangência dos seus subscritores. Nele se encontram bloquistas, alegristas, independentes e apoiantes do governo Sócrates. Estes últimos, podem provocar um efeito colateral de disfarçar a colaboração do governo Sócrates com as políticas neoliberais, tão do agrado dos Mexias e Carrapatosos, através da exibição pública de apoiantes de Sócrates que vêem assim legitimada os seus pergaminhos de esquerda. Penso que esta leitura é sectária e reducionista: mais importante que as próximas eleições, é ir construindo uma maioria política e social que apoie políticas económicas de esquerda, que possam fazer o seu caminho nos vários partidos. Continuo a achar que só com sectores do PS, com o PCP, o Bloco e independentes é possível ambicionar construir uma alternativa de governo.
Claro que a abrangência pretendida dos apoiantes prejudica aquilo, que para mim, seria uma maior clareza na condenação da dinâmica do sistema capitalista. Mas, aquilo que está em cima da mesa não é o derrube do capitalismo, mas lutar por uma política democrática e social que altere as prioridades da governação em favor da maioria da população. Isto não é uma revolução, mas é um importante tremor de terra.
Finalmente, a importância deste documento também se mede pelo silenciamento a que foi votado. Jornais como o Público que se afirmaram como os arautos do chamado manifesto dos economistas, praticamente não o noticiaram. A divulgação do manifesto ficou restrita a poucas notícias, e a um editorial de José Manuel Fernandes que , mais uma vez, alertava sobre o perigo vermelho. Alguém tem de estudar essa capacidade do director do Público de ver comunistas em cima de todas as árvores.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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3 respostas a Um manifesto, as suas dúvidas e outras questões

  1. Ana Paula diz:

    É exactamente esta a percepção e a opinião que tenho sobre o documento. Obrigado, Nuno… além do mais, a frase de fecho do texto é… brilhante!

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Obrigado, Ana Paula 🙂

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