O mais do que inútil (e decepcionante) MANIFESTO dos “51”

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( Dan Flavin )

A exigência destes economistas de um capitalismo de “rosto humano”, um “capitalismo moral” e “ético”, preocupado com as “políticas de empregabilidade” e nunca, mas nunca mesmo, com a análise actual da sociedade e o estádio actual do capitalismo e da sua fuga em frente chamada “globalização”, faz-me recordar esta caracterização de Anselm Jappe:

«Uma tal interpretação [a dos “51” por exemplo] releva da esfera dos bons sentimentos e não pode substituir-se a uma efectiva análise da sociedade que produz os monstros que se pretende exorcizar. Gritar que o que se passa é um escândalo porque tudo se tornou vendável não é propriamente uma atitude nova e, na melhor das hipóteses, o resultado é expulsar os vendilhões do Templo para vê-los instalarem-se no passeio do outro lado da rua. Uma crítica puramente moral, que recomenda que não se submeta tudo ao dinheiro e que se pense também no resto, não pode ir muito longe: acaba por assemelhar-se aos discursos solenes do presidente da República e das “comissões de ética”».

Conclusão: a mercadoria e os valores em voga nas economias e mercados contemporâneos conduzem “necessariamente os indivíduos a trabalharaem cada vez mais, ao mesmo tempo que priva toda a gente de trabalho”.

Decepciona-me ver Francisco Louçã subscrevendo este manifesto dos “51”, e gostaria que ele respondesse a estas questões, mas é provável que Louçã não frequente estas bandas blogosféricas e “tenha mais que fazer”. Óptimo, então alguém me responda (por exemplo, o meu amigo João Tolda):

1.
O que significa, no actual estádio do capitalismo tecnológico defender uma tão “nobre” “política de empregabilidade”??

2.
Sabendo que não existe “capitalismo de rosto humano”, o que é que querem os “51” num momento histórico em que o capitalismo se caracteriza exactamente por dispensar tudo e todos do trabalho, lançando-os (lançando-nos) onde calhar??

ADENDA (29/6 – 10:00): É evidente que se ninguém do dito manifesto responder o que é isso da “política de empregabilidade” no contexto do estádio actual do capitalismo, ficamos todos a saber que tal “rosto humano” pretendido não passa de um vazio slogan mais ou menos eleitoral, e de um “bom sentimento” inócuo.

ADENDA 2 (29/6 – 12:20): Continuo à espera que estes “capitalistas de rosto humano” (com F. Louçã na dianteira) me respondam – e bem posso esperar sentado, não é verdade??

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5 respostas a O mais do que inútil (e decepcionante) MANIFESTO dos “51”

  1. LAM diz:

    (digo eu que não sou militante de nenhum partido), Talvez porque o nosso (tuga) estagio social não permita de momento outras metas exequíveis.
    A diferença entre o manifesto dos 51 e o que implicam as perguntas colocadas será resumidamente a diferença entre reformismo ou revolução. Uma, a dos 51, procura consensos de proveniências avulsas fixada em meia dúzia de pontos que NO MOMENTO garantam (este “garantam” é um toque lírico, mas ok), a satisfação de reivindicações imediatas e básicas e, como tal, passíveis de congregar não só a adesão de outras figuras como também e não desprezível um aumento do número de votos nos partidos afectos a essas propostas.
    Ao fim e ao cabo o que se chamava (agora não sei), uma “frente democrática”. Exactamente aquilo que poderia ter representado a CDU, e para o que foi constituída a CDU que – por motivos que me escapam alguns, outros não – nunca conseguiu assim impôr-se.
    A outra, porventura a que decorrerá da resposta às perguntas colocadas, é mais directa, justa e que solução mais coerente dará ao problema. Creio é que não terá viabilidade nos tempos mais próximos, ou de pelo menos juntar vontades para isso.

    mas eu nem sou o Francisco Louçã.

  2. almajecta diz:

    É uma festa com 51 debutantes, mais os apoiantes do PSR, LCI, UDP e MDP, um ripostar mimético para a caça e pesca, tudo em nome das políticas daqui e daqulá em forma de manifesto a fase mais infantil da afirmação social.

  3. miguel dias diz:

    Mas repara, alma, que há qualquer coisa de esotérico, diria mais, zen, no número 51 (diz que é primo) ao contrário de 28, coisa banal. ainda se fosse 29, a coisa piava mais fino. Por aqui, os primos do 51 já ganharam.

  4. almajecta diz:

    Sei, é isso, e como diz o ditado “quanto mais prima, mais se lhe arrima”. E ainda vou ter que acertar numa girafa por vias de tanta divulgação dinâmica em capitalismo trendy altamente tecnológico. Qualquer dia avento visitar a madrecita lá acima. E os Pró-jectos, mais os concursos, os papa almoços no terreno e etc e tal?

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