Crime, diz ela

A Fernanda Câncio diz que não gosta de Berlusconi mas também não gosta que ele seja “combatido politicamente” com base em notícias que afirmam a “suspeita de prostituição” (i.e., a presença de prostitutas) e do consumo de cocaína em festas organizadas pelo Premier italiano.

A f. diz a este propósito que “gostava de saber se em itália é crime consumir cocaína e recorrer à prostituição”, mas temo que ela esteja a dar tiros ao lado; ela diz “que por exemplo em portugal nenhuma das coisas é crime. consumir cocaína é um ilícito não criminal e recorrer à prostituição nem sequer é ilícito” (o que noutros países, como é sabido, não é o caso: na Suécia, por exemplo, o cliente da prostituição é criminalizado, assim como na Califórnia – lembremo-nos do affaire Hugh Grant/Divine Brown), mas a mim parece-me claro que o que mais importa aqui não é saber se o comportamento berlusconiano em causa é criminoso, no sentido técnico-jurídico, ou não.

A questão é a seguinte: será que só os comportamentos criminalizáveis podem ser objecto de censura pública, e tudo o mais pertence à esfera privada dos titulares de cargos políticos, ou deverá essa mesma esfera privada, em nome da liberdade, do free speech e da democracia, poder ser mais escrutinada que a dos demais cidadãos?

Para mim (e mais alguns milhões de vulgares cidadãos, all over the Earth), é óbvio que deve, e não custa a perceber porquê: embebedar-se, por exemplo, coisa que muitos farão sem excessivos problemas de consciência (talvez porque não sejam, nem queiram ser, Primeiros-Ministros…), não será crime, a menos que atrás de um volante – mas não terão esses e todos os outros cidadãos direito a saber se o seu Primeiro-Ministro bebe demais?

Idem para a coca: crime talvez não seja (não sei, nunca me pareceu importante investigar), mas não poderão os eleitores querer saber quem a consome, e retirar daí as ilações que lhes aprouver? E as putas, deverá o seu uso (so to say) pertencer à esfera incomprimível das informações pessoais de cada um, e por isso ser furtado ao conhecimento e ao julgamento da opinião pública? Porque carga de água?

Raio de ideia pensar que a única censura moral possível é a criminal. Ele há crimes que compensam, mas ele também há ideias que se formam – livremente – na consciência de cada um, e que me parece absurdo tentar contrariar dizendo, algo pateticamente: “-Atenção que não é crime!” (por mais foleiro que pareça).

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SEXTA | António Figueira
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14 respostas a Crime, diz ela

  1. Ao que li sobre o assunto, a lei italiana é semelhante à portuguesa não criminalizando a prostituição ou o uso dela, reservando o crime para o proxenetismo e afins.
    Mas é triste ver um país dirigido por um tipo que claramente pensa com os tomates…

    Já a história de uma madame que diz ter servido Berlusconi ma noite e que ele se lhe dirigiu como “a que vem de parte da (construtora x)” já levanta algumas suspeitas. De qualquer modo a madame em questão terá também estado numa lista dele para o PE… tudo uma grande família, é o que é…

  2. Que interesse tem saber que o Primeiro Ministro do país X vai para a cama com uma garrafa de uísque no sábado à noite, depois de uma semana a aturar ministros e jornalistas? Desde que chegue sóbrio ao trabalho na segunda (ou no domingo à tarde), não me parece que isso tenha interesse. Certo? Idem para a coca. As prostitutas é um pouco diferente, mas penso que se aplica o mesmo princípio (o que pensa o António Figueira da legalização da prostituição, já agora?).

  3. LAM diz:

    Onde está o espanto? o discurso é coerente. Diria que forçosamente o discurso tinha de ter coerência. Ora não?!
    Se saísse do campo estrito da “legalidade” e do que daí pode decorrer era dar o flanco aos putativos cambalachos dos Freeports, projectos de “engenharia” e sucedânea trapalhada.
    Nesta hora mais do que nunca o rebanho quer-se unido.

  4. O post de Fernanda Câncio “está na onda” do que a senhora tem defendido. É uma questão de coerência com os princípios que inaugurou na defesa de Sócrates. A moralidade é relativa ao interesse de cada uma. Câncio usa essa relatividade sem qualquer pudor.

  5. António Narciso diz:

    Às vezes, a prostituição pode ter aspecto de favores…

  6. maria povo diz:

    Como se dizia em Maio68: “As putas ao poder que os filhos já lá estão”!!!

    … e mais não digo, por agora!

  7. Concordo com Fernanda Câncio.

  8. HC diz:

    Tenho um o “feeling” que brevemente vamos assistir a um escândalo sexual que envolve o PS, quiça alguém do gabinete do Primeiro ou mesmo o próprio. Isto explica perfeitamente esta defesa acérrima, quase doentia, do Berlusconi.
    A melhor táctica de defesa é a que é feita antes do ataque. Quando chegar a altura, poderá sempre dizer “sou insuspeita pois já dizia o mesmo de Berlusconi e não gosto mesmo nada dele”. Inteligente.

  9. Fernanda Câncio e Alberto Gonçalves unidos na candidatura ao Alto Comissariado da Defesa do Direito Humano à Boçalidade e ao Gosto pela Carninha Fresca.

  10. Antónimo diz:

    Não vejo como é que o uso de prostitutas (em regra, é difícil distinguir o que é vontade própria e o que é a exploração humana e de situações limites) e o consumo de cocaína (e perda mesmo que momentânea da consciência) de um primeiro-ministro recaia no domínio do moralismo. Mas há mentes que são mais iluminadas do que outras. Felizmente, reencontram-se bastas vezes na mesma barricada, o que ajuda a não perder tempo.

  11. Faço bloco com o Ricardo Alves no que diz respeito ao uísqui. No restante, tenho as minhas dúvidas. O consumo de coca e de certas prostitutas pode não ser ilícito mas sustenta os crimes a ele ligados.

  12. Ali diz:

    Se a Fernanda Câncio é uma jornalista séria e, já agora, das boas, vou ali e já venho. Não é só o Mário Crespo.

  13. a. lopes diz:

    Bento salva a vida a 5 pessoas na sua piscina, o que até a cancio saberá que não é crime. Sai nos jornais, é proposto para uma condecoração.
    Bento processa os jornais e o Estado, por violação de privacidade.

  14. a.m. diz:

    Premier, affaire, so to say, free speech, all over the earth…
    Desculpe perguntar-lhe, como já fiz uma vez: tem algum problema com a língua portuguesa?
    É pena…

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