Lee Sustar: Irão em Ebulição

Lee Sustar, do Socialist Worker, analisa a dinâmica dos protestos populares e da repressão no Irão, na sequência das eleições presidenciais fraudulentas.
No Esquerda, com tradução de José Pedro Fernandes

O Irão atravessa um terreno político desconhecido após os protestos populares contra o que quase certamente foi uma vitória eleitoral fraudulenta do candidato Mahmoud Ahmadinejad. As há muito latentes divisões nas classes dirigentes do Irão tornaram-se feridas abertas, em resultado do apoio popular ao candidato presidencial reformista Mir Hussein Moussavi.

Uma selvática intervenção policial contra manifestações na capital, Teerão, foi acompanhada pela prisão de mais de 130 proeminentes apoiantes de Moussavi, incluindo Mohammad Reza Khatami, irmão do anterior presidente Mahmoud Khatami, antes porta voz do parlamento, e o genro do aiatola Ruhollah Khomeini, líder da revolução islâmica de 1979.

Outras figuras apanhadas pela polícia incluem Mostafa Tajzadeh, ministro do interior do governo de Khatami; Behzad Nabavi, um antigo ministro da indústria; e Mohsen Mirdamadi, organizador da ocupação de 1979 da embaixada dos EUA.

No passado, aquelas intervenções policiais eram dirigidas principalmente contra editores de jornais liberais, activistas dos direitos humanos e sindicalistas. Agora são políticos de primeira grandeza que estão a receber o mesmo tratamento por parte de Ahmadinejad, a quem os manifestantes nas ruas chamam ditador, igual ao Xá do Irão, o homem forte apoiado pelos EUA que foi derrubado em 1979.

Esta luta no topo da sociedade iraniana pode conduzir a mais rebelião na base. Ao contrário das eleições anteriores, em que as vítimas das fraudes eleitorais engoliam os resultados, Moussavi recusou-se a fazê-lo. Pelo contrário, apelou aos seus apoiantes para permanecer nas ruas, e exigiu formalmente às autoridades que fossem autorizados mais protestos.

Eleições presidenciais renhidas, que incluíam o roubo de votos, para viciar o resultado em 1 ou 2 por cento, não são coisa nova no Irão pós-revolucionário. Mas a afirmação de que Ahmadinejad teve mais de 62% de votos é inverosímil.

Embora seja possível que o apoio do presidente entre os pobres, particularmente nas áreas rurais, lhe pudesse ter dado o primeiro lugar entre os 5 candidatos, é muito improvável que pudesse ter conseguido uma maioria esmagadora, de forma a evitar uma segunda volta entre os dois candidatos mais votados.

O mais óbvio sinal de fraude é que os candidatos derrotados não conseguiram sequer vencer nas suas cidades ou regiões, de acordo com as autoridades, o que é praticamente uma coisa nunca vista no Irão. Por exemplo, Moussavi, de acordo com os resultados oficiais, teve um mau resultado na província do Azerbaijão, embora sendo ele próprio um azeri, e muito popular ali.

Como escreveu o especialista do Médio Oriente Juan Cole:

“Diz-se que o clérigo Mehdi Karroubi, o outro candidato reformista, recebeu 320.000 votos, e que teve maus resultados nas províncias ocidentais do Irão, perdendo mesmo no Luristão. Ele é um lur, e é popular no ocidente, incluindo o Curdistão. Karroubi teve 17% dos votos na primeira volta das eleições presidenciais de 2005. Embora seja possível que a sua popularidade tenha declinado desde então, é difícil acreditar que tenha hoje menos de 1% dos votos.”

A pergunta é: porque se teria Ahmadinejad arriscado a uma tão óbvia e grosseira manipulação dos resultados eleitorais?

Neste momento qualquer resposta é especulação. Mas há uma lógica em roubar as eleições com uma margem esmagadora, reclamando a grande maioria dos votos, porque assim Ahmadinejad poderia evitar uma segunda volta contra o seu principal oponente, Moussavi.

Nos últimos dias antes da votação de 12 de Junho, os apoiantes de Moussavi mobilizaram manifestações com centenas de milhares de pessoas, não só na capital, Teerão, mas também em várias cidades da província. Ahmadinejad provavelmente receou que ainda maiores concentrações tivessem lugar numa segunda volta e dessem a Moussavi a vitória. O cálculo aparente foi que seria mais seguro declarar uma vitória decisiva na primeira volta, para pôr fim a qualquer contestação. O líder supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei, reconheceu os resultados eleitorais, na esperança de restaurar a ordem.

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Como era natural, o resultado das eleições desencadeou mais protestos. Até agora, as manifestações sofreram violentos ataques da polícia e dos grupos para-militares basij, que patrulham as ruas em busca de supostos comportamentos não-islâmicos, como seja a imodéstia no vestuário das mulheres.

E ao endurecer as divisões na classe governante no Irão, a fraude eleitoral deu origem a uma nova era na política iraniana, em que grupos rivais poderão finalmente evoluir para algo semelhante a partidos políticos permanentes, algo que até agora tem sido bloqueado pelo clero xiita, que constitui o coração da política no Irão.

Quanto ao que está para vir, teremos de aguardar. Mas, para melhor entender a dinâmica da política iraniana, é útil observar qual é a base social dos principais candidatos.

Ahmadinejad, enquanto veterano da guerra Irão-Iraque e da Guarda Revolucionária, representa a linha dura da direita dentro do clero e das estruturas da segurança nacional.

Relativamente desconhecido quando candidato às eleições de 2005, foi capaz, provavelmente graças ao roubo de votos, de chegar à segunda volta. O seu opositor era outro conservador, o anterior presidente iraniano Ali Akbar Hashemi Rafsanjani. Fazendo uma campanha populista, Ahmadinejad derrotou habilmente Rafsanjani, um dos homens mais ricos do Irão e o representante do grande capital.

Depois de tomar posse, Ahmadinejad procurou reverter as políticas liberais da anterior administração do reformador Mahmoud Khatami. Durante os seus oito anos no cargo, Khatami tinha assumido uma postura mais liberal quanto às questões sociais, cultivando o apoio da classe média educada, ao mesmo tempo que forjava laços económicos com o capital da Europa Ocidental.

Mas Khatami não conseguiu opor-se aos ataques da linha dura contra os estudantes liberais e os meios de comunicação, e pouco tinha para oferecer às classes trabalhadoras e aos pobres. Ahmadinejad pôde portanto beneficiar da atitude cínica dos intelectuais da classe média para com os reformadores, enquanto prometia melhores dias à maioria, as classes trabalhadoras.

Uma vez no poder, Ahmadinejad apoiou-se na alta recorde dos preços do petróleo para tentar consolidar a sua base política de apoio. Subsídios para os pobres, bónus para os funcionários públicos e projectos de desenvolvimento local constituíram o núcleo da sua política económica. E ao incrementar o consumo dos trabalhadores e dos pobres, o estado aumentou os lucros do bazar, os interesses das pequenas empresas que são a espinha dorsal da direita linha dura iraniana.

Outras facções da classe dirigente iraniana viram estas políticas com crescente alarme. Do ponto de vista de pessoas como Rafsanjani, os gastos em programas sociais dispersos e num clientelismo ao estilo latino-americano, eram roubar à economia o dinheiro de que necessitava para o investimento, em especial para modernizar a indústria do gás e do petróleo. Muitos discordaram da postura de confrontação com o Ocidente de Ahmadinejad, no que respeita ao programa nuclear iraniano, argumentando que não compensava o custo das sanções contra a economia do Irão.

Ao mesmo tempo, a classe média educada e os profissionais liberais desaprovavam os esforços autoritários de Ahmadinejad de voltar a impor as normas sociais da revolução islâmica. Além disso, as classes trabalhadoras viam os seus rendimentos constantemente erodidos pela inflação, e as tentativas de organização de sindicatos eram sufocadas por uma violenta repressão por parte de Ahmadinejad. O presidente tentou mesmo revogar subsídios para bens de primeira necessidade para os pobres, e a corrupção continuou, o que é desde sempre uma característica do governo iraniano.

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Por estas razões, Moussavi e os seus apoiantes viram uma oportunidade para derrubar Ahmadinejad.

Esse esforço juntou alguns aliados improváveis. Um dos principais apoiantes de Moussavi é Rafsanjani, mesmo que tenha sido Rafsanjani, duas décadas antes, a apoiar a abolição do cargo de primeiro-ministro, de modo a expulsar Moussavi, que então detinha o cargo. Nessa altura Moussavi defendia uma política de economia capitalista de estado, advogando restrições das importações e o controlo pelo estado das indústrias-chave. Rafsanjani, o campeão dos direitos da propriedade privada, estava determinado a isolá-lo, e conseguiu-o largamente.

Hoje, contudo, o programa económico de Moussavi está mais próximo do de Rafsanjani. “Advoga a liberalização económica, compromete-se a controlar a inflação através de políticas monetárias, e a tornar a vida mais fácil às empresas privadas”, escreve o jornalista britânico Robert Fisk.

Embora os apelos de Moussavi para mais direitos para as mulheres e por maior liberdade política tenham inspirado os activistas estudantis e a classe média, não ofereceu realmente nada aos trabalhadores e aos pobres, deixando o campo livre para Ahmadinejad. Daí que o presidente iraniano tenha acusado Rafsanjani de ser corrupto durante um debate presidencial na televisão. O candidato presidencial reformista, Karroubi, falhou igualmente no que tocava a pôr as questões económicas no centro da sua campanha.

Na crise pós-eleições, as limitações da base social de apoio dos reformadores ficaram à vista. A luta para afastar Ahmadinejad necessitaria de muitas mais acções militantes de massas do que as que até agora foram vistas. Mas é, no mínimo, duvidoso que Moussavi, tendo passado as últimas três décadas dentro da hierarquia política, vá agora apelar à greve e à insurreição dos trabalhadores.

Será tentado a jogar um jogo fora-e-dentro, apelando às acções de rua mas apoiando-se em Rafsanjani, o chefe do Conselho de Discernimento do clero e um consumado manipulador, para conseguir chegar a algum tipo de acordo com Ahmadinejad.

Contudo, pode ser tarde demais para isso. Os contínuos protestos e a repressão podem compelir Moussavi e os seus aliados a construir uma qualquer forma de oposição clandestina. De facto, Ahmadinejad já acusou Moussavi de tentar montar uma “revolução de veludo”, ao estilo das manifestações de 1989 que derrubaram o regime estalinista na Checoslováquia.

Os EUA irão certamente tentar usar em seu próprio benefício a luta pelo poder no Irão, através da pressão diplomática e incrementando os esforços habituais da CIA por recrutar sectores da oposição. O que será um presente para Ahmadinejad, que poderá usar esses mesmos esforços para denunciar, ou mesmo esmagar, a oposição.

Uma verdadeira mudança democrática no Irão não virá da intervenção dos EUA, mas sim do alargamento e aprofundamento do movimento de protesto.

15 de Junho de 2009

Tradução de José Pedro Fernandes

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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2 respostas a Lee Sustar: Irão em Ebulição

  1. Pascoal diz:

    Até que enfim que aparecem aqui textos com juízo sobre o que se passa no Irão, depois da confusão do artistaço Vidal que até meteu ao barulho Badiou e Foucault e mesmo um ex-oficial da CIA.

  2. Luis diz:

    Os bétinhos de cá apoiam os bétinhos de lá. Solidariedade bétinha, que moderno!

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