Acertos e desacertos de Michel Foucault quanto à “revolução” iraniana (e Israel?)

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Alain Badiou costumava criticar Foucault por não se interessar pelo tema da verdade e, sem citar literalmente, diria concretamente que a crítica de Badiou se referia sobretudo ao facto do autor de Surveiller et Punir não militar na afirmação de uma verdade em forma de acontecimento que transfigurasse na totalidade uma determinada situação: política, estética ou científica. Transfiguração em nome de valores como a verdade, a justiça e a emancipação. A isto sempre Foucault preferiu uma flexibilidade molecular (usando o termo de Deleuze) denominada micropolítica.
Foucault, em contraposição às grandes narrativas da esquerda e extrema-esquerda dos anos 60 e 70, do trotsquismo ao maoismo, do leninismo-maoismo, ou do anarquismo ao pós-marxismo, propôs uma política específica, radicalizando uma outra hipótese, alicerçada em pequenos projectos a realizar num prazo imediato, partindo do princípio de que o homem é um animal segmentário, e as sociedades estruturadas segundo os estados modernos não são menos segmentárias que as primitivas, balançando estas ao sabor das situações e sem estado central fixo, portanto entre a fusão e a cisão, apontando para uma comunicação fácil entre forças heterogéneas e nómadas, como então se dizia.
Julgo que foi esta busca além do predominante marxismo que levou Foucault a simpatizar com a “revolução” de Khomeyni em 1979. Viu aqui Foucault, citando-o, neste “povo sem armas e de mãos nuas” uma nova força de emancipação, embora não conforme a nenhum modelo revolucionário conhecido (e daí a atracção de Foucault). Como escreveu no Corriere della Sera, em 19/2/1979, a religião não era aqui, no Irão, uma forma de compromisso, mas sim uma “força”, que lavaria todo um povo a derrubar um regime poderoso, o do Xá. Pensando eu que é o marxismo a força da política, e não a religião (ou, pelo menos, daquilo que merece o nome “política”), não posso concordar com as análises extremamente originais de Foucault sobre a “revolução” iraniana.
Mas num facto Foucault tinha plena razão (especulo eu, a partir de alguns textos): era necessária uma força naquela zona de mobilização dos “direitos dos palestinianos”. Foucault viu-a em Khomeyni, pelo menos questionou a possibilidade dessa hipótese. Não creio no islamismo como tal força, mas penso ao mesmo tempo que não se pode deixar Israel de mãos livres.

Khomeini.a

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6 respostas a Acertos e desacertos de Michel Foucault quanto à “revolução” iraniana (e Israel?)

  1. saloio_sou_eu diz:

    http://resistir.info/irao/meyssan_17jun09.html

    Leiam e,pensem com a cabeça e não com os pés…

  2. xatoo diz:

    “as sociedades estruturadas segundo os estados modernos não são menos segmentárias que as primitivas, balançando estas ao sabor das situações e sem estado central fixo”
    eh, ehe eh
    estava quase apostado em pedir ao nosso general fulano de tal os livros da contabilidade das compras para a policia de choque, gnr, militares para exportação prá Nato e afins, essas hordas primitivas de capacete, bastões, tasers e viaturas anti-motim

  3. Carlos Vidal diz:

    Exacto, xatoo, pedir a Deleuzes, Foucaults, claro (e, já agora, a Negri).
    De resto, eu também acho que o caminho é outro.
    (Mas, apesar de tudo, há alguma verdade nos autores indicados.)

  4. o sátiro diz:

    saloio, és pior k isso. És um defensor da selvajaria xiita. K tal se a tua mãe ou irmãs fossem enfiadas num saco e mortas à pedrada e fosses obrigado a fazer pontaria?

  5. o sátiro diz:

    a esquerda e extrema esquerda ( e alguma dta estúpida: gaullista) apoiaram o Khomeny pq era anti-usa. Reflexo Pavlov. A História xiita de 1400 anos fazia adivinhar um terror muito pior do k o do Xá. Mas a esquerda sempre fez revoluções sanguinárias. Pq haveria de se preocupar com isso no Irão?

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