Em arte, ética e estética apenas se cruzam NA OBRA (podendo o artista ser cobarde ou assassino, não interessa)

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Gesualdo da Venosa (1566-1613).

Não sei bem se o João Galamba me critica ou acusa por eu desconhecer que Abbas Kiarostami (permita-se-me: um dos meus “eleitos” criadores de imagens das últimas décadas) é um cobarde por ter feito um pacto de silêncio com os ayatollahs, ou me critica por eu tanto valorizar Kiarostami, apesar dele ser um cobarde cívico, tendo-se alheado da sua sociedade para não ser incomodado (no seu trabalho de cineasta, encenador ou fotógrafo).

A primeira hipótese [1] da crítica do João Galamba, julgo, incide sobretudo na “pessoa” Kiarostami, a segunda hipótese [2] (ou seja, a minha frase de que o “meu Irão” é Kiarostami) incide acima de tudo em mim, por não valorizar ou fazer ostensivamente por ignorar uma suposta relação entre ética e estética (“a arte acima de tudo, não é?”, diz-me João Galamba).

Quanto a [1], creio ter tido conhecimento algures de que Kiarostami se abstinha de falar do regime iraniano por qualquer razão, mas desse facto logo me esqueci, porque para mim a ética tem de se cruzar com a estética APENAS NA OBRA (claríssimo desde Kant, pelo menos, veja-se o seu conceito de “conformidade subjectiva a um fim” e a sua importância no juízo estético: o belo não é objectivamente externo à obra!).

Ora, se a ética diz respeito à “representação do bem” (ver a raiz da palavra e Aristóteles) e à moral (Descartes), o que diremos da pessoa de um dos maiores compositores de sempre, o madrigalista revolucionário (este sim, um verdadeiro revolucionário) Gesualdo da Venosa que assassinou a sua mulher e o amante dela, desmembrou-os e os colocou em pedaços nos jardins do seu palácio à vista de toda a gente (e consta ainda que matou o seu filho – por nele ver a “imagem” da mãe – e o seu sogro)?? A minha resposta é simples: Gesualdo era um assassino, mas a sua obra era irrepreensivelmente ética (e sobre isto não tenho nenhuma dúvida). Espantosamente sublime.

O caso Wagner também é interessante; vejamos este tópico: ao longo d’ O Anel do Nibelungo, Wagner passa de socialista revolucionário (em O Ouro do Reno) para absoluto pessimista (no Crepúsculo dos Deuses). Ora, João Galamba, é óbvio que eu posso amar esta música sem me identificar minimamente com o socialismo ou com o pessimismo de Wagner.

(E não sei se o leitor reparou, julgo que sim, mas esta é uma das questões mais interessantes sobre a obra de arte: que relação existe entre arte, artista, obra, ética e estética?)

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6 Responses to Em arte, ética e estética apenas se cruzam NA OBRA (podendo o artista ser cobarde ou assassino, não interessa)

  1. marcos seiça says:

    não costumo concordar com muito do que escreve o carlos vidal mas neste caso a razão está toda, TODA, do seu lado. clap clap clap. artistas geniais com mau carácter são às centenas. o meu muito querido ferdinand céline, por ex. o que conta é a obra e não a pessoa. se fosse esse o caso a irmã lúcia devia ganhar o nobel da literatura.

  2. Carlos Fernandes says:

    Sim, sim, artistas ( sem falar, claro, doutras profissões)cobardes, canalhas ou assassinos é o que nunca faltou nem faltará…Daqueles a quem dá vontade de lhes atirar um dos seus quadros ao “focinho” (com cuidado para não estragar o quadro, claro).

    Faltou acrescentar neste post é os corruptos e corruptores, daqueles que pagam a construção de “nomes” e “reputações” artisticas, já não falando daqueles que além disso ainda pagam para destruir a reputação da “concorrência”, sempre numerosa no caso das artes…

  3. jpc says:

    Naturalmente tem razão em afirmar que o julgamento da obra não se confunde com a apreciação – por mais legítima que esta seja – do carácter do artista. Pois claro: tem-se a irritabilidade de Beethoven, a tacanhez de Bruckner e até o ímpeto sanguinário de Gesualdo. Mas pergunto: não lhe parece que pondo as coisas em termos tais que a ideia de um “assassino genial” se torna o paradigma, abre o flanco a que lhe aplaudam o que não passa de um cliché – a impressão supersticiosa segundo a qual “artistas com mau carácter são às centenas” – dir-se-ia até que uma boa dose de mau carácter sanguinário daria mesmo um certo charme à arte.
    Não julgue mal a minha ironia. Sou um frequentador intermitente de blogs (só hoje li este post…), geralmente silencioso, e se decidi tecer um curto comentário a propósito deste post é porque, sendo um amante não menos fiel de Wagner que relativamente recente de Kiarostami (também de Gesualdo e, já agora, de Bruckner), não me conformo com a tentação esteticista de que as suas palavras poderiam considerar-se preconizadoras (embora esteja naturalmente de acordo com a premissa do non confundar entre artista e obra). Confirme-me então, se tiver oportunidade, que estou errado e que considera aliáveis “ética” e “estética” na obra de arte – como, de resto, sugere explicitamente no seu texto. Devo, terminando de seguida, alertar que a ancoragem kantiana da sua argumentação não me sossega quanto à suspeita de esteticismo – sendo claros, quanto à suspeita de se estar perante uma potencial hipóstase da esfera de autonomia das artes – pois com certeza não ignora que o juízo relativo ao comprazimento no “belo” se distingue claramente em Kant do que diz respeito ao “agradável” ou ao “bom” (claro, temos tb o § 59, mas, convenhamos, não é propriamente a moralidade de que nos fala nesse ponto Kant que nos garantirá a fertilidade do teor ético na obra de arte…). Deslocando a “ética” para a “política”, talvez o conceito de “partage du sensible” pudesse ser neste contexto de alguma utilidade. Que lhe parece?
    Saudações.

  4. Carlos Vidal says:

    Caro jpc, o seu extenso comentário coloca-me questões extremamente interessantes, deixando-me mesmo na dúvida sobre se começaria a analisar a sua abordagem pelo fim (a questão de Rancière da “distribuição” ou “partilha do sensível” que pressupõe a existência de uma estética na política) ou se pelo princípio, onde, pela extremação radical dos meus exemplos pode ser verdade que posso estar a arriscar uma estetização do lugar e “ser” do artista, aproximando-o de um inadaptado patológico ao comum (conceito que também é central em Rancière).
    Esta estetização é problemática, com efeito, e recorda-me uma recente mega-exposição, a última edição da “Documenta” de Kassel (a célebre exposição quinquenal na Alemanha que pretende ser o mais importante balanço da arte actual). Nesta última edição (2007), com efeito, todos esses clichés da arte como um mundo pré-racional, pré-mítico, mesmo alquímico (a escolha do chefe de cozinha Ferran Adrià como artista, por exemplo) ou pré-linguístico estava patente de forma desagradável – a linguagem privilegiada aí era o “desenho” e o pequeno formato, como se esta escala infra-leve fosse “o” lugar da arte (depois de eu ter visto no Pompidou o balanço do século XX sob o signo da arte contemporânea como “religião”, “Les Traces du Sacré”, a experiência de Kassel foi um acumular de indícios dessa estetização da arte como, digamos, “anomalia” que liberta o humano da sua humanidade, portanto uma experiência que certamente Kant não partilharia, sobretudo na sua definição de belo – § 59 – como algo que apraz de imediato, desinteressada e universalmente), e a arte a libertação da morte (como o mito em Hans Blumenberg).

    Contudo, permita-me que explique melhor a razão dos exemplos escolhidos (Gesualdo ou Wagner). A inspiração foi, de certo modo, Miguel Ângelo. Quando o Papa o pressionava para acabar rápido o “Juízo Final” Miguel Ângelo respondia-lhe altivamente: “estará pronto quanto eu achar a sua qualidade artística resolvida” (citação não literal). Ou seja, o Buonarrotti separava desde logo o valor simbólico (“funcional”) da obra na Sistina do valor artístico, no que podemos ver uma afirmação radical de autonomia do objecto estético que mais tarde Kant, efectivamente, sistematizará.
    Daí que eu tenha afirmado que a ética reside na obra e esta tem de responder eticamente (Buonarrotti sabia-o, e não creio que apenas o soubesse intuitivamente, era mais do que isso, claro). Por isso quando Kant nos diz que o belo simboliza aquilo que é moralmente bom, ele tem de se estar a referir à obra, e não ao artista (e aqui estamos de acordo).

    No século XX, e definindo “modernidade” foi Clement Greenberg o crítico e teórico que decidiu nomear Kant como o fundador da modernidade, ao considerar que a arte se define pela sua “pureza” artística (“Modernist Painting”, 1960), “pureza” que significa que cada disciplina artística teria de se definir por aquilo que lhe é específico e isso é também o que a distingue de outras disciplinas (é Lessing que também aqui é convocado): a pintura teria a “planitude” óptica como essência e nunca a “narratividade”, o tema ou o “assunto”. A tese de Greenberg é problemática porque supõe uma “essência” meta-histórica para a arte. O seu discípulo Michael Fried vai contestar este pressuposto, tentando propor uma historicização da obra, quer dizer, para Fried não há “essência”, há uma resposta histórica, cada época tem forçosamente uma “essência” e um conjunto diferente de problemas para “resolver”.

    Quanto ao tema da enfatização do “sensível” ou de uma estética dentro da política, em Rancière, se bem o entendo, começo por não entender sequer como ele funciona no próprio seio da arte e, por isso, tenho dificuldade em daí passar para a política (se quiser comentar isto, agradecia-lhe). Ou seja, perante o nominalismo (o gesto de Duchamp que diz que a arte não é mais do que uma “nomeação”, um “nome próprio”, e por isso De Duve nos diz que Kant faz sentido se junto a Duchamp), como funciona essa enfatização do sensível como base do “comum” (comunidade), enfatização do sensível que Greenberg denominava experiência?

    (Note que a filosofia analítica, que não é muito o meu terreno, talvez tenha resolvido melhor este problema através da noção de “proposição analítica”, que nos afirma ser a arte a fonte da sua própria legitimação, o que ligou Duchamp à arte conceptual, arte do nome, da palavra, do conceito.)

    Com toda a consideração. CV

  5. jpc says:

    Caro Carlos Vidal, parece-me ser justamente contra o purismo de compreensão da “modernidade” que Greenberg paradigmaticamente preconiza – e que de modo nenhum destoa do espírito pós-moderno no que toca à pretensa intemporalidade da arte – que grande parte do trabalho de Rancière na área da estética procura pensar.

    Penso que o mais sensato neste contexto será evitar, por um lado, a insistência na pureza – em termos de produção e de recepção – da esfera artística (quer na versão moderna, por via do isolamento de um próprio a cada uma das artes, quer na versão “pós-moderna”, por via de um ecletismo material cioso, porém, da especificidade – e da neutralidade ética/política – da experiência estética) quer, evidentemente, a sua redução imediata ao “social”, ao “político”, ao “ético” (desta postura – que Kant, antes de qualquer outro filósofo, previne – seriam exemplos contrastantes quer a remissão da esfera artística para a “super-estrutura” ideológica – marxismo ortodoxo – quer a sua submissão aos ditames do debate público – “habermasianismo”).

    Disse “o mais sensato”, à luz do problema suscitado pelo seu post: COMO pensar a relação entre ESTÉTICA e e ÉTICA (POLÍTICA) NA OBRA DE ARTE. Ou seja, não basta postular a relação, importa procurar pensá-la.

    Por outras palavras: se faz sentido pensar a arte para lá da alternativa redutora entre “historicismo” e “autonomia”, ou entre “sociologismo” e “esteticismo”, i.e. para lá da alternativa entre a redução do potencial crítico (político) da arte à figura do “engagement” e o recalcamento desse potencial crítico na figura da “arte pela arte” (cuja sedução não é alheia, passo a generalização, à pós-modernidade artística) – ou seja, se é possível pensar a relação entre ética e estética na obra de arte – então a abordagem de Rancière pode tornar-se produtiva. (Não só a de Rancière: neste ponto, Adorno, apesar das generalizações redutoras que geralmente pesam sobre o seu pensamento, representaria outra excelente pedra de toque.) Sob pena de esquematizar em demasia, apresentaria nestes termos a possível fertilidade do conceito de partilha do sensível: é na medida em que toda a política contém uma “estética” (i. e. – nos antípodas da noção de “estetização da política” – implica uma hierarquização espácio-temporal da experiência, desde a determinação por exclusão do “visível” e do “dizível” até à separação entre os que são chamados a participar da governação e os que dela se acham excluídos) que a arte, desdobrando no domínio estético (e eventualmente subvertendo) essas hierarquias sensíveis, é potencialmente política, ou seja, crítica da “partilha policial do sensível” e, finalmente, ética. (A arte relevaria, se quisermos, de uma micropolítica)

    Rancière colhe os seus exemplos sobretudo nas artes plásticas, no cinema e na literatura. Mas na música também os há: desde o final do Acto I de Don Giovanni onde danças conotadas com estratos sociais distintos são tocadas em simultâneo até, sei lá, o Coro de Berio onde se diluem ou problematizam as fronteiras entre “instrumento” e “voz” (civilização e natureza?) e entre colectividade (a massa da orquestra e do coro) e indivíduo (conjuntos instrumentais ad hoc).

    Saudações

  6. Carlos Vidal says:

    Uma vez que Clement Greenberg sempre disse que grafava o termo “pureza” entre aspas por o considerar uma ilusão, embora útil, creio poder ver afinidades entre seis ou sete hipóteses de definição da coisa artística ou obra, concentrando-se, em síntese, todas elas na obra, na “forma da obra” (ou em forma de obra):

    - a proposição analítica
    - a conformidade subjectiva a um fim (Kant)
    - a relação essência-”pureza”-experiência-autonomia (Greenberg)
    - a relação experiência-historicização (Michael Fried)
    - o acontecimento (Badiou)
    - a “partilha” do sensível
    - a minha proposta de uma ética na/da obra (eu posso não me identificar com o pessimismo de Wagner, mas admirar profundamente o modo como ele o veicula; eu posso não me identificar com a abjecção de Céline, mas admirar profundamente a forma céliniana dessa abjecção; o mesmo para Lautréamont, etc – e todas estas obras conseguem ser-são eticamente irrepreensíveis.)

    Todas estas possibilidades de definição ou entendimento da obra de arte (nalguns casos até de legitimação) se centram nos problemas da/na obra, em primeiro (ou primeiríssimo) lugar.
    Tema a desenvolver, claro.

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