Os miseráveis

Excepção feita aos miseráveis propriamente ditos (porque a miséria mesmo não tem graça), muitos parecem gostar agora da expressão “miserável”: Francisco Louçã, em entrevista ao i, à questão de saber se “os críticos do PS que votaram BE não correm o risco de voltarem à casa-mãe para impedir a vitória da direita?”, respondeu que “reconstruir o sistema para ir mantendo a paz podre de uma economia que desfaz as pessoas é uma ambição miserável”, o que terá levado o João Galamba a perguntar “o que pensam ‘bloquistas’ como Rui Tavares sobre […] a miserável entrevista de Louçã ao i?”. À parte a indelicadeza de vir chatear agora o Rui Tavares – o homem que, em Portugal, permitiu um renovado entendimento do conceito de compagnon de route, perdido desde há quase duas décadas – sobre a sua estratégia político-eleitoral, o post (algo abrupto) do João suscita-me a modesta questão: – E que estava ele à espera que o Louçã dissesse? (Se era algum mírifico retorno à unidade da esquerda à volta do PS de Sócrates, apetecia-me lembrar-lhe o poema de Brecht, “todos dizem violento o rio de águas revoltas, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem” – que eu cito de memória, provavelmente mal no pormenor, mas certo no essencial). Eu sou insuspeito de simpatias pelo Doutor Louçã (em matéria de internacionais, nunca consegui contar até quatro), mas ele há apelos, nas horas tardias, que me parecem miseravelmente atrasados.

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SEXTA | António Figueira
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7 respostas a Os miseráveis

  1. Tiago Mota Saraiva diz:

    As margens do BE empurram-no para um abismo governamental a qualquer preço.

  2. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Caro Dr. António Figueira,

    Partindo do princípio que é o António Figueira autor do ensaio “O federalismo abstracto e a nova transformação da Europa”, e não tendo outra forma de o contactar, agradecia que me dissesse, para o meu e-mail nunocardososilva@nullgmail.com, a forma como posso fazer chegar às suas mãos um artigo que escrevi sobre questões europeias, no recente número da revista Res-Publica, da Universidade Lusófona.

    Melhores cumprimentos

    Nuno Cardoso da Silva

  3. Antónimo diz:

    Por acaso achei mais estranho (mas tb não li tudo) não haver uma única pergunta sobre o PCP numa eventual coligação de poder.

    Na TVI24 (queria desenvolver mais, mas aproveito a boleia), ontem, Henrique Garcia falava com Constança Cunha e Sá a propósito de alianças do PS com a esquerda, e só falou no BE. Ora, eu gostava de
    perceber o eventual papel do PCP nestas eventuais coligações.

    Ora, eu não sei se é falta de ética, deontologia, burrice, falta de espírito jornalístico, preconceito.

    Mas que é um trabalho de merda lá isso é. O Nuno Ribeiro de Almeida podia passar-lhe este comentário, que pode ser que jornalistas velhos aprendam línguas.

    Ontem, também, conseguimos ter várias mitos da interpretação e análise jornalística – daqueles que nos explicaram como chegar até aqui e que agora sem um sorriso de vergonha nos continuam a explicar como chegámos cá – na SIC-N: José Manuel Fernandes, Bettencourt Resendes, Sarsfield Cabral e Luís Delgado.

    Pouco depois, em mais uma manifestação de isenção e pluralismo jornalístico e comentador, Santos Silva e Morais Sarmento falavam (com Paulo Magalhães) dos seus pontos de vista.

    Por este pluralismo todo é que passei a só ler jornais na net. Eles não me dão o que eu quero, eu faço o favor de não os comprar.
    Faço-lhes o favor de seguir a lógica do mercado e imagino que eles agradecem que eu lhes siga a catequese.

  4. Antónimo diz:

    O Vital Moreira também tem sido um compagnon de route razoável.

    Mas o Galamba deve ter apreciado.

  5. Sérgio Pinto diz:

    Tiago,

    Não lhe parece um bocado abusiva essa afirmação, sem qualquer referência concreta?

  6. António Figueira diz:

    Antónimo,
    Confesso que também achei a entrevista tão interessante (ou mais) pelas omissões do que pelas afirmações, mas aí a verdade é que a culpa é tanto (ou mais) da entrevistadora como do entrevistado.
    Cumps., AF

  7. Antónimo diz:

    AF, Louçã faz o que julga que lhe compete, mas que me parece absolutamente sectário. Confesso que a IV Internacional tb me desmotivou bastante no arrastão lançado pelo arrastão no 1º de Maio.

    No sectarismo à esquerda (deixo o P«S» de fora da esquerda) e na comunicação social – ana sá lopes tb é um claro exemplo de má actuação jornalística, faz perguntas pelo amor partidário em vez de fazer as perguntas que interessam a muitas pessoas – acho que há uma metade que não tem o gozo da fama, embora eu não perceba pq.

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