Os miseráveis

Excepção feita aos miseráveis propriamente ditos (porque a miséria mesmo não tem graça), muitos parecem gostar agora da expressão “miserável”: Francisco Louçã, em entrevista ao i, à questão de saber se “os críticos do PS que votaram BE não correm o risco de voltarem à casa-mãe para impedir a vitória da direita?”, respondeu que “reconstruir o sistema para ir mantendo a paz podre de uma economia que desfaz as pessoas é uma ambição miserável”, o que terá levado o João Galamba a perguntar “o que pensam ‘bloquistas’ como Rui Tavares sobre […] a miserável entrevista de Louçã ao i?”. À parte a indelicadeza de vir chatear agora o Rui Tavares – o homem que, em Portugal, permitiu um renovado entendimento do conceito de compagnon de route, perdido desde há quase duas décadas – sobre a sua estratégia político-eleitoral, o post (algo abrupto) do João suscita-me a modesta questão: – E que estava ele à espera que o Louçã dissesse? (Se era algum mírifico retorno à unidade da esquerda à volta do PS de Sócrates, apetecia-me lembrar-lhe o poema de Brecht, “todos dizem violento o rio de águas revoltas, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem” – que eu cito de memória, provavelmente mal no pormenor, mas certo no essencial). Eu sou insuspeito de simpatias pelo Doutor Louçã (em matéria de internacionais, nunca consegui contar até quatro), mas ele há apelos, nas horas tardias, que me parecem miseravelmente atrasados.

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SEXTA | António Figueira
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