Veneza, a Bienal e um livro do seu actual director, Daniel Birnbaum

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Pavilhão dos EUA, 2007 (com escultura de Felix Gonzalez-Torres).

Tentaria dar uma curta hipótese de mote para a actual (a 53ª) edição da Bienal de Veneza, na medida em que ainda não a visitei (só lá passarei, por causa de obrigações académicas, por volta de Outubro). Não a tendo visitado, passaria a um comentário fundado no último livro do seu actual director, Daniel Birnbaum, filósofo e crítico de arte, director da Städelschule e da conhecida Galeria Portikus de Frankfurt. Este seu último livro, Chronology (Sternberg Press, 2005) coloca-nos questões interessantíssimas sobre a imagem em movimeto na arte mais recente, tratando de artistas como Eija-Liisa Ahtila, Dominique Gonzalez-Foerster ou Stan Douglas, a partir de um conflito entre tempo e movimento, considerando as balizas propostas por Gilles Deleuze nos seus estudos sobre cinema. O ponto de onde parte Birnbaum é mesmo o de Deleuze no Cinéma 2: L’Image-Temps. Para Birbaum, seguindo Deleuze, da Grécia a Kant, a temporalidade foi deixando de estar subordinada ao movimento. “Time is out of joint” cita Deleuze de Shakespeare, para nos fazer considerar a hipótese não do tempo subordinado ao movimento, mas do movimento subordinado ao tempo. Tal tem implicações interessantes ao nível da videoarte. Especulo eu: quando o tempo se subordina ao movimento, a obra, o vídeo tende para a narrativa, para o enredo, a história (tipo Bill Viola), quando o movimento se subordina ao tempo, o vídeo tende para uma dimensão espectral das imagens, não há enredo, história, narrativa. Há experiência do tempo, como coisa pura, sem mais.

Três artistas foram por mim escolhidos de entre nomes recentes para ilustrar esta dimensão do vídeo como experiência do tempo, artistas também analisados por Birnbaum:

No vídeo Consolation Service (1999), de Liisa Ahtila, um casal confronta-se indefinidamente, através de comportamentos estranhos, com a decisão do seu divórcio.

Em Inconsolable Memories (2005), Stan Douglas mistura o documento e a realidade, o passado e o presente, o real e a ficção, fazendo do seu protagonista um duplo de um protagonista de outro filme (o filme de Stan Douglas é um remake de um outro de Tomás Gutierrez Alea, de 1968); o protagonista deste filme de Douglas é, para todos os efeitos, alguém que está perdido no tempo e espaço.

Em Hong Kong (2000) da série Parc Central, Dominique Gonzalez-Foerster leva esta experiência do tempo aparentemente vazio à extrema radicalidade: aparentemente nada se passa nesta sua obra.

Destes três nomes, Dominique está em Veneza, na mostra Making Worlds, que obviamente recomendo a quem puder lá passar, baseando-me no meu interesse pelo trabalho de ensaísta e curator de Daniel Birnbaum.


Eija-Liisa Ahtila. “Consolation Service”. 1999


Stan Douglas. “Inconsolable Memories”. 2005


Dominique Gonzalez-Foerster. “Hong Kong”. 2000

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7 respostas a Veneza, a Bienal e um livro do seu actual director, Daniel Birnbaum

  1. Isto é interessante. Vou à Bienal de Veneza na primeira semana de Setembro e vou estar atento.
    Este tema do “time out of joint” é bastante relevante. Não sei muito bem o que pode ser a “experiência do tempo”. Ao ver estes elementos parece-me uma espécie de “jouissance temporel”.

  2. ezequiel diz:

    esta sua especulação é muito interessante.

    “quando o movimento se subordina ao tempo…” não há narrativa.

    não me parece correcto, caro Professor. o tempo puro, sem mais, simplesmente não existe. o tempo é uma vivência e as vivências jamais são puras ou sequer límpidas. mas gostei muito da forma dicotómica como colocou as coisas. o sr tem uma certa tendência para o either/or…ou é o tempo subordinado ao movimento ou vice versa.

    n se esqueça que as narrativas não são puramente linguísticas ou sequer textuais, como bem sabe. (votre métier) se há movimento, há narrativa (mesmo sem movimento tb há narrativa)

    há narrativa, sempre.

    o tempo puro ou não existe ou é uma ficção fantabulastica em que muitos acreditam.

    bons dias.

    cumps
    ezequiel

  3. nf diz:

    A tese do Deleuze é bastante interessante. De certa forma, ele diz que o cinema, a arte por excelência do século XX, produz as condições imagéticas para a experiência do tempo e do espaço. O cinema cria ‘blocos’ de tempo e de espaço. Ele é por isso transcendental. Mais concretamente, o cinema moderno (pós-guerra) produz imagens-tempo, ou apresentações directas do tempo, onde é precisamente o tempo, emancipado do esquema senso-motor percepção-afectação-acção, que se mostra como aquilo que faz a diferença: o diferenciador da diferença. Este é o tempo puro já que tudo se transforma (ou devém) posto que a forma do tempo permanece inalterada. O tempo puro ou ‘out of joint’ (que Deleuze vai buscar, por assim dizer, ao paradoxo do sentido interno de Kant) é o tempo do evento que separa passado e futuro como duas dimensões divergentes e irreconciliáveis do tempo. Não cabe aqui a análise que Deleuze faz do cinema do pós-guerra mas poder-se-á dizer que o cinema moderno (não todo, claro está) apresenta este tempo. O tempo puro ou diferenciador não é exclusivo à semiótica e imagética cinematográfica – ele é a forma do devir. Neste sentido o cinema revela ou apresenta aquilo que está presente em todas as outras artes já que a criação pressupõe essa cisão entre o passado imemorável e o futuro irrepresentável. Isto para dizer que será talvez interessante rever as artes visuais à luz da leitura filosófica da imagem cinematográfica, mas não somente os exemplos que empregam o áudio-visual, seja vídeo, cinema ou televisão. Como arrancar este tempo puro das artes ‘estáticas’?

  4. almajecta diz:

    na narrativa e nas grandes narrativas ninguem toca, ouviste carlos? Abstracções, idealismos e racionalidades cavernosas, fora fora. As metáforas e metonímias dos nossos artistontos de Venezia estão mui no mundo do Hades, o próprio.

  5. almajecta diz:

    ao que parece os tempos estão a fazer voltar a indústria da cultura ao redil, modos de fazer mundos, ansiedade da influência e o não espectáculo, mas ainda com o oyvind fahlstrom o tiravanija e etc e tal. Estes videos de divulgação acima nesta posta são sem comentários.

  6. Toda a representação/apresentação é uma metáfora do tempo ou do espaço onde o sujeito está mergulhado; a narrativa é inerente ao sujeito, por isso toda a representação/apresentação é narrativa/metáfora; seja dando prioridade ao tempo ou ao espaço, ou tentando a simultaneidade, como aconteceu com o cubismo.

  7. almajecta diz:

    a imagem do pavilhão dos E.U. ilustra a já muito batida indústria cultural das agências, plataformas e observatórios, rosa desmaiado portanto.

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