Como foi o teu dia?

Numa passagem célebre, Jorge Luis Borges coloca um narrador a
conversar com um velho chinês. Esse homem explica que existem no mundo
uma infinidade de possibilidades que coexistem num mesmo tempo, mas em
mundos paralelos – como na parábola do gato de Schrödinger, fundadora
da moderna física quântica, em que num momento em que abrimos uma
caixa com veneno e um gato, o felino está ao mesmo tempo morto e
vivo. Dizia o chinês da história de Borges: “não existimos na maioria
desses tempos; em alguns existe você e não eu; em outros, eu, e você
não; em outros, os dois. Neste que a sorte me permite, você chegou a
minha casa; em outro, você está atravessar o meu jardim e encontra-me
morto”.
O amor é um verdadeiro acaso. Escrevia acertadamente Niklas Luhmann,
“o amor não é apenas uma anomalia, mas antes uma improbabilidade
absolutamente normal”. A paixão é um elixir que nos
permite dar sentido à mera desordem e acaso.Para quem não acredita que o mundo que existe é o único possível, a
experiência é conhecida e poderosa, apesar de a temermos ilusória. A
política paixão é uma pequena faísca num mundo escuro. Não há finais
felizes, mas nada impede de desejar uma explosão criadora. O
romantismo negro de Rimbaud, Baudelaire e Verlaine tinha o programa de
mudar a vida. Mudar radicalmente e totalmente a vida. Não admira a
exaltação apaixonada da revolta. Apesar de saberem que a guerra destes
novos anjos revoltados contra o poder de Deus e de todos os poderosos
é uma guerra perdida, acreditavam nesse grito contra a adversidade. O
grito como a paixão permitem parar o tempo, transcender a morte. Como
escrevia Giambattista de Marino, no seu Satã, “mesmo se tombarmos
vencidos, ter tentado tão alto feito é ainda um triunfo”.
O romantismo negro paga poucas contas. Safamo-nos melhor comprando uma
bimby, inscrevendo-nos no PS ou no PSD ou lendo o “Método de Engate” do
celebrado Tony Clink. Na página 82, desta importante obra,
injustamente menos celebrada que Ovídio e a sua Arte de Amar,
revela-se que “como foi o teu dia?” é uma excelente frase de engate.
Funciona melhor numa situação social e (isto é importante) é melhor
“não usar esta abordagem inicial logo pela manhã. É melhor esperar
pelo final da tarde” . Está-se sempre a aprender.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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6 respostas a Como foi o teu dia?

  1. carlos graça diz:

    Gostei muito. Sou também um “fã” do Luhmann ( para quem o Amor é também ele uma paixão)…

  2. c diz:

    Ai , os gajos , eternamente ignorantes naquilo que representa o dia a dia em paz. Vão à luta , aos murros e pontapés , é aí que alguns sois bons e aniquilais os maus ( de aí a taxa de abstenção , não foram feitos para votar , foram para lutar). E jamais discutam de manhã no lar.

  3. Ricardo diz:

    Era só para comentar que a quantica e o gato de Schrödinger dispensam com mundos paralelos. Aliás, os mundos paralelos parecem é ser uma forma simpática de fugir à compreensao da quantica. A experiencia retrata NESTE mundo, um gato que está ao mesmo tempo vivo e morto, pelo simples facto que nao podemos olhar para dentro da caixa. E isso é um ponto fundamental.

  4. Quanto ao gato e à caixa, não sei se percebi. De tudo o resto gostei de relembrar e rever.

    (só não acho bem publicar boas frases de engate na blogosfera; qualquer dia já não há frases de engate… 🙂

  5. Gostei muito, especialmente da referência a esse vulto literário que é o Tony Clink. Sem tangas, belo texto.

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