


É triste, muito triste e eu tenho mesmo muita pena, mas é verdade: terminou em 15% (quinze por cento, e um pouco mais) a aventura da Terceira Via ou “New Labour”, também conhecido como “o modelo social para o século XXI” (noutro planeta, claro), iniciada em 1997 por Tony Blair e Anthony Giddens (que será, brevemente, matéria para alfarrabistas).
1.
Note-se que esta Terceira Via nunca foi a defesa de algo entre o marxismo e o capitalismo, mas antes uma experiência, digamos sinteticamente, muito mais à direita, pois inclusive pressupunha o abandono do paradigma social-democrata: a Terceira Via situava-se pois entre a social-democracia e o capitalismo.
Ora, um dos problemas desta infeliz “ideia” política foi o de se implantar melhor dizendo aquilo que não era do que aquilo ao que, no fundo, vinha: continuar Thatcher por outros meios e palavreado, por isso nem o capitalismo soube recauchutar. Giddens não era mais socialista, porque para ele o socialismo tornou-se uma forma de conservadorismo, ou uma prática cujo único fim era preservar, a todo o custo, o que restava do Estado Providência. Mas não se definia como neoliberal, pois os impactes da globalização sem Estado Providência seriam enormes, tão negativos quanto os impactes ecológicos.
2.
No fundo, no fundo, por estas bandas do pensamento político nunca houve nada de particularmente interessante (nem novo) quando tentamos, por exemplo, comparar isto ao conservadorismo pós-industrial de Daniel Bell, muito mais antigo. E já em 1960, escrevia Bell no seu The End of Ideology: “Poucos espíritos sérios ainda acreditam que é possível preparar ‘planos’ e, por meio de ‘engenharia social’, construir uma nova utopia de harmonia social. (…) Poucos liberais ‘clássicos’ insistem hoje para que o Estado se mantenha à margem da economia, e poucos conservadores sérios (…) vêem no Welfare State um ‘caminho para a servidão’. Há hoje, portanto, no mundo ocidental, um certo consenso entre os intelectuais a respeito dos problemas políticos: a aceitação do Estado assistencial, a preferência pela descentralização do poder, pelo sistema de economia mista e de pluralismo político. Neste sentido, pode-se dizer que a era da ideologia terminou (…).”
Aliás, Bell sempre foi um personagem bem mais interessante do que a dupla Giddens/Blair. Homem de contradições, definia-se como socialista na economia e conservador nos costumes, enquanto a dupla Giddens/Blair era, vendo bem, neoliberal na economia e conservadora nos costumes. Um terrível problema e um terrível momento da história recente.
3.
Assim sendo, o que possuía então de novo esta dupla Giddens/Blair?
A sua “novidade” foi muito bem descrita por Richard Gott na New Left Review de Maio-Junho de 2005, recenseando o autor talvez o maior estudo ou biografia de Tony Blair já publicado: o Blair de Anthony Seldon (Londres, Free Press, 2005). A síntese de Richard Gott é devastadora e Blair, com efeito, não é nada mais do que isso; em suma, nada de nada: “None of New Labour’s projects were original. The Northern Ireland policy
that produced the Good Friday Agreement of April 1998 was the dream
of John Major; he had put in the spadework. The process of decentralization,
which led to the creation of political assemblies in Scotland and Wales, was
the handiwork of John Smith, Blair’s predecessor as Labour leader. The
private finance initiative (pfi)—the introduction of private firms into the
provision of education and health in the public sector—was one of several
outlandish schemes first discussed in the Thatcher years. City academies,
the retention of grammar schools and the device of top-up fees to help fund
the universities were all Conservative proposals. Only the enthusiasm for
war, the strategy of reforging the Anglo-American alliance and the resurrection
of imperial ambition can be laid at Blair’s door”
E parece-me que fica tudo dito.
Entretanto, terminada em desastre esta aventura da guerra “bushista-blairista”, ou melhor, terminada esta “empresa” iraquiana em grave crime contra a humanidade, o que fica então deste disparate sem nome que, apesar disso, sem nome nem substância, se chamou Terceira Via? Fica, merecidamente, um partido desfeito e reduzido a 15% do eleitorado, a terceira ou quarta força política da Grã-Bretanha!


4.
Embora de outro modo e percorrendo outro caminho (por exemplo, não houve por estas bandas nenhuma guerra) não poderá vir a ser este o desfecho e o fim do partido de Soares-Sócrates? Poderá vir a ter um fim muito diferente este partido português de socialismo na gaveta desde sempre?
Eu creio bem que não.





Antony Giddens é umguru para a malta do PS,esse partido ‘sem ideologia’.Ensinado onde o Ferro Rodrigues dava aulas antes ‘disto’,do ‘caso’,da ‘cabala’-tb eu penso que é uma cabala,só que incompleta….
O Tóni é um crâneo aposto, com a sua conta bancaria bem recheada mas isso, já é materialismo histórico pra não dizer dialéctico.
O homem é uma merda pq se construísse aviões, já cá estavam todos no chão em pedaços.Com dizem os russos gavarit,ie,um palrador,vendedor de pentes…
Citando-me, o que é um pouco seròdio, eu sei: como escrevi em tempos na Pastelaria, a cara de parvo do Blair nunca me enganou. Agora a a subida da extrema-direita é que é muito preocupante!
http://wwwmeditacaonapastelaria.blogspot.com/2008/01/desculpem-l-o-post-ser-to-grande-mas-h.html#links
Ana Cristina, para o Bidal, em Inglaterra tal como em Portugal, é necessário que o respectivo”PS” se lixe. Que a extrema direita suba, é apenas um dano colatral.No entanto , para quem ficou com 10% em 4º lugar, o moço aspira a muito pouco. Como diz o povo, quem nasce para terno, não chega a valete.
E porque será que a extrema direita cresce?
Olhem bem para os figurões das fotos, diversão e tal, “esquerda moderna”, enfim….
Por outro lado, a extrema direita, a médio prazo, também será “centrão”, por isso, qual é a preocupação?
“a Terceira Via situava-se pois entre a social-democracia e o capitalismo”.
Ainda que considere o post interessante não se entende a frase anterior que escreveu.
Então a social dmocracia não é uma “forma” de capitalismo?
Pingback: Leitura recomendada « (Re)Flexões
Caro ruy,
Se cuidarmos da matriz da palavra e do conceito, no século XIX, concluiremos facilmente que a social-democracia não é uma forma de capitalismo. Talvez o meu caro esteja a considerá-la agora, apenas no chamado “nosso tempo” (e também a pensar no socialismo “engavetado” por Mário Soares).
No século XIX, ou melhor, desde o século XIX, a social-democracia era uma via para o socialismo, uma via reformista que não pressupunha o evento revolucionário. Tratava-se de ir reformando o capitalismo sem um corte histórico-social.
Mas, várias correntes do marxismo não aceitavam esta hipótese.
Resumidamente, se quisermos recorrer à sociedade inglesa, podemos dizer que ela tinha traços social-democratizantes antes de Thatcher e de Blair, em sectores centrais da vida social e económica como a saúde e a educação.
Com Thatcher e Blair (e o texto da New Left que eu cito não os distingue nem política nem economicamente) a entrada dos privados, ou a privatização dos serviços públicos (hospitais e universidades) – privatização, disse eu, por isso não se tratava de uma simultaneidade de público/privado – com a privatização dos serviços outrora públicos tentou-se o que Giddens (e Blair, ou o que Giddens ensinou a Blair) teorizou como Terceira Via, a tal opção que nem correspondia mais à social-democracia (anterior) nem ao neoliberalismo. Mas, claro, como com Thatcher e por sua vontade, na posterior Terceira Via o que se impôs foi o neoliberalismo.
Que deixa o futuro do Partido Trabalhista grandemente comprometido.
Portanto, Blair deu-lhe três maiorias seguidas, mas, ainda não sabemos, talvez tenha destruído por completo o partido.
Caro Carlos vidal, não creio, no contexto em que escreveu, se referisse à social democracia de Rosa Luxemburgo. Pelo menos eu não o entendi assim.
Caro ruy,
Em primeiro lugar, o problema que se nos coloca actualmente, seja na Grã-Bretanha, seja em Portugal, é o seguinte, creio: antes de sabermos se a social-democracia é ou não uma forma de capitalismo (e ela é capitalismo, intentando reformá-lo), o primeiro problema desta discussão, dizia, reside no facto de na Grã-Bretanha e em Portugal a social-democracia não ter nenhuma força política que a represente.
O que dificulta a discussão.
Caro Carlos Vidal,
completamente de acordo.
e assim se vão afundando a celta editora e a polity press, outra coisa não seria de esperar tal a indigengencia dialectica nascida nas ilhas da grande bretanha. Esquece a tradição do Saint -Simon, mais as fantasmagorias dos sistemas periciais, estica-te, vai e vem e passa a outra.
a Terceira Via situava-se pois entre a social-democracia e o capitalismo.
Estranho!
Então a Social Democracia não se integra no”Modo de Produção Capitalista”?
Caro José Ferreira da Silva,
Não leu atentamente os comentários: coloca-me a mesma questão que ruy, comentário de 9 de Junho, 19:35.
Desde aí mantivemos (ver acima) uma conversa em 5 comentários onde o problema que me coloca está, creio, explicado.
Isto do desporto e da via já não é um regalo, esquece e passa a next.