A poucos dias das eleições europeias

Estamos já a poucos dias das eleições para o Parlamento Europeu, no domingo. Já aqui chamei atenção, com preocupação, para a elevada taxa de abstenção que se prevê.  Quase finalizada a campanha, lamento que tenha sido uma oportunidade perdida para o eleitorado discutir e esclarecer-se sobre o que tem significado a nossa adesão à União Europeia e o se prevê para o futuro, em particular tendo em conta o Tratado de Lisboa. Aquele cujo conteúdo fez com que toda a Assembleia da República, unanimemente (passe a redundância), revesse a Constituição da República Portuguesa com o objectivo único de permitir o seu referendo (na altura sob a designação equívica de ” Tratada da Constituição Europeia”). Mudou o nome, manteve-se o conteúdo, esquecida a promessa por parte do bloco central: porreiro, pá. Esse mesmo tratado, que é motivo de grande orgulho do Sócrates, cujo cariz marcadamente neo-liberal, faz ocas as críticas que Sócrates tem demagogicamente feito a esse sistema económico. De que vale criticar “os excessos” do neo-liberalismo, se continua a apoiar o Tratado que o aprofundará a nível europeu. A campanha não serviu para esclarecer o conteúdo do Tratado, e fazer notar os avanços militaristas para a Europa que implica. Sócrates até nisso confunde patriotismo com defesa da soberania nacional. Invoca o patriotismo para defender a continuação de Durão Barroso na Presidência da Comissão Europeia (sobre o qual Vital Moreira deu mostras da sua independência, dando o dito por não dito). O mesmo Durão que hospedou a Cimeira dos Açores, reunião preparatória da invasão e ocupação do Iraque, à qual maioria da população portuguesa (e mundial) se opunha. Alguns partidos quase nem fizeram referência à Europa e questões europeias na sua campanha, caso do CDS-PP. Mas o mais tragi-cómico da campanha foi, para mim, a auto-vitimização que o PS construiu em seu torno. Houve todo o foclore hiperbólico em torno do 1º de Maio. E hoje vejo um outdoor do PS que tem o seguinte dizer: “O PS combate a crise. Os outros combatem o PS.” Este outdoor ultrapassa a imagem assustadora da pálida Manuela Ferreira Leite. O PS tem o poder executivo e a maioria na Assembleia. Haviam de ser os outros partidos a combater a crise? E isso admitindo que as medidas do PS têm sido de combate à crise. Pois na verdade ficam muito aquém disso, e algumas delas propagam as suas causas subjacentes. Por isso os ataques ao PS. Coitadinho. Nunca se deu bem com a crítica, nunca se prestou a aceitar propostas da oposição consequente de esquerda, sempre viu como obstáculo molesto as manifestações de protesto e defesa de direitos conquistados. Pobrezinho, ninguém o entende. Nem ele se explica. Que havia de fazer? Admitir que não são os ideias da modernização e da responsabilidade que serve, mas sim os interesses do grande capital nacional e europeu.

Com um governo assim, face ao balanço de 33 anos de política de direita e de quase 25 anos de adesão à UE (ou serão 24 ;), um cidadão minimamente responsável não pode deixar de ir às urnas e exprimir a sua opinião. Vote em branco, vote a raiva e anule o boletim, vote num dos partidinhos novos e misteriosos, ou, melhor ainda, vote numa força partidária de confiança que defenda a soberania e os interesses nacionais e trabalhe por uma outra Europa, de cooperação e paz. (No meu blog, Jangada de Pedra, justifico o meu voto pessoal na CDU.)

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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2 respostas a A poucos dias das eleições europeias

  1. Pouco a pouco se irão multiplicando, já somos dois.

  2. djugashvili diz:

    Já somos três!

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