A morte do Museu de Arte Popular

Ontem saiu em Diário da República o decreto fúnebre do Museu de Arte Popular (Resolução do Conselho de Ministros n.º 42/2009). Mais um Museu que desaparece (substituído por um Museu da Língua, certamente, para alimentar alguém), mais um ajuste directo, mais um projecto escondido dos cidadãos para a Frente Ribeirinha de Lisboa.
A total impunidade com que governo e as mafiosas sociedades que constitui têm actuado,  faz com que, embora sob contestação, na Resolução do Conselho de Ministros não haja qualquer tentativa de enunciação de uma explicação técnica para a decisão:

“Atenta a localização deste novo projecto estruturante, bem como a plena integração deste novo espaço nos objectos e linhas de orientação definidos para a área de intervenção Ajuda-Belém, são evidentes os benefícios resultantes da integração deste projecto no âmbito das operações de requalificação e reabilitação da frente ribeirinha em curso nesta área.”

Para o governo é evidente que se deve dar à Sociedade Frente Tejo, S. A., 9.000.000 € (de acordo com o DR) para que os seus administradores possam decidir como será o futuro Museu e distribuir esta verba por quem o seu Presidente tem “confiança pessoal e profissional”, a manter-se o critério utilizado na escolha do projectista para o Terreiro do Paço.

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14 respostas a A morte do Museu de Arte Popular

  1. javali diz:

    Agora percebo o Acordo Ortográfico. Tiveram que decretar o fim do Português correcto para enfiar o seu esqueleto num museu.

  2. República das Bananas e dos Cavaquinhos

    Neste momento o nosso país está a sofrer as consequências de ser uma república, um presidente que foi primeiro ministro tem neste momento a sua credibilidade política fragilizada graças aos seus laços políticos com gestores e administradores do BPN. Jamais isto poderia acontecer numa Monarquia, em tempos ouviu-se :

    AFONSO COSTA – Por muito menos rolou no cadafalso a cabeça de, Luís XVI

    Ups quem devia ir a seguir ?

    O nosso Rei não !

  3. Nem quero acreditar!!!

  4. Rosa Pomar diz:

    Atenção, que o Museu de Arte Popular nunca foi extinto e fechou no decurso das obras de recuperação (financiadas pela UE, diga-se se passagem).

  5. luís afonso diz:

    na sessão de apresentação do projecto do terreiro do paço na ordem dos arquitectos, tive oportunidade durante o debate que se lhe seguiu de confrontar directamente o presidente da frente tejo, joão biencard, com este ajuste directo mantido em segredo. seguramente incomodado não ousou sequer responder à pergunta. além da falta de respeito e ética, fica patente a esperteza saloia de quem ainda pensa que nos dias de hoje se consegue manter uma decisão destas em segredo. realmente torna-se difícil a ordem dos arquitectos se pronunciar, como seria sua obrigação reguladora e moralmente insuspeita, sobre este tipo de ajustes; ou não fizesse parte da equipa projectista um atelier de arquitectura cujo sócio é membro eleito da secção regional sul em cargo de elevado destaque hierárquico… onde já vai o vício!!!

  6. Su diz:

    Até parece que esta é uma situação recente!! Acordaram agora para a vida ou é só aborrecimento de não se fazer parte do clube dos privilegiados?
    Basta ver, desde há anos sem fim, que a esmagadora percentagem dos concursos públicos são para empreitadas e que concursos de concepção são raros. Donde surgem os projectos posteriormente sujeitos a concurso para obra, pela graça do divino??…

    Perguntinha de algibeira: será isto legal?

  7. luís afonso diz:

    cara su
    é óbvio que todos nós sabemos que esta não é uma situação recente.
    e a ironia era dispensável; ninguém acordou agora para a vida ou está aborrecido pela exclusão do clube dos privilegiados (palavras suas); este tipo de privilégios não me cativam, repugnam-me antes. qualquer profissional que aja segundo o dever deontológico que a todos nos abrange deveria saber isso.
    no entanto nunca é demais a denúncia de tais situações; é de salutar que este tipo de assuntos comece a ser realmente discutido no seio das várias instituições… foi somente esse alerta que quis referir.
    em relação à legalidade deste tipo de procedimentos… sendo actos admnistrativos, carecem de queixa para que possa ser desencadeada uma investigação, e confirmada (ou não) a sua legalidade. se ninguém o fizer, passam incólumes, sem fazer barulho. mais uma vez fica expressa a pertinência de tais alertas.

  8. Su diz:

    Caro Luís Afonso, perdoe-me a ironia, se lhe caiu mal. É provavelmente um péssimo hábito meu.
    Então quando a conversa recai sobre estas questões de ordem deontológica na nossa profissão…
    São tantos os problemas que nos afectam, e tão pouco o que vejo ser feito para que, ao menos, se discutam. Parte daí a minha ironia e igualmente do facto que as carapuças só assentam a quem tem motivos para as enfiar.
    Relativamente ao assunto em apreço, por um lado este até poderia já estar sanado se soubéssemos agir como classe, o que infelizmente não se verifica. Os ajustes directos continuam a ser despudoradamente feitos porque há colegas que alinham no esquema. “Agora sou eu, depois és tu” and so on… Mais relevante é o timming. Já era de esperar que esta questão fosse despoletada numa conjuctura como a actual, de enorme recessão no sector. Não há atelier que não se esteja a ver “à rasca”, com projectos estagnados ou mesmo abortados e honorários por receber.

  9. Tiago Mota Saraiva diz:

    Caros Luís Afonso e Su, lamento mas desta vez não concordo convosco.
    Antes de colocar a questão em termos deontológicos, se o arquitecto deve ou não aceitar a encomenda, a questão dever-se-á colocar em termos de cidadania analisando a forma como o Estado distribui trabalho pelos seus amigos. Ou seja, não acho que o ataque deva ser feito à equipa projectista mas sim ao arquitecto que está à frente da Sociedade Frente Tejo e que tem responsabilidades públicas nas gestão dos dinheiros/território/edifício que é de todos.

  10. luís afonso diz:

    caro tiago
    também eu não quero “crucificar” a equipa projectista à partida.
    é claro também para mim que a questão se prende primeiro com a falta de responsabilidade cívica demonstrada pela frente tejo e do seu presidente (por sinal arquitecto tb). os dinheiros públicos são por definição de todos nós e por isso mesmo o seu gasto tem que ser sufragado democraticamente.
    como neste caso existe um regime de excepção em relação à frente tejo, legalmente esta sociedade tem legitimidade para fazer o que faz. contudo a questão fará sempre sentido no plano deontológico.
    dito isto, considero no entanto que as equipas projectistas que aceitam este tipo de ajustes fazem-no com consciência absoluta que este tipo de procedimentos estão feridos de vício e que são condenáveis. por isso digo que também elas deveriam ser chamadas à razão.
    não podemos continuar todos a assobiar para o lado, sacundido sempre a água do capote e arranjando todo o tipo de subterfúgio para legitimar o que de incorrecto se vai fazendo.
    no fundo, acho que os nossos pontos de vistas não diferem assim tanto uns dos outros. acredito que o busílis da questão é e sempre será a luta pelo acesso livre e democrático à encomenda pública; e pelo efectivo regular do nosso ofício e dos actos praticados pelos profissionais da classe.

  11. Tiago Mota Saraiva diz:

    Caro Luís, percebo e concordo com o seu ponto de vista.

  12. Su diz:

    Tiago e Luis Afonso, concordo convosco e acho que todos aqui apontámos vertentes do mesmo problema. Aproveitemos pois a altura para não se deixar cair a questão. Sobretudo porque, e isto é que é importante, TODOS os cidadãos ficariam melhor servidos, com melhores projectos por menos dinheiro. Porque isto dos ajustes directos é também um sorvedouro de dinheiros públicos…
    E o facto das obras andarem a reboque de calendários eleitorais e “das festas” é uma palhaçada, que custa caro a país e a ninguém serve, com excepção óbvia dos abutres políticos.
    Será possivel que não consiguemos tirar uma única lição desta crise para que se mude algo? Olhe Luis, eu sou muito irónica, mas confesso-lhe que ainda não perdi totalmente a fé nas pessoas.
    Tenham excelente fim de semana!

  13. Alexandre Pomar diz:

    De facto, não se trata de um decreto e o MAP não desaparece, porque não foi extinto nem o Museu da Língua é instituído – e alias não sabem ainda se este deveria se um museu do IMC ou semi-público, ou uma fundação. A Resolução apenas atribui à Frente Tejo a tarefa de entrar pelo MAP dentro e tranformá-lo em MLP, mas não assegura a legalidade dessa intromissão. Usando o facto de não haver director e de o edifício estar em obras (destinadas à requalificação das instalações do MAP e em parte pagas pelo POC), o que justificou a transferência da colecção para Etnologia, ocupa-se e altera-se a cas para outros fins, tentando fazer vingar a política dos factos consumados. Falta saber se a protecção patrimonial em vigor (ZEP dos Jerónimos) o permite e se nós deixamos. A.P.

  14. Tiago Mota Saraiva diz:

    Caro Alexandre Pomar, obrigado pelo seu comentário esclarecedor.
    De qualquer forma tomando como regra outros casos, se os cidadãos não se mantiverem atentos, a ZEP vai à vida em três tempos.

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