O problema filosófico do “Arrastão”
27 de Maio de 2009 por António FigueiraAlasdair MacIntyre, um dos mais interessantes filósofos políticos da actualidade, identifica como problema central da prática e do discurso políticos contemporâneos o da sua fundamentação erga omnes – ou seja, o da sua legitimação.
MacIntyre parte da contradição aparentemente universal e inevitável entre a moral e a história para concluir, ao cabo de um percurso pessoal longo e sinuoso mas sempre muitíssimo estimulante, que a legitimidade política pode (tentativamente) ser estabelecida por um conjunto sistemático de princípios, e resultar da observância dos princípios que compõem esse sistema – que está em competição com outros, em princípio tão coerentes quanto ele; não pode é resultar de um julgamento moral abstracto e supostamente desinteressado, nem deixar em nenhum caso de referir-se a um sistema de normas previamente definido; a essa atitude moral, à arrogância de pretender que se julga sempre em função da pura consciência e não de algo que a pré-determina, chama-se moralismo, e as suas virtualidades, em matéria de legitimação da praxis política, são zero.
O exercício de anti-sectarismo sectário praticado pelo “Arrastão” em relação ao episódio de Vital Moreira no 1.º de Maio da CGTP (vd. alguns momentos aqui) parece-me um exemplo desse moralismo; evidentemente, não contesto aos seus autores o direito de preferirem o partido B ao partido C, ou sequer o zelo com que praticam a sua preferência; contesto a hipocrisia de pretenderem que o fazem em nome de altos princípios e não de baixos interesses – iguais aos de toda a gente que suja as mãos na política, afinal. Neste caso, foi tal a entorse à verdade (sim, porque quem pretende que há uma moral única ao dispor da humanidade inteira também há-de reconhecer a existência de uma verdade objectiva, válida nomeadamente para toda a blogosfera) que me apetece passar a chamar a este blogue o “Jeitão”.
PS: O que aqui é dito sobre o “Arrastão” poderia ser dito sobre outros blogues, mas neste caso parece-me que não vale sequer a pena comentar o seu possível carácter “desinteressado”: they’re simply out there in the moral wilderness.

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