Notável e clarificador discurso de Jerónimo de Sousa na Marcha de Protesto da CDU de 23 de Maio, que encheu Lisboa do Campo Pequeno ao Marquês de Pombal

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Não iria aqui publicar na íntegra o discurso de ontem de Jerónimo de Sousa; se foi longo ou não, não sei, de tão certeiro nem dei pela sua “extensão”. Por isso, limitar-me-ei a destacar alguns excertos que tomo a ousadia de comentar e sublinhar (os negritos são, pois, da minha responsabilidade), excertos que comento e numero, destacando neles temáticas que julgo prementes. Comecemos.

 

1. Aponta aqui Jerónimo de Sousa algo que me parece evidente: estes últimos 4 anos de governo PS foram, desde o 25 de Abril de 74, os anos mais destrutivos e de maior retrocesso em termos de políticas sociais; Alain Badiou diria, a seu modo claro, que foram os anos de maior retrocesso político ou daquilo que merece o nome “política”: foram a época mais reaccionária, táctica e cobarde do pós-25 de Abril (desde o inenarrável Código do Trabalho ao chumbo dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo, que o PS protagonizou em Outubro passado); por seu lado, a resposta popular também foi/é a mais violenta desde então, e muito justamente!!

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O que nós andámos para aqui chegar, camaradas e amigos!

Animando a luta, pequena que fosse, transformando o protesto e o descontentamento em luta a partir dos problemas concretos, dos anseios concretos e das propostas para a sua resolução, afinal tivemos nestes anos últimos das maiores acções e manifestações do Portugal de Abril.
A força e dimensão da luta não derrotou a ofensiva! Mas travou-a,
obrigou a recuos no tempo, fragilizou e isolou socialmente o governo, tornou mais premente a necessidade de ruptura com esta política e mais próxima a possibilidade de mudança desta política e deste governo.
Sairemos daqui mais fortalecidos, mais determinados, com a consciência que chegando a esta praça ainda falta prosseguir, continuar, para rasgar alamedas e avenidas da liberdade, da justiça social, da democracia, duma vida melhor para os portugueses.

Estamos a viver uma fase na vida nacional de grande complexidade, inquietação mas também de possibilidades, de construção de um rumo diferente.
Num quadro de crise internacional do capitalismo e da crise económica e social que já existia e se agravou no nosso país, antes da crise internacional, realizam-se três actos eleitorais no curto espaço de quatro meses.
Não podendo explicar aos portugueses ou, precisando melhor, não querendo explicar aos portugueses porque é que com um governo de maioria absoluta com a concertação e apoio presidencial à sua política o país nestes quatro anos, está mais injusto, mais desigual, mais dependente e mais endividado. O governo PS Sócrates justifica-se dizendo que a culpa vem toda de fora.

Querem passar uma esponja por cima da brutal ofensiva que desencadearam desde o início do seu mandato e que atingiu de forma dramática os trabalhadores e as populações e levaram à contínua degradação das suas condições de vida e de trabalho. 

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Querem fazer esquecer que estes anos de governo do PS transformaram-se em anos de escandalosa apropriação de uma grande parte da riqueza nacional por uma minoria. Querem fazer esquecer que cada ano de governo do PS foi um ano de incomensuráveis lucros para a banca, para os grandes grupos económicos e para a corte, principesca e escandalosamente remunerada, que os serve e garante a sua crescente influência no poder político, o seu domínio absoluto sobre a economia nacional.
Não foi com a crise e por causa da crise internacional que o governo PS passou a atacar o Serviço Nacional de Saúde, mas por uma deliberada opção política, bem patente desde o primeiro ano do seu mandato e que visa colocar o direito à saúde dos portugueses nas mãos do negócio privado e do lucro. »

 

2. Sublinha aqui Jerónimo de Sousa uma outra indiscutível evidência: a de que o governo PS no seu todo, e exemplarmente desde o Ministério da Educação, tentou desacreditar pessoas e profissões (a do professor, nomeadamente), através de injustos ataques fanaticamente dirigidos, falsos e demagógicos, tentando captar apoios (na “população”, diziam) na base da mentira, da “divisão para reinar” (táctica eterna dos fracos), desmobilizando nas pessoas o seu crédito nos serviços públicos tentando destruir a Administração Pública em benefício de negócios privados em todas as áreas e ramos. (Continua)

 

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Quatro anos de investida sem precedentes contra os trabalhadores da saúde, contra os médicos, os enfermeiros e outros profissionais, através de uma política de recurso humanos dominada por campanha ignóbil para desacreditar os profissionais e orientada para a destruição da carreira pública, para a precariedade dos vínculos e redução dos salários.
Não foi com a crise internacional, nem por causa da crise, mas muito antes dela que assistimos à concretização de uma política educativa cada vez mais moldada aos grandes interesses económicos e aos interesses das classes dominantes
, centrada num ataque nunca antes visto contra a Escola Pública e contra a dignidade social e profissional dos professores e do direito à educação e ao ensino dos portugueses.
Não foi apenas com a crise internacional que os trabalhadores portugueses se viram confrontados com novas violações dos seus direitos com aplicação indiscriminada do lay-off, da redução dos salários e dos direitos, dos abusivos despedimentos individuais e colectivos, foi desde o início do presente mandato do governo do PS com vergonhosa campanha que promoveu contra os trabalhadores da Administração Pública e depois generalizou a todos os trabalhadores portugueses, com as alterações ao Código de Trabalho que atingiram direitos vitais dos trabalhadores portugueses ao promover a facilitação dos despedimentos sem justa causa, a liberalização dos horários, a redução dos salários e remunerações e o ataque à contratação colectiva.

Um governo que fez dos trabalhadores da Administração Pública não só um bode expiatório das dificuldades do país, como desencadeou o mais brutal ataque depois do 25 de Abril contra os seus direitos prosseguindo a política do PSD/CDS-PP de congelamento e a diminuição dos salários reais, mas também o congelamento das carreiras, o inqualificável agravamento das condições de aposentação, a criação de novas formas de despedimento, a alteração à natureza do estatuto de trabalhador da Administração Pública, posto em causa com a introdução, em larga escala, do regime de contrato individual de trabalho.

Não foi apenas com a crise do capitalismo internacional que o desemprego assumiu dimensões, cada vez mais preocupantes. »

 

3. Aqui volta uma pedra de toque fundamental: não foi a crise internacional que levou aos novos cálculos das pensões e reformas, que fará a prazo cada um perder 50% daquilo a que tem direito; nem foi a crise internacional que obrigou a uma inédita campanha de privatizações.

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Não foi com a crise internacional, nem por causa da crise, mas em resultado de uma injusta reforma da segurança social que todos os trabalhadores portugueses vão ser obrigados a trabalhar mais anos para receberem uma pensão ainda mais baixa. Foi com este governo que agora abjura em palavras o neoliberalismo que anunciou, concretiza e mantém a política de privatizações a favor do grande capital com a alienação integral ou parcial da participação do Estado na Portucel, Inapa, Galp Energia, EDP, REN e TAP, mas também da ANA, em prejuízo dos interesses nacionais e à custa do património público e de mais diminuição das receitas fiscais. »

 

4. Eis aqui uma questão muito importante, que reservo para mais tarde, até porque nela estou implicado (e na oposição, claro), pois a mutação da universidade está em marcha embora com muitas indefinições ainda – de qualquer maneira percebe-se que o objectivo de Bolonha é o de privatizar e inflacionar exponencialmente os vários graus académicos desde a licenciatura: esta obra tem a marca típica da direita neoliberal europeia de que o PS faz parte (diga o que disser do neoliberalismo)

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Foi com este governo que no ensino secundário se desenvolve uma aposta forte na conversão da escola num mero instituto de formação profissional, assim convertendo as escolas em espaços de reprodução e aprofundamento das assimetrias sociais.

Foi com este governo que no ensino superior, a privatização, o processo de Bolonha, o fim da participação democrática dos estudantes e a abertura da gestão académica aos grupos económicos, a elitização e o encarecimento dos custos do ensino universitário e politécnico, não só representam uma política de desqualificação do sistema público de ensino como também significam a impossibilidade, para muitos, da continuidade dos estudos.

É esta juventude que é cada vez mais vilipendiada que é sempre utilizada por aqueles que governam há mais de três décadas o país nos seus discursos políticos pré-eleitorais como um floreado da campanha, como uma preocupação que fica bem. »

 

5. Aqui Jerónimo de Sousa aponta para a artimanha do PS em atribuir todos os males á crise internacional, aponta ainda as responsabilidades dos governos das últimas décadas da direita PS/PSD/CDS, e apela, muito bem, aos desiludidos que votaram PS que, diz-me a minha experiência pessoal são gente aos montões.

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O governo pode continuar a tentar esconder-se atrás da crise internacional que é real e que afecta de facto o nosso país. Mas a crise internacional não pode iludir a nossa própria crise interna, nem os problemas do país que se arrastam há anos e que conheceram um novo agravamento com o actual governo do PS.

Este governo do PS, tal como anteriores governos do PSD e CDS-PP veio pedir sacrifícios aos portugueses que menos podem com a promessa de mais adiante estar garantido um futuro mais radioso, mas chegados ao fim de quatro anos da sua governação e depois dos muitos sacrifícios, Portugal está pior do que estava antes, tal como a vida dos portugueses.
Mas enquanto a crise económica e social faz o seu caminho e todos os problemas se agravam com novos encerramentos de empresas, novas paragens de produção, mais salários em atraso, novas falências de pequenas e médias empresas e aumentam as famílias insolventes afundadas em dívidas, é para o grande capital financeiro que vai a prioridade da sua atenção e dos milhões. É por isso que a todos aqueles que lutaram, aos muitos milhares de eleitores, incluindo aqueles que votaram socialista, a todos os desiludidos do rotativismo e aos desencantados com as falsas e gastas alternativas que nos dirigimos para lhes dizer que é tempo de, em conjunto, trabalharmos para construir uma verdadeira alternativa à esquerda para que se retome a esperança e a confiança num Portugal com futuro e numa vida melhor para os portugueses. »

 

6. Aqui aponta-se certeiramente o PS como o responsável pela destruição dos serviços públicos (Serviço Nacional de Saúde e Escola Pública), e refere Jerónimo de Sousa o despudor do grande capital, escudado no seu PS, no encetar de reivindicações descaradas (lay-off, horas extra sem vencimento, baixa e congelamento de salários) e, mais importante do que tudo, diz Jerónimo de Sousa que esta grande marcha popular de protesto não é suficiente: há que continuar e redobrar sempre a tenção pois o inimigo não tem pudor e não desiste facilmente.

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Ouçam, leiam, vejam como é grande a impaciência do grande capital, os senhores do dinheiro para, passadas as eleições, garantidos que estejam por um poder político dócil, salva que seja a continuidade da política de direita, para retomarem com mais agressividade a ofensiva contra os salários e os direitos laborais e sociais, contra as reformas e as pensões, contra o Serviço Nacional de Saúde, contra a Escola Pública.
De vez em quando vão-se descaindo mas é cada vez mais claro que querem resolver a crise mantendo intocáveis os privilégios e os lucros e aumentar a exploração, fomentar o trabalho escravo sem direitos e sem descanso e manter um exército de desempregados!

Pode ser que se enganem!

Como se enganaram o governo PS e a direita económica que, tendo uma maioria absoluta, o apoio e aplauso dos poderosos, os meios de comunicação social dominante, uma direita política vazia, atarantada e aperreada pela direita económica, fizeram planos para mil anos julgando que estes quatro passados iam ser uma espécie de passeio aqui pela Avenida da Liberdade abaixo!

Estão zangados connosco! Uns e outros receiam a CDU. Com razão diga-se! Os trabalhadores e o povo português têm um dilema. Ou aceitam o prosseguimento do rumo desastroso para onde esta política está a conduzir o país ou consideram que é o momento de dizer basta e exigir a ruptura e a mudança pela luta e pelo voto!

(…)

Hoje, aqui, perante esta Marcha inesquecível, a maior acção alguma vez realizada por uma força política em Portugal, o sentimento que temos é de esperança e confiança!

Esperança e confiança que não ficam à espera porque na força imensa que somos todos juntos, pulsa o coração e o querer para lutar e transformar!»

 

Gostava ainda de referir que Jerónimo de Sousa não deixou de se referir aos artistas e intelectuais como forças importantes da mudança e da construção de um futuro melhor, artistas e intelectuais que José Sócrates, pelo retrato dos últimos 4 anos, não sabe certamente o que seja.

 

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13 respostas a Notável e clarificador discurso de Jerónimo de Sousa na Marcha de Protesto da CDU de 23 de Maio, que encheu Lisboa do Campo Pequeno ao Marquês de Pombal

  1. Pascoal diz:

    “se foi longo ou não, não sei, de tão certeiro nem dei pela sua “extensão”.”
    Está visto. Foste a Roma e viste o Papa.

  2. Chico da Tasca diz:

    Carlos Vidal, já alguém se deu ao trabalho de explicar aos carneiros que vão às manifs do pcp, o que é o comunismo ?

    Não me parece ! Aproveitam-se da ignorância das pessoas, para as manterem cada vez mais na ignorância.

    Acho que deviam, por exemplo, explicar-lhes que em matéria de Direitos, de Liberdade, de Democracia, de Corrupção, de Assassínios, o Salazarismo, por comparação com o Comunismo era uma Democracia Aavançada.

    Já agora quem paga os autocarros das câmaras comunistas que são postos à disposição da carneirada para virem em manada ouvirem o Grande Líder ?

  3. Carlos Vidal diz:

    Chico da Tasca, leia primeiro o texto do discurso juntamente com os meus comentários. Depois falamos. Já agora, trata-se de um exemplar balanço dos últimos quatro anos de socratismo (mas é muito mais do que isso).

  4. almajecta diz:

    trabalho de casa escorreito claro e distinto, não esquecer contudo no ponto 5, no que concerne ao apelo aos desiludidos que votaram PS nas últimas eleições, os camaradas indisciplinados e traidores, também eles gente aos montões.

  5. jpt diz:

    Carlos, desculpar-me-á, mas post de pura propaganda política ao PCP são tão enfadonhos quanto os posts do Jugular de propaganda ao sócrates. Um bocadinho de “voz própria”, sffv.

  6. rms diz:

    ó Chico e se fosses chamar carneiro ao teu velhote?

  7. Carlos Vidal diz:

    jpt, terá talvez razão no termo propaganda, mas não na comparação. Os outros posts que refere são sempre encapotados, este não é. Eu (“voz própria”, como diz) vi no discurso de Jerónimo de Sousa uma excelente síntese destes últimos quatro anos socratistas e, ponto a ponto, seccionei esse mesmo discurso e comentei-o. Nem sei, nem faço a menor ideia, se alguém do PCP está de acordo com a minha análise e comentários. É voz própria pura esta. No fundo, nem é “propaganda”, ao contrário do que parece. É análise objectiva e concordância no essencial.

  8. Sérgio diz:

    Vinha aqui mandar uma boca ao carlos vidal perguntando-lhe o que ele achava desses neoliberais que teimam em apregoar as virtudes de um sistema falhado. E ia fazê-lo sem ler o texto.
    Afinal, concordo com o texto na integra.

  9. almajecta diz:

    estão na moda as vanguardas dos renovadores, dos passados para o PS e para o BE, mudam por oportunismo vergonhoso e indigente. O grão da voz e as purezas da literatice em blog há muito estão identificadas com os fins de fazer calar. Parabéns, Força, Coragem.

  10. Antónimo diz:

    pq é que sempre que se fala do pcp tem se se levar com lições de negócios estrangeiros?

  11. Paulo Ribeiro diz:

    carlos vidal, penso que nem o meu amigo acredita numa virgula do que defende. a si, deixo-lhe uma simples e algo prosaica verdade do seu e do meu tempo: estamos a presenciar uma crise mundial como nunca se viu na história da humanidade. compreende agora? compreende que o santinho do pau oco do seu chefe erra em toda a linha? compreende que isso é só barganha politica dirigida a analfabetos? compreende, que, sendo o meu amigo um ilustrado, até lhe fica mal, pautar o seu juízo por quem não teve a sorte de lhe fornecerem um?

  12. maria monteiro diz:

    Chico da Tasca, como anda iludido… até mesmo as santas velhinhas da igreja começam a pensar por elas próprias… (veja só o que aconteceu na grandiosa procissão em comemoração dos 50 anos do Cristo-Rei: esperavam 500.000 pessoas, depois estimaram 200.000 e afinal nem sequer chegaram a 100.000) Será que também é da crise ou a acção psicológica da igreja já não é o que era?.

  13. Fernando Norte diz:

    oh Chico, muda de tasca…

    Estive em Lisboa, por vontade própria e paguei o meu lugar no autocarro. Não dei nem tempo nem dinheiro por mal empregue … e até nem sou de ir em manifestações mas, se calhar, vou passar a ir mais vezes. Quem sabe se, com algumas mais, assim, a “coisa” não começa a mudar?
    Jerónimo, um ex-operário, tem surpreendido muita gente que parece confundir instrução com cultura, a exemplo do Sr. Paulo Ribeiro.Talvez, por isso mesmo, também outros se surpreendam pelo facto do único prémio de literatura deste país ter sido atribuído a alguém que não possui “canudo”!
    No PCP nem todos serão tão dotados, mas que esta força política é uma autêntica “universidade aberta”, lá isso é. Sobretudo, de participação e intervenção cívica! O que, obviamente, não deixa de incomodar… É bom que assim seja, quem sabe, um dia, não decidam aprender algo mais, principalmente sobre o sentido de solidariedade e igualdade de oportunidades, dando a si mesmo um sentimento de justiça social que ainda não lograram alcançar.
    Lúcida e objectiva a intervenção do Secretário Geral do PCP!

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