O Estado da Dicção

Ainda a propósito da questão dos sotaques, há quem diga que o português do Brasil é o mais autêntico, por ter preservado a forma de falar original, assim um bocado como aqueles bigodes que Portugal exportou nos anos sessenta e já só sobrevivem em alguns cafés no Luxemburgo e na margem direita de Paris. O português de Portugal, entretanto, esvaziou-se de vogais e fala-se entredentes, como as ordens dos capos sicilianos: é cada vez mais difícil pedir um café e uma água das Pedras sem que o empregado (“Como disse?”) nos faça repetir o pedido um ror de vezes (não acredito na versão governamental, defendida por Fernanda Câncio na última coluna no DN, de que somos o país da OCDE com mais surdos per capita no sector da restauração). Não, não é uma visão catastrofista do estado da nossa dicção: a breve trecho, para podermos entender-nos uns aos outros, o português de Portugal terá de ser legendado ou dobrado em português do Brasil (opção preferida pelo lobbying dos actores lusos, mas quem é que quer andar com a Cucha Carvalheiro atrelada o dia todo?). Há mesmo quem defenda que, hoje, se por obra e graça de uma máquina de viajar no tempo, um português do séc. XVI regressasse à vida, teria menos dificuldade em entender um brasileiro que um português hodierno – e não é difícil imaginar a verdade que há nestes anacronismos históricos.
 
Brasileiro do séc. XXI: Você que é o Fernando Pessoa?
Camões: Não, eu sou o Luiz. Com z.
Brasileiro do séc. XXI: Me falaram que você escreve uns versos.
Camões: É, estou escrevendo umas rimas, sim.
Brasileiro do séc. XXI: Seu livro já tem nome?
Camões: Estou pensando chamar de Memorial do Império, tá ligado?
Brasileiro do séc. XXI: Poderoso, senti firmeza.
Camões: Vou mandar o manuscrito pra uns mano que eu conheço em Lisboa.
Brasileiro do séc. XXI: Faz isso não, cara. Você publica em Porrtugau, nunca mais ninguém lê você nem no vestibular. Passa essa droga pró computador e envia pra uma editora brasileira, lá eles já tão aplicando o acordo ortográfico.
Camões: Ah, ideia meio legau, essa. Tou até sonhando com o Nobéu.
Brasileiro do séc. XXI: Vai sonhando. Agora só daqui a uns 300 mil anos que eles vão dar o prémio pra outro escritor de língua portuguesa, viu?
Camões: Erros meus, má fortuna, ter reencarnado no milênio errado.
Brasileiro do séc. XXI: Fudido. Quem sabe você não ganha o prémio Paulo Coelho?
(…)
Português do séc. XXI: Desculpe incomodar, mas o senhor é o Luiz Vaz de Camões?
Camões & brasileiro do séc. XXI: Oi?!
Português do séc. XXI: Eu li as suas obras nos tempos do liceu, sou seu fã. “As armas e os barões assinalados…”
Camões (para brasileiro do séc. XXI): Que língua que esse feiinho fala, cê sabe?
Brasileiro do séc. XXI: Inglês, acho.
Camões: Sorry, não dou autógrafo pra viado, tá?
Português do séc. XXI (com ar atrapalhado): Ahn… Gostei muito dos Lusíadas, especialmente do Canto V e da Ilha dos Amores. O senhor doutor tem mais alguma obra na calha?
Camões (levando a mão à espada): Olha aí, otário, aqui a gente fala português, sacou? Circula moleque, senão a casa cai pró teu lado, depois acorda com a boca cheia de formiga e não sabe porquê.
Brasileiro do séc. XXI (puxando Camões pelo braço): Deixa pra lá, a West Coast é brega mesmo, viu? Em Santos você não vê esses pés-rapados. Vamo beber um chope, pegar umas fritas? Aqui eles têm uma coisa chamada “trêmoço”, você paga.
Camões: Pago nada, tou sem um réi. Deixa eu usar seu celular pra ligar pró Garcia de Resende?
Brasileiro do séc. XXI: Tá louco, cara, com o preço a que tá o roaming?!… Aí, o que você achou do Botafogo vender o Maicosuel prós alemães?
 
Disclaimer: este post não é biodesagradável nem contém aditivos. A lírica camoniana não foi ferida durante as gravações. Qualquer semelhança com o Homem-Cueca, bem conhecido super-herói paulistano, é, claro, a mais absurda das coincidências.

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Uma resposta a O Estado da Dicção

  1. Texto infeliz e preconceituoso.

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