Almoço oferecido por personalidade da política europeia, algures na Europa central. À mesa, tableau-vivant da Babel recriada por Bruxelas, fala-se francês, alemão e inglês com sotaques não normalizados, quando o meu ar pequenino como a sardinha me denuncia. “Vous êtes portugaise? Brésilienne?”, pergunta uma jornalista sentada à minha frente. “Portugaise, et vous?”. “Française d’origine brésilienne” (os franceses & suas indescartáveis origens). “Ah, então pôdêmos falar PORTUGUÊIS!”, digo-lhe eu com o meu melhor sotaque paulista. Ela entusiasma-se; normalmente não nos percebe, mas a mim, milagre de pai de santo, ela entende. “Você não tem esse sotaque, assim, português!”, elogia.
Não sei o que me parece mais divertido: a ingenuidade que a leva a tomar por autêntico o meu português tropical, ou a convicção de que nós, do lado de cá do Atlântico, deturpamos a pureza originária da língua (que, como toda a gente sabe, jorra límpida e cristalina das nascentes do Brasil) com um desnecessário e postiço sotaque. A ideia não é tão estranha como parece, se atentarmos na eslavização do português de Portugal, todo ele consoantes, vogais átonas & sons nasais difíceis de expelir até para os indígenas (e compare-se a falta de naturalidade dos actores das novelas da TVI com os congéneres da Globo). Se calhar por isso, entre brasileiros, tenho sempre a impressão de falar um português trava-línguas; uma pessoa pergunta-lhes, com grande esforço de articulação, “desculpe, sabe se o rato roeu a rolha do garrafão do rei da Rússia?”, e eles cantarolam a resposta, dengosos, sem perderem sequer um quinto de vogal, como no poema de Sophia.
Decido revelar à minha interlocutora franco-brasileira que estava a falar “pôrtugueis do Brasiú”, e atalho caminho para as áridas consoantes de Camões, não vá ela supor que estou a gozar com o belo acento de Vera Cruz. “E então, está a gostar de três tristes tigres?”, pergunto-lhe no meu melhor português para estrangeiros – e levo com um “Oi?!”, a incompreensão estampada na cara. Volto à carga com um esforço de maxilares digno dos jornalistas de rádio dos anos 50 (“Alô Bra-zzzil, a-qui Pur-Tu-Gal!”): “Di-zi-a que se cá ne-va-sse fa-zi-a-se cá ski, per-ce-beu?”. Népias: “Ah, não entendo nada!…”.
E eis como passei grande parte do almoço a falar com a pronúncia pan-brasileira das novelas – até me surgirem dúvidas sobre os acordos, não os ortográficos, mas os relacionados com a conjugação do “passé composé” no português do Brasil (altura em que, percebendo que tinha bebido demais, decidi regressar à língua de Molière, idioma simples que não requer a concentração necessária para traduzir a língua-mater para o português do futuro).
Este post tem banda sonora.




Chapeau!
Caríssima,
Em Porto Alegre tentei meter conversa com uma nativa que me respondia em inglês, apesar de eu lhe dizer que falava a mesma língua que ela: o português. A rapariga acedeu com a cabeça e respondeu-me em inglês: claro que sim.
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